“Relatório da Abin aponta nível crítico de pressão dos Estados Unidos sobre as eleições de 2026. Sanções financeiras, retaliações comerciais, alinhamento ideológico e deslocamento de recursos militares revelam uma estratégia de domínio que exige resposta firme, democrática e coordenada do Brasil.”
A advertência enviada pela Agência Brasileira de Inteligência à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça acrescenta gravidade institucional a um processo que já podia ser observado em atos públicos do governo norte-americano. Segundo revelou a jornalista Mônica Bergamo, a Abin elevou ao nível “crítico” o risco de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026.
O documento reservado descreve uma pressão “gradual, combinada e adaptativa”. A expressão ajuda a compreender o método. Cada episódio, analisado isoladamente, pode parecer uma disputa comercial, uma providência contra o crime organizado, uma declaração diplomática ou uma rotina de cooperação militar. Quando os fatos são alinhados, surge uma política de poder destinada a reorganizar a América Latina em torno dos interesses econômicos, militares e ideológicos de Washington.
O relatório da Abin afirma que o objetivo norte-americano inclui afastar potências rivais, sobretudo a China, dos ativos estratégicos, das riquezas naturais e das infraestruturas latino-americanas. O Brasil aparece como alvo preferencial por reunir escala econômica, recursos minerais, petróleo, biodiversidade, produção de alimentos e capacidade diplomática para sustentar alguma autonomia diante dos Estados Unidos. A íntegra da reportagem da Folha detalha essa avaliação.
A doutrina sai dos documentos e chega às urnas
A chamada Doutrina Donroe, expressão que combina o nome de Donald Trump com a antiga Doutrina Monroe, ganhou contornos mais precisos durante o segundo mandato do presidente norte-americano. Seu princípio orientador continua reconhecível: Washington reivindica para si a autoridade de definir quais governos, parceiros econômicos e projetos políticos seriam aceitáveis no Hemisfério Ocidental.
A novidade está nos instrumentos empregados e em sua articulação. Tarifas comerciais, restrições financeiras, sanções pessoais, controle do acesso ao dólar, operações de inteligência, classificação de grupos estrangeiros como terroristas, pressão diplomática e cooperação militar seletiva passaram a compor uma mesma arquitetura.
Um estudo publicado pelo Instituto de Diplomacia da Universidade Georgetown descreve três pilares dessa política: a formação de uma coalizão de governos conservadores alinhados a Washington; a militarização da segurança regional sob o discurso de combate ao narcotráfico; e o emprego de tarifas como instrumento de coerção política. O grupo de ex-diplomatas, especialistas e profissionais de inteligência reunido pela instituição concluiu que essa estratégia pode obter submissões imediatas, mas tende a produzir instabilidade e a empurrar países latino-americanos para novas alianças. O estudo está disponível no portal da Universidade Georgetown.
No caso brasileiro, a fronteira eleitoral já teria sido cruzada. Em 2025, uma minuta proposta pela Casa Branca pretendia incluir, numa declaração conjunta, a exigência de que o Brasil garantisse a participação de supostos “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais. A formulação permitia a uma potência estrangeira opinar sobre quem poderia disputar o poder no país e antecipar suspeitas sobre a legitimidade das instituições eleitorais brasileiras.
A Abin também aponta o componente ideológico das manifestações de Marco Rubio. Em audiência no Senado norte-americano, o secretário de Estado teria associado a recuperação da hegemonia dos Estados Unidos à ascensão de governos latino-americanos alinhados à Casa Branca. Brasil, Cuba, Nicarágua e Venezuela foram relacionados entre os países que permaneciam fora desse círculo político.
O dólar como instrumento de pressão
A escalada não depende de soldados atravessando fronteiras. O alcance internacional do sistema financeiro norte-americano permite que sanções adotadas em Washington produzam efeitos imediatos sobre empresas, bancos, investidores e cidadãos de outros países.
Em julho, dois brasileiros e empresas sediadas no Brasil e em Portugal foram sancionados por supostas ligações com redes financeiras associadas ao PCC. O combate ao crime organizado é necessário e exige cooperação internacional. O problema aparece quando decisões unilaterais, tomadas sob a legislação de outro país, alcançam pessoas jurídicas brasileiras, constrangem instituições financeiras nacionais e geram sanções indiretas sobre terceiros antes de uma coordenação adequada com as autoridades do Brasil.
A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos aumenta esse raio de ação. Operações comerciais aparentemente regulares podem ser bloqueadas; bancos podem encerrar contas por receio; fornecedores podem romper contratos; empresas podem ficar afastadas do dólar e do sistema financeiro internacional. Esse poder extraterritorial alcança a economia brasileira sem passar pelo Congresso Nacional ou pelos tribunais do país.
A ofensiva comercial segue a mesma lógica. A investigação aberta sob a Seção 301 da legislação norte-americana incluiu políticas brasileiras de comércio digital, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. O procedimento transformou divergências regulatórias em possíveis fundamentos para retaliações. O governo brasileiro apresentou sua defesa técnica, enquanto o próprio escritório comercial dos Estados Unidos avançou na definição de medidas contra o país. O Ministério do Desenvolvimento mantém a documentação da defesa brasileira.
A América do Sul volta ao mapa militar
A movimentação militar recente oferece outro indicador dessa mudança de época. O governo Trump notificou o Congresso sobre a intenção de transferir US$ 52 milhões antes destinados à Europa e ao Oriente Médio para programas militares no Panamá, Peru, Equador e Colômbia. Os recursos financiarão equipamentos, treinamento e assistência técnica. O valor é relativamente pequeno diante do orçamento norte-americano, mas sua direção política é bastante eloquente: fortalecer governos aliados e ampliar a presença de Washington em torno de áreas estratégicas da América do Sul. A transferência foi detalhada pela Folha.
Há ainda o planejamento para deslocar drones MQ-9 Reaper do Comando da África para o Comando Sul, responsável pela América Latina e pelo Caribe. Essas aeronaves realizam vigilância, coleta de inteligência e ataques de precisão. Segundo as informações disponíveis, parte delas poderia apoiar operações no Equador, dentro de um pacote mais amplo de reposicionamento militar. Em 2025, os Estados Unidos já haviam enviado drones, caças F-35 e uma aeronave AC-130 ao Caribe. O plano de transferência dos Reaper foi relatado pelo UOL, com base em informações da CNN.
A justificativa oficial volta a ser o “narcoterrorismo”, conceito suficientemente elástico para misturar combate ao tráfico, segurança nacional, alinhamento ideológico e operações militares. A experiência latino-americana recomenda cautela sempre que uma potência transforma problemas reais da região em autorização permanente para ampliar sua jurisdição.
Venezuela e Irã mostram até onde o governo Trump está disposto a levar políticas de cerco, sanção e força militar. Isso não significa que esteja em preparação uma intervenção armada contra o Brasil. Não há evidência pública que autorize essa conclusão. O risco imediato é mais sofisticado e, por isso, menos visível: constrangimento econômico, punição financeira, sabotagem informacional, exploração das divisões internas, intimidação de autoridades e criação antecipada de suspeitas sobre a eleição.
Soberania começa com transparência
Responder a esse quadro exige sobriedade. A defesa da soberania brasileira não pode servir de licença para esconder falhas nacionais, restringir a imprensa, perseguir adversários ou tratar qualquer crítica externa como conspiração. Também não pode ficar limitada a discursos presidenciais. O enfrentamento precisa ser institucional, transparente e submetido à Constituição.
O governo, o Congresso, o TSE (???) e os órgãos de inteligência deveriam tornar públicos, preservadas as informações operacionais sensíveis, os fundamentos do alerta e as providências adotadas. O país precisa conhecer:
- quais ações estrangeiras foram identificadas;
- quais redes financeiras, digitais e políticas podem estar envolvidas;
- como serão monitoradas campanhas coordenadas de desinformação;
- quais salvaguardas protegem a infraestrutura eleitoral;
- como bancos e empresas brasileiras serão amparados diante de sanções extraterritoriais;
- quais canais diplomáticos e multilaterais serão acionados;
- que medidas impedirão financiamento estrangeiro direto ou indireto de campanhas e operações digitais.
Também será necessário acompanhar anúncios impulsionados, perfis artificiais, conteúdos produzidos por inteligência artificial, transferências por criptomoedas, atuação de consultorias estrangeiras e campanhas destinadas a semear desconfiança antes mesmo da abertura das urnas. A interferência contemporânea raramente chega com uniforme. Ela circula por plataformas, mercados, instituições financeiras e grupos políticos locais dispostos a converter interesses estrangeiros em armas de disputa doméstica.
A população brasileira precisa conhecer as ameaças sem ser empurrada para o pânico. Preparar-se para o pior, neste momento, significa fortalecer a segurança cibernética, proteger a economia, diversificar relações internacionais, resguardar os recursos naturais e garantir que a decisão eleitoral permaneça nas mãos dos brasileiros.
O Brasil pode manter relações maduras e produtivas com os Estados Unidos. Essa parceria terá de respeitar uma fronteira elementar: cooperação entre países soberanos não concede a nenhum governo estrangeiro o poder de escolher nossos governantes, condicionar nossas alianças ou reivindicar prioridade sobre minerais, energia, infraestrutura e biodiversidade.
Quando uma potência começa a separar governos “amigáveis” de governos inconvenientes, a eleição de cada país deixa de ser observada como expressão de sua sociedade e passa a ser tratada como peça de um tabuleiro. É precisamente aí que a vigilância democrática precisa começar.