As duas Amazônias que o Brasil ainda não aprendeu a governar juntas

“Da floresta ao Atlântico, rios, clima, biodiversidade e economia formam um território contínuo, enquanto pesquisas, políticas públicas e interesses econômicos ainda caminham por compartimentos”

Quando se fala em Amazônia, o pensamento costuma seguir para a floresta, os rios, a biodiversidade, os povos que vivem no território e a imensa quantidade de água que circula entre o solo, as árvores e a atmosfera. Há, porém, outra Amazônia de dimensões igualmente continentais, estendida diante da costa brasileira e ainda pouco presente na percepção nacional.

É a Amazônia Azul, o espaço marítimo sob jurisdição brasileira que reúne o mar territorial, a Zona Econômica Exclusiva e a plataforma continental. Considerada a extensão apresentada pelo Brasil à Organização das Nações Unidas, essa área pode alcançar cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados. A parcela correspondente à Zona Econômica Exclusiva ocupa aproximadamente 3,6 milhões de quilômetros quadrados.

A comparação ajuda a dimensionar o que permanece quase invisível. A porção brasileira da Amazônia continental possui perto de 5 milhões de quilômetros quadrados. Diante dela, projeta-se no Atlântico uma área marítima de tamanho semelhante, rica em biodiversidade, petróleo, gás, recursos pesqueiros, rotas comerciais, cabos submarinos, possibilidades energéticas e organismos ainda desconhecidos pela ciência.

A aproximação entre as duas Amazônias, contudo, alcança algo mais profundo do que a escala territorial. Floresta, rios, costa e oceano pertencem a um sistema ambiental contínuo.

As divisões aparecem nos mapas administrativos, nos ministérios, nas agências reguladoras, nas universidades e nos setores econômicos. A água segue outro percurso.

O rio Amazonas transporta até o Atlântico água doce, sedimentos, nutrientes, minerais e matéria orgânica recolhidos ao longo de uma bacia que atravessa vários países. Ao alcançar a costa, essa descarga forma uma extensa pluma fluvial, capaz de avançar milhares de quilômetros pelo Atlântico tropical, conforme as correntes, os ventos e as variações sazonais.

A influência amazônica, portanto, prossegue muito além da foz.

A pluma altera a salinidade e a disponibilidade de nutrientes, interfere na produtividade biológica e participa dos ciclos de carbono e nitrogênio no oceano. Microrganismos, algas, peixes, aves e outros componentes da cadeia alimentar respondem a essa combinação de água continental e oceânica. Estudos sobre a pluma do rio Amazonas no Atlântico tropical⁠ mostram a complexidade de um ambiente que varia conforme a vazão do rio, as chuvas, os ventos e a circulação marinha.

duas amazonias
Fotos: Jason deCaires Taylor/Musan

O movimento também ocorre no sentido inverso. O Atlântico fornece a umidade transportada pelos ventos para o continente. Parte dessa água precipita sobre a floresta, é absorvida pelas raízes e retorna à atmosfera pela evapotranspiração. O ciclo se repete e alimenta os chamados rios voadores, que distribuem umidade pela Amazônia e por outras regiões da América do Sul.

O oceano participa da formação da floresta. A floresta, por sua vez, modifica a água e os materiais que chegam ao oceano. Alterações importantes em qualquer lado dessa relação repercutem no outro.

Secas prolongadas modificam a vazão dos rios e a descarga de sedimentos e nutrientes. O desmatamento interfere na reciclagem da umidade e no regime de chuvas. O aquecimento do Atlântico altera temperaturas, ventos e padrões de precipitação sobre a Amazônia. Poluentes lançados nas cidades, nos garimpos e nas atividades econômicas percorrem os rios até alcançar estuários, manguezais e ambientes marinhos.

A bacia hidrográfica guarda a memória de tudo o que acontece em seu percurso. O oceano recebe parte dessa conta.

Uma reportagem publicada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação⁠, em 27 de agosto, abre uma série destinada a apresentar a Amazônia Azul à sociedade brasileira.

O oceanógrafo Eduardo Secchi, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade da Amazônia Azul, chama atenção para as funções climáticas desempenhadas pelos dois espaços. A Amazônia continental atua fortemente por meio da evapotranspiração. A Azul redistribui calor pelas correntes oceânicas e possui grande capacidade de absorver dióxido de carbono.

Essa absorção prestou, durante décadas, um serviço ambiental de valor incalculável à humanidade. Parte do calor acumulado pelas emissões de gases de efeito estufa foi armazenada pelos oceanos. Parte do carbono lançado na atmosfera também foi absorvida pelas águas.

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O serviço tem consequências. O aquecimento marinho afeta correntes, desloca espécies e aumenta a intensidade de determinados eventos extremos. A absorção de carbono modifica a química da água e provoca acidificação, com impactos sobre corais, moluscos e organismos que dependem de estruturas calcárias.

A estabilidade climática proporcionada pelo oceano carrega sinais crescentes de sobrecarga.

A Amazônia Azul sustenta atividades fundamentais para o Brasil. Pelas rotas marítimas circula a maior parte do comércio exterior. No subsolo oceânico encontram-se os principais campos de petróleo e gás do país. Na costa estão portos, estaleiros, terminais, indústrias, cidades turísticas e comunidades pesqueiras.

Há também um campo econômico ainda em formação, composto por aquicultura, biotecnologia marinha, cultivo de algas, novos alimentos, medicamentos, cosméticos, biomateriais, energia eólica offshore, monitoramento por satélites, robótica submarina e restauração de manguezais e recifes.

O potencial é considerável, mas o Brasil ainda conhece de maneira insuficiente até mesmo a contribuição atual da economia do mar. Em 2025, um grupo coordenado pelo Ministério do Planejamento, com participação do IBGE, estabeleceu uma metodologia para calcular o chamado PIB do Mar. O relatório oficial⁠ reconhece lacunas em setores como pesca, aquicultura, turismo, saneamento e serviços relacionados ao oceano.

A dificuldade estatística revela um problema político. Torna-se difícil planejar, proteger e distribuir os benefícios de uma economia cuja dimensão ainda não foi adequadamente medida.

Essa advertência já é conhecida na Amazônia continental. Durante décadas, recursos naturais foram retirados, transportados e transformados longe do local de origem, enquanto os custos ambientais e sociais permaneceram no território. A experiência recomenda cautela quando o país começa a olhar para o oceano como uma nova fronteira de riquezas.

Em poucos lugares a ligação entre Amazônia Verde e Amazônia Azul aparece de maneira tão sensível quanto na Margem Equatorial, especialmente diante da costa do Amapá e do Pará.

Ali se encontram expectativas de petróleo, interesses de segurança energética, perspectivas de arrecadação e demandas por desenvolvimento regional. Encontram-se também correntes complexas, manguezais, pesca artesanal, ambientes profundos pouco conhecidos e ecossistemas influenciados pela descarga do Amazonas.

O debate público costuma distribuir esses componentes em campos previsíveis. De um lado aparecem empregos, royalties, investimento e energia. Do outro, biodiversidade, riscos de acidentes e mudança do clima. A realidade reúne todas essas dimensões numa mesma geografia.

Explorar petróleo em uma região sensível requer conhecimento oceanográfico, capacidade logística e estrutura de resposta compatíveis com o risco. Também exige uma discussão sobre o destino das receitas, os benefícios locais, os compromissos climáticos brasileiros e o horizonte econômico de um mundo que procura reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis.

A ciência tem a função de reduzir incertezas. Quando os dados são insuficientes, a própria insuficiência precisa integrar a decisão. A ausência de conhecimento não transforma o risco em inexistência.

A história da ocupação territorial brasileira deixou uma coleção conhecida de conflitos. Atividades econômicas foram autorizadas antes do conhecimento suficiente dos ecossistemas. Infraestruturas avançaram sem planejamento integrado. Danos ambientais foram tratados como externalidades e comunidades locais receberam uma fração limitada da riqueza produzida.

O oceano oferece condições para que esse padrão reapareça em escala imensa.

Pesca, turismo, petróleo, gás, portos, conservação, mineração e geração de energia podem disputar as mesmas áreas. Um empreendimento economicamente viável, observado isoladamente, pode comprometer outra atividade ou degradar um serviço ecossistêmico essencial.

Manguezais funcionam como berçários de espécies, protegem o litoral e armazenam carbono. Recifes sustentam biodiversidade, pesca e turismo. Estuários conectam a dinâmica dos rios às cadeias alimentares marinhas. A destruição de qualquer desses ambientes produz efeitos que escapam aos limites do projeto responsável pelo dano.

A mesma lógica vale para o saneamento das cidades costeiras, o plástico transportado pelos rios, a pesca ilegal, os derramamentos de óleo e a ocupação de áreas sujeitas à elevação do nível do mar. Os problemas chegam ao oceano por caminhos administrativos diferentes e se acumulam no mesmo ambiente.

Em junho de 2025, o governo federal instituiu o Planejamento Espacial Marinho. O instrumento deverá organizar, no espaço e no tempo, as atividades humanas desenvolvidas na Amazônia Azul e compatibilizar objetivos ambientais, econômicos, culturais e sociais.

Decreto nº 12.491⁠ estabelece que o primeiro planejamento seja concluído até 2030. Prevê diagnósticos, cenários, zoneamentos, participação social, abordagem ecossistêmica, precaução, justiça climática e incorporação dos conhecimentos científicos e tradicionais.

É um avanço institucional importante. Seu resultado dependerá da qualidade dos dados, da transparência, da participação das comunidades costeiras e da capacidade do Estado de enfrentar interesses econômicos poderosos. Um mapa pode ordenar atividades; também pode apenas formalizar decisões já tomadas, caso seja construído depois que os espaços mais valiosos estiverem ocupados.

O planejamento será especialmente relevante para a região Norte. A costa amazônica possui características ecológicas, sociais e logísticas distintas das regiões Sul e Sudeste. Seus manguezais, estuários, comunidades e grandes distâncias exigem modelos próprios de pesquisa, monitoramento e resposta a acidentes.

A reportagem do MCTI ajuda a apresentar ao país um patrimônio ainda ausente de boa parte do imaginário nacional. O passo seguinte consiste em compreender que as duas Amazônias não podem permanecer separadas pela forma como o Estado organiza suas competências.

Políticas florestais interferem nos rios. Políticas urbanas interferem na qualidade da água. Garimpo, mineração e agricultura deixam resíduos que atravessam a bacia. Mudanças na temperatura do Atlântico repercutem sobre as chuvas e as secas amazônicas. Decisões energéticas tomadas na costa influenciam compromissos climáticos que alcançam a floresta.

O território pede uma governança capaz de acompanhar o percurso completo da água, da umidade que chega do oceano à chuva que cai sobre a floresta, atravessa árvores, solos, cidades e rios e retorna ao Atlântico carregando as marcas desse caminho.

O Brasil começa a reconhecer que possui duas Amazônias. Ainda precisa aprender a conhecê-las, protegê-las e transformá-las em desenvolvimento sem repetir no mar os erros acumulados em terra. A floresta em pé e o oceano saudável pertencem à mesma estratégia nacional. Entre ambos corre o maior rio do planeta, lembrando diariamente que a natureza jamais aceitou as fronteiras com que dividimos sua administração.

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Referências essenciais

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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