Quando a indústria esquece o Brasil

Coluna Follow-Up

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo não representa apenas um conjunto poderoso de empresas. Pela dimensão econômica de seus associados, pela influência histórica sobre o debate público e pela capacidade de interlocução em Brasília e no exterior, a Fiesp ocupa uma posição que traz responsabilidades nacionais.

É por isso que as declarações de Paulo Skaf sobre a ofensiva tarifária dos Estados Unidos merecem atenção. Ao atribuir as medidas de Donald Trump às opções diplomáticas do governo brasileiro, o presidente da Fiesp oferece uma interpretação conveniente para a disputa partidária interna, mas estreita demais para explicar uma movimentação de natureza muito mais ampla.

A diplomacia brasileira pode e deve ser examinada, criticada e aperfeiçoada. Nenhum governo está dispensado de avaliar o impacto de suas posições internacionais sobre o comércio, os investimentos e a indústria. O problema começa quando a crítica doméstica aceita como legítima a premissa de que o Brasil precisa adequar sua política externa às preferências de Washington para evitar punições econômicas.

Essa premissa transforma uma relação entre Estados soberanos numa hierarquia de obediência.

O conteúdo político das tarifas

A primeira sobretaxa de 50% anunciada por Trump em julho de 2025 veio acompanhada de referências explícitas ao processo judicial envolvendo Jair Bolsonaro. O ato da Casa Branca acusou instituições brasileiras de perseguição política e questionou decisões do Supremo Tribunal Federal. O próprio governo norte-americano apresentou a tarifa como instrumento para pressionar o funcionamento interno do Estado brasileiro. 

Esse elemento não pode ser apagado da análise.

Eduardo Bolsonaro se licenciou da Câmara dos Deputados em março de 2025 e se transferiu para os Estados Unidos afirmando que buscaria sanções contra autoridades brasileiras. Sua atuação política em Washington passou a integrar publicamente o esforço para pressionar o governo, o Judiciário e as instituições do país. 

Pode-se divergir de Lula, do Supremo, do processo contra Bolsonaro, do Brics ou de qualquer orientação diplomática adotada pelo Brasil. A divergência interna faz parte da democracia. Outra coisa é aceitar que um governo estrangeiro utilize tarifas, sanções e ameaças comerciais para interferir nas escolhas institucionais brasileiras.

Quando esse limite é ultrapassado, a questão deixa de ser partidária. Passa a envolver a soberania nacional.

O Pix entrou na disputa

A ofensiva norte-americana também ganhou contornos econômicos e tecnológicos muito claros. A investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, incluiu entre seus alvos o comércio digital, os serviços de pagamento eletrônico, a propriedade intelectual, o etanol, as tarifas brasileiras e políticas ambientais.

Donald Trump máscara Foto: Darren Halstead/Unsplash
Foto: Darren Halstead/Unsplash

O processo menciona especificamente práticas relacionadas aos meios eletrônicos de pagamento. Na prática, coloca sob pressão um dos principais ativos tecnológicos produzidos pelo Estado brasileiro nos últimos anos: o Pix.

O sistema reduziu custos, ampliou a bancarização e alterou o mercado de pagamentos sem cobrar do usuário as tarifas que sustentavam parte das receitas dos sistemas privados tradicionais. Seu êxito incomoda interesses econômicos poderosos porque demonstra que uma infraestrutura pública, regulada pelo Banco Central, pode competir com grandes empresas financeiras e tecnológicas.

Defender o Pix não significa recusar diálogo sobre concorrência ou regulação. Significa reconhecer que o Brasil tem o direito de desenvolver suas próprias soluções financeiras e digitais, desde que respeite suas leis e seus compromissos internacionais.

Uma potência estrangeira não deveria poder usar seu mercado consumidor como instrumento de coerção para preservar vantagens privadas ameaçadas pela inovação de outro país.

A atualização da velha doutrina

A política de Trump recupera, sob novas formas, uma tradição antiga das relações hemisféricas. A Doutrina Monroe, formulada no século XIX, apresentava as Américas como uma área reservada à influência dos Estados Unidos. Com o tempo, essa visão ofereceu justificativa política para intervenções, pressões econômicas e tutela sobre governos latino-americanos.

No século XXI, as tropas podem dar lugar às tarifas, às restrições tecnológicas, ao controle de plataformas, às sanções financeiras e à disputa por cadeias estratégicas de suprimento. O princípio permanece reconhecível: Washington reivindica para si o direito de determinar quais escolhas políticas, comerciais e diplomáticas considera aceitáveis em seu entorno continental.

A linguagem é comercial. O conteúdo é geopolítico.

O governo Trump já declarou oficialmente que utiliza tarifas para promover interesses econômicos e objetivos de segurança nacional dos Estados Unidos. A própria Casa Branca descreve esses instrumentos como meios de defesa das empresas, das cadeias produtivas e da política externa norte-americana. 

É nesse contexto que devem ser observadas as pressões sobre o Pix, a aproximação brasileira com o Brics, a cooperação com a China, a autonomia diplomática e o crescente interesse mundial pelos minerais críticos.

Terras raras e vantagens estratégicas

O Brasil possui reservas relevantes de minerais estratégicos, entre eles elementos de terras raras indispensáveis à indústria eletrônica, aos veículos elétricos, às turbinas eólicas, aos equipamentos militares, aos sistemas de comunicação e à transição energética. O próprio Serviço Geológico dos Estados Unidos acompanha o país como parte importante da geografia mundial desses recursos. 

Não há documento público que permita afirmar que as atuais tarifas foram impostas especificamente para garantir acesso norte-americano às terras raras brasileiras. Seria imprudente tratar essa hipótese como fato comprovado.

Seria igualmente ingênuo ignorar que minerais críticos, energia, tecnologia, dados e sistemas de pagamento passaram a ocupar o centro da disputa entre Estados Unidos e China. O Brasil está inserido nessa geografia por suas reservas minerais, por seu mercado consumidor, por sua capacidade agrícola, pela Amazônia e por sua posição no Atlântico Sul.

As pressões comerciais precisam ser lidas dentro desse tabuleiro.

O interesse norte-americano não se limita à compra de produtos brasileiros. Envolve acesso a recursos, influência regulatória, proteção de empresas digitais, segurança de cadeias industriais e contenção da presença chinesa na América Latina.

A responsabilidade da Fiesp

A Fiesp possui legitimidade para cobrar prudência do governo brasileiro. Tem também o dever de cobrar respeito do governo norte-americano.

A indústria não pode exigir soberania fiscal, segurança jurídica e previsibilidade dentro do Brasil enquanto relativiza pressões externas que atingem precisamente esses fundamentos. Uma tarifa determinada por conveniência política, associada ao julgamento de um ex-presidente brasileiro ou à tentativa de influenciar nossa regulação digital, prejudica empresas, trabalhadores e consumidores independentemente de suas preferências eleitorais.

Ao responsabilizar prioritariamente Brasília, Skaf poupa Washington de uma cobrança indispensável.

Seria mais coerente que a maior federação industrial do país liderasse um movimento de unidade entre empresários, trabalhadores, governo, Congresso, universidades e diplomacia para negociar a retirada das medidas, diversificar mercados e reduzir vulnerabilidades comerciais.

A relação com os Estados Unidos é fundamental. O país continua sendo um dos principais compradores de manufaturados brasileiros, um grande investidor e um parceiro científico e tecnológico relevante. Preservar essa relação exige diálogo, profissionalismo e pragmatismo.

Pragmatismo, porém, não significa submissão.

Brasilidade acima das conveniências

O Brasil precisa de uma política externa capaz de conversar com Washington, Pequim, Bruxelas, Nova Délhi, Moscou, países africanos, latino-americanos e árabes sem converter nenhuma dessas relações em dependência automática.

Essa tradição de autonomia não pertence a Lula, ao PT ou a qualquer governo específico. Ela atravessa diferentes períodos da diplomacia brasileira e corresponde à dimensão, aos interesses e à complexidade do país.

A brasilidade que precisa ser recuperada neste episódio começa pelo reconhecimento de que disputas eleitorais internas não autorizam alianças com pressões externas contra a economia nacional. Governos passam. Instituições permanecem. Os efeitos de uma guerra tarifária recaem sobre fábricas, empregos, contratos, investimentos e famílias que nada têm a ver com as conveniências dos grupos políticos envolvidos.

O governo brasileiro deve negociar com firmeza, evitar provocações desnecessárias, mobilizar os canais diplomáticos e utilizar os mecanismos da Organização Mundial do Comércio. O setor industrial deve participar dessa negociação e apontar soluções concretas. Também precisa deixar claro que o mercado brasileiro, a tecnologia nacional e as decisões soberanas do país não são moedas de troca numa campanha eleitoral.

Paulo Skaf voltou à presidência da Fiesp com influência suficiente para contribuir com essa construção. Pode escolher o caminho da oposição partidária, repetindo a polarização que empobreceu o debate brasileiro. Pode também assumir a função histórica que se espera de uma liderança industrial diante de uma pressão estrangeira.

A indústria paulista cresceu apoiada por políticas públicas, infraestrutura nacional, crédito, proteção industrial, mercado interno e investimento de todo o país. Sua principal entidade não deveria se afastar dessa história no momento em que o Brasil precisa defender sua capacidade de decidir.

Antes de escolher um lado na eleição, a Fiesp precisa escolher o Brasil.


Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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