Enquanto o debate público ainda se concentra nas velhas disputas sobre ocupação e conservação, uma nova economia ganha forma nos laboratórios, nos institutos de pesquisa, na indústria e nas redes de inovação. Talvez os primeiros sinais do futuro amazônico já estejam diante de nós.
Coluna Follow-Up
O encontro dos secretários estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação em Manaus talvez venha a ser lembrado menos pelas agendas cumpridas do que pelo momento histórico em que aconteceu.
Há poucas décadas, uma visita ao CBA seria percebida como uma aposta de longo prazo. Hoje, ela acontece quando a bioeconomia ocupa espaço crescente nas estratégias de desenvolvimento, quando a inteligência artificial acelera a descoberta de novos materiais, quando a transição climática altera prioridades econômicas e quando a própria Amazônia começa a ser observada como uma plataforma de inovação.
Esse olhar tornou-se mais frequente, mais curioso e, sobretudo, mais consistente.
A reforma tributária preservou as condições para que o Polo Industrial de Manaus continue sendo uma base manufatureira sofisticada. O debate internacional sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre introduziu uma nova lógica econômica para a conservação. A COP30 consolidou a Amazônia como um dos centros da agenda climática mundial. Ao mesmo tempo, o amadurecimento institucional do CBA e a capacidade tecnológica demonstrada por instituições como a FPFTech revelam que a região deixou de apenas reivindicar oportunidades e passou a apresentar competências.
São movimentos que não nasceram juntos, mas começam a convergir. Essa convergência seria o fato novo mais importante.
No ciclo da borracha, a Amazônia possuía um recurso extraordinário, mas não controlava a ciência, a tecnologia, a indústria nem os mercados que lhe davam valor. Exportava matéria-prima e importava inteligência da comunicação, energia e logística adequada. A riqueza desapareceu porque sua vantagem competitiva podia ser reproduzida em outro lugar.
A realidade de hoje é diferente
A biodiversidade continua sendo um patrimônio insubstituível, mas ela passa a dialogar com universidades, centros de pesquisa, infraestrutura industrial, sistemas digitais, inteligência artificial, redes de inovação e uma geração de pesquisadores que já nasce pensando em bioeconomia como política de desenvolvimento. É justamente essa combinação que torna o momento singular.
A floresta permanece essencial, mas seu valor já não reside apenas naquilo que pode ser extraído dela. Reside na capacidade de compreender seus processos, interpretar suas moléculas, desenvolver novos materiais, criar soluções industriais, registrar propriedade intelectual e construir cadeias produtivas capazes de distribuir prosperidade sem romper o equilíbrio ecológico que lhes dá origem.
Ainda não se pode afirmar que esse novo ciclo esteja consolidado
Toda transformação estrutural exige tempo, continuidade institucional, investimento, formação de talentos e uma coordenação que o Brasil nem sempre conseguiu sustentar ao longo de sua história. Mas talvez a pergunta mais importante já tenha sido respondida.
Durante décadas, discutiu-se se seria possível gerar riqueza mantendo a floresta em pé. Hoje a questão parece outra. Como acelerar um processo que já começou?
Talvez essa seja a verdadeira missão da geração que agora ocupa os laboratórios, as universidades, as empresas, os institutos tecnológicos e os governos.
O sonho interrompido da borracha ensinou que nenhuma riqueza natural é suficiente quando o conhecimento permanece distante de seu território de origem.
O desafio do século XXI é exatamente o inverso
Fazer com que o conhecimento permaneça na Amazônia, forme pessoas na Amazônia, gere empresas na Amazônia e transforme os bioativos da floresta em prosperidade compartilhada.
Se essa convergência for preservada, o Brasil poderá finalmente testemunhar algo que parecia improvável desde o início do século passado. Não um novo ciclo da borracha. Mas o primeiro grande ciclo da inteligência produzida pela floresta. E vou lhe fazer uma proposta editorial. Acho que encontramos uma narrativa que pode acompanhar o BAA pelos próximos anos. Ela pode ser resumida em uma ideia simples:
A Amazônia viveu o ciclo das commodities, que teve seu papel e deixou lições. Agora tem a oportunidade de liderar o ciclo da inteligência da natureza.
Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br