CIEAM, 47 anos: uma indústria que aprendeu a pensar a Amazônia

Coluna Follow-Up

Há 47 anos, um pequeno grupo de empresários de Manaus decidiu que a indústria instalada no coração da Amazônia precisava de voz própria, capacidade de articulação e disposição para defender um projeto que ainda buscava provar sua viabilidade ao restante do Brasil. Nascia o Centro da Indústria do Estado do Amazonas.

Quase meio século depois, muita coisa mudou. Mudaram os produtos fabricados, as tecnologias, os mercados, os governos e as ameaças. A Zona Franca de Manaus atravessou reformas constitucionais, crises econômicas, disputas tributárias, mudanças regulatórias, secas históricas, transformações tecnológicas e sucessivas previsões de esgotamento. O CIEAM atravessou tudo isso junto com ela. Seguramente, aqui está uma das melhores experiências desses 47 anos.

Instituições empresariais costumam ser avaliadas pelo patrimônio que representam ou pelos interesses que conseguem defender. Na Amazônia, essa conta sempre foi mais complexa. Uma fábrica em Manaus participa de uma equação territorial que envolve emprego, arrecadação, conservação florestal, logística, soberania, ciência, tecnologia e a própria capacidade brasileira de manter população, atividade econômica legal e inteligência produtiva em uma região decisiva para o século XXI. O CIEAM foi compreendendo essa dimensão ao longo do caminho.

Mário Expedito Neves Guerreiro, Edgar Monteiro de Paula e os empresários que participaram daquele começo dificilmente poderiam antecipar todas as batalhas que viriam. Sabiam, entretanto, que nenhum projeto econômico sobreviveria isoladamente. Era preciso organização, diálogo, representação e persistência.

Passaram presidentes, conselheiros, executivos, trabalhadores, técnicos, pesquisadores e interlocutores públicos. Vieram as grandes discussões sobre incentivos fiscais, infraestrutura, energia, telecomunicações, formação profissional, pesquisa e desenvolvimento. Mais recentemente, chegaram com força a economia circular, a descarbonização, a bioeconomia, a transição energética, os critérios ESG e a necessidade de demonstrar ao país algo que durante décadas permaneceu mal explicado: qual é, afinal, a contrapartida brasileira da indústria instalada em Manaus?

A resposta começa nos milhares de trabalhadores e famílias ligados diretamente à atividade industrial, passa pela arrecadação tributária, pelos investimentos privados, pelas cadeias de fornecedores e pelos recursos destinados à ciência, tecnologia e formação de capital humano. E alcança uma dimensão territorial que precisa ser considerada quando se discute o futuro da Amazônia.

A presença de uma economia industrial formal e intensiva em tecnologia ajudou a concentrar atividade econômica em Manaus e a oferecer ao Amazonas uma alternativa econômica distinta dos modelos extensivos de ocupação territorial associados à conversão da floresta. Essa relação merece continuar sendo estudada, medida, demonstrada e aperfeiçoada.

Aos 47 anos, o CIEAM parece cada vez mais disposto a participar dessa discussão com dados, ciência e prestação de contas.

O que a indústria ainda pode entregar

Defender a Zona Franca no século XXI exige também perguntar o que essa plataforma industrial pode entregar ao Brasil nas próximas décadas.

Sua capacidade tecnológica pode participar da transição energética, aprofundar a economia circular, ampliar a recuperação de materiais e aproximar engenharia industrial e bioeconomia amazônica.

Pode contribuir para tecnologias de monitoramento ambiental, defesa e soberania, conectividade, inteligência artificial e soluções energéticas destinadas às comunidades isoladas.

Pode aproximar universidades, institutos de pesquisa e empresas de uma agenda econômica baseada no conhecimento da biodiversidade.

E pode ajudar o Brasil a demonstrar, com indicadores verificáveis, que desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e conservação florestal podem compartilhar o mesmo território.

O CIEAM chega a esta idade carregando uma herança construída por empresários que precisaram defender repetidamente a própria existência da Zona Franca de Manaus. A geração atual recebeu essa poronga acesa e precisa utilizá-la para enxergar caminhos que os fundadores ainda não tinham como conhecer.

O mundo passou a atribuir valor crescente àquilo que a Amazônia possui em abundância: biodiversidade, água, carbono armazenado, conhecimento biológico, recursos naturais estratégicos e possibilidades científicas ainda pouco exploradas.

Manaus, por sua vez, possui algo igualmente singular dentro de uma floresta tropical: uma plataforma industrial sofisticada, universidades, institutos de pesquisa, engenharia, trabalhadores especializados e empresas integradas às cadeias nacionais e globais. A aproximação desses dois patrimônios pode estar entre as grandes agendas dos próximos 47 anos.

Floresta e fábrica, conhecimento tradicional e engenharia, bioeconomia e indústria, ciência amazônica e mercado mundial passam a integrar uma mesma discussão sobre desenvolvimento regional. E, enquanto essa agenda se amplia, uma transformação menos ruidosa ocorre dentro da própria instituição.

As novas mãos da governança

Uma organização que pretende interpretar as mudanças de seu tempo precisa permitir que essas mudanças também atravessem suas estruturas. É o que começa a ficar mais visível no CIEAM.

Aos 47 anos, seu Conselho ganha força com a expansão da presença feminina. Empresárias, executivas, especialistas, pesquisadoras e lideranças ocupam progressivamente espaços de formulação, aconselhamento e decisão, levando para a governança institucional experiências profissionais, competências técnicas e diferentes perspectivas sobre a indústria e a Amazônia. Essa presença merece ser compreendida em sua verdadeira dimensão histórica.

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foto: André Pessoa

As mulheres não estão chegando agora ao Polo Industrial de Manaus. Elas já estavam nas fábricas, nos laboratórios, nos escritórios, nas universidades, nos institutos de pesquisa, nas empresas, nas organizações sociais, na administração, na ciência, na inovação e nos inúmeros ambientes onde a economia amazonense foi construída ao longo dessas décadas.

O que se amplia agora é a correspondência entre essa presença histórica e sua representação nos espaços institucionais.

Uma instituição criada em 1979 para representar empresários diante dos enormes desafios de implantação e consolidação de uma política industrial chega a 2026 com uma composição progressivamente mais plural e diante de uma agenda que os próprios fundadores dificilmente poderiam imaginar.

Mudaram os desafios. Mudaram também as pessoas chamadas a enfrentá-los.

As mulheres já chegaram e o reconhecimento está a caminho

É nesse ambiente que o aniversário dos 47 anos encontra uma publicação particularmente simbólica: As mulheres já chegaram e o reconhecimento está a caminho.

Mais do que acompanhar uma efeméride, a publicação registra uma transformação que já está ocorrendo.

Durante muito tempo, a história econômica foi narrada principalmente a partir dos cargos de maior visibilidade e das lideranças que ocuparam formalmente a linha de frente. Essa perspectiva deixou parcialmente encoberta outra história, distribuída pelas linhas de produção, departamentos técnicos, áreas administrativas, laboratórios, universidades, centros de pesquisa e empresas.

A história das mulheres que participaram da construção do Polo Industrial de Manaus antes mesmo que sua presença encontrasse reconhecimento equivalente nos espaços de representação.

Trazer essas trajetórias para o centro da memória institucional significa completar uma parte da própria história do CIEAM.

Há também uma dimensão de futuro.

As questões que ocuparão a entidade nos próximos anos serão cada vez mais complexas. Mudança climática, inteligência artificial, geopolítica, reforma tributária, bioeconomia, segurança energética, economia circular, qualificação profissional, soberania tecnológica e novas formas de relacionamento entre empresas e sociedade exigirão uma governança capaz de reunir experiências diversas e competências igualmente diversas.

A expansão feminina no Conselho integra esse processo de amadurecimento institucional. Não se trata apenas de contar quantas mulheres chegaram. Importa saber quais responsabilidades assumem, quais conhecimentos trazem, quais debates ajudam a modificar e quais caminhos passarão a construir.

Aos 47 anos, o CIEAM pode olhar para os homens que acenderam sua primeira luz e, ao mesmo tempo, reconhecer as mulheres que hoje ajudam a decidir para onde essa luz será conduzida.

Foi preciso quase meio século para construir a plataforma industrial existente em Manaus. O desafio das próximas décadas será mobilizar esse patrimônio para responder a uma questão que interessa muito além dos limites do Amazonas: como produzir riqueza, conhecimento e oportunidades em uma floresta que o planeta precisa conservar?

O Centro da Indústria do Estado do Amazonas chega aos 47 anos ainda procurando respostas.

Toda instituição que pretenda permanecer relevante é aquela que conserva capacidade de se perguntar, sempre, qual será sua próxima responsabilidade.

A poronga acesa em 1979 continua passando de mãos, clareando caminhos, avançando em seus propósitos e compromissos.

Durante décadas, muitas mãos femininas já ajudavam silenciosamente a protegê-la do vento.

Agora elas aparecem também onde os caminhos são discutidos e as decisões são tomadas.

As mulheres já chegaram. O reconhecimento está a caminho.


Brasil Amazônia Agora
Homenagem aos 47 anos do Centro da Indústria do Estado do Amazonas – CIEAM


Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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