A expansão da Zona Franca não retira empregos do Sudeste. Muito pelo contrario. Amplia encomendas para a indústria paulista, fortalece a segurança hídrica do agronegócio e preserva a floresta que abastece de chuva os reservatórios brasileiros.
A reação da Fiesp à regulamentação da Reforma Tributária, ao questionar judicialmente os mecanismos de compensação destinados à Zona Franca de Manaus, parece ignorar um aspecto elementar da realidade econômica brasileira: São Paulo é, historicamente, um dos maiores beneficiários do sucesso da Zona Franca.
O fantasma que não existe
Há algumas décadas, sempre que a Zona Franca de Manaus conquista algum avanço institucional, ressurge um velho argumento nos corredores da Faria Lima e em segmentos da indústria paulista: o receio de que incentivos fiscais na Amazônia representem perdas para São Paulo. Os números, entretanto, contam uma história diferente.
Dados do IBGE e da CNI
São Paulo abriga cerca de 171 mil estabelecimentos industriais. O Amazonas possui pouco mais de 4 mil. O Polo Industrial de Manaus reúne aproximadamente 600 fábricas de grande porte.

Mesmo que a previsão da Suframa se confirme e mais de 200 novas operações se instalem na região, a distância entre as duas estruturas industriais continuará gigantesca.
A pergunta, portanto, talvez esteja errada. Não se trata de saber o que São Paulo perde quando Manaus cresce. A questão correta é entender quanto São Paulo ganha.
A maior cliente da indústria paulista fora de São Paulo
A Zona Franca jamais operou como ilha produtiva.
Desde sua criação, consolidou-se como um elo de uma extensa cadeia nacional de fornecedores. Máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, embalagens, softwares industriais, sistemas logísticos, serviços especializados e insumos diversos chegam diariamente ao Amazonas vindos do Sudeste.
Segundo dados apresentados pela própria Suframa em entrevista à mídia paulista, São Paulo fornece mais de R$ 35 bilhões por ano em insumos ao Polo Industrial de Manaus.
O valor supera o que a região importa de muitos países. Cada nova fábrica instalada em Manaus representa novas encomendas para fornecedores paulistas.
Cada nova linha de produção significa mais negócios para empresas localizadas em Campinas, Sorocaba, Jundiaí, São José dos Campos, Ribeirão Preto e na Região Metropolitana de São Paulo. A Zona Franca não concorre com São Paulo. A Zona Franca compra de São Paulo. Um beneficio incalculável.

A floresta que irriga a riqueza nacional
Existe ainda um benefício menos visível nas planilhas contábeis.Ao longo das últimas décadas, a industrialização da Amazônia ajudou a construir uma alternativa econômica à ocupação predatória da floresta.
O resultado está diante dos olhos. O Amazonas mantém mais de 97% de sua cobertura florestal preservada.
Essa floresta desempenha um papel decisivo na formação dos chamados rios voadores, correntes atmosféricas responsáveis por transportar umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.
São essas chuvas que abastecem reservatórios, alimentam hidrelétricas e sustentam boa parte da produtividade agrícola nacional.
Quando a Amazônia permanece em pé, os ganhos chegam às lavouras do Centro-Oeste, aos sistemas de abastecimento urbano do Sudeste e à matriz energética brasileira.
Poucas políticas públicas produzem efeitos tão abrangentes.
O desconforto com a redução das desigualdades
Talvez o verdadeiro debate não seja econômico.
A participação do Amazonas no PIB industrial brasileiro permanece ao redor de 2%. Mesmo após o crescimento previsto, não existe qualquer cenário realista de deslocamento da liderança industrial paulista.
O que a reforma tributária fez foi reconhecer que um país continental não pode tratar igualmente regiões profundamente desiguais.
A Constituição já havia feito essa escolha ao assegurar proteção diferenciada à Zona Franca até 2073. A regulamentação apenas transformou esse princípio em instrumentos concretos de competitividade.
A conta que o Brasil raramente faz
Quando Manaus cresce, São Paulo vende mais.
Quando a floresta permanece em pé, o agronegócio produz mais. Quando a Amazônia encontra caminhos sustentáveis para gerar emprego e renda, o Brasil reduz pressões ambientais, fortalece sua soberania territorial e amplia oportunidades econômicas em toda a cadeia produtiva nacional.

Talvez a principal pergunta deixada pela disputa judicial não seja sobre os benefícios da Zona Franca?
A pergunta é outra.
Por que ainda existe resistência a uma política pública que, ao mesmo tempo, gera indústria, preserva floresta, reduz desigualdades e distribui ganhos para todo o país?
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A indústria da Amazônia compra de São Paulo, protege a floresta e ajuda a irrigar o agronegócio brasileiro
