“Educação infantil no Brasil expõe o limite de um modelo que inclui mais crianças do que se consegue acolher“
O Brasil aprendeu a contar matrículas. E, ao fazê-lo, construiu uma narrativa confortável sobre a educação infantil. Mais de 94% das crianças de 4 e 5 anos estão na pré-escola. Em alguns estados, o índice beira a totalidade. Piauí aparece com 100%. Sergipe, Bahia, Tocantins seguem de perto.
É um número que sugere maturidade institucional. Um sinal de que o país, enfim, teria resolvido uma das etapas mais delicadas da formação humana.
Mas basta aproximar o olhar para perceber que esse avanço carrega uma fragilidade estrutural. A inclusão aconteceu. A qualidade, não na mesma proporção.
A recente reportagem da Folha, ao revelar que quase metade das creches opera com excesso de crianças por professor, desloca o eixo da discussão. Não se trata mais de saber quantas crianças entram no sistema, mas em que condições elas permanecem nele.

E esse detalhe muda tudo.
A educação infantil não é uma etapa qualquer. Ela não se limita ao ensino de conteúdos. É o território onde se formam vínculos, linguagem, percepção, autonomia. É onde o cuidado e a educação se confundem. Quando uma professora precisa dividir sua atenção entre um número excessivo de crianças, o que se perde não é apenas eficiência pedagógica. É a própria essência do processo educativo.
O Brasil chegou perto de universalizar o acesso à pré-escola por um caminho conhecido. Pressão social por vagas, legislação mais exigente, expansão acelerada da rede. Em duas décadas, o número de crianças em creches praticamente triplicou. Foi uma resposta necessária, mas conduzida com um descompasso evidente entre quantidade e estrutura.

Resolveu-se o problema visível. Criou-se outro, mais silencioso.
A desigualdade regional ajuda a entender a profundidade dessa distorção. O mesmo país que apresenta índices quase integrais em alguns estados ainda convive com situações como a do Amapá, onde menos de 70% das crianças estão na pré-escola. No Amazonas, o índice também fica abaixo da média nacional. Não é apenas uma diferença estatística. É um sinal de que o direito à educação infantil continua sendo distribuído de forma desigual no território.
E mesmo onde o acesso é alto, a qualidade segue tensionada.
Há um argumento recorrente que costuma aparecer nesses momentos. O de que a expansão foi recente e que o sistema ainda está em consolidação. Outro aponta limitações orçamentárias, especialmente nos municípios, que concentram a responsabilidade pela educação infantil sem a correspondente capacidade fiscal. Há ainda quem invoque o aumento da demanda como justificativa para o desequilíbrio.
Todos esses fatores são reais. Nenhum deles é novo.
O problema, portanto, não está na falta de diagnóstico. Está na persistência de um modelo que aceita operar no limite como regra, não como exceção.
E o custo dessa escolha não aparece imediatamente nos indicadores. Ele se manifesta ao longo do tempo. Crianças que não recebem atenção adequada nessa fase chegam ao ensino fundamental com defasagens difíceis de corrigir. A alfabetização se torna mais lenta. A desigualdade, mais profunda. O sistema educacional passa a correr atrás de um prejuízo que poderia ter sido evitado na origem.
Na Amazônia, essa realidade assume contornos ainda mais graves.
O Amazonas é um os mais deficitários. Não se trata apenas de educação. Trata-se de projeto de desenvolvimento. Uma região que já enfrenta desafios históricos de infraestrutura, renda e acesso a serviços públicos não pode se dar ao luxo de iniciar a formação de suas crianças em condições precárias. É nesse ponto que o debate educacional se conecta diretamente com a agenda de bioeconomia, inovação e sustentabilidade. Sem base humana qualificada desde o início, qualquer estratégia de futuro se fragiliza.
O que se observa hoje é um país que cumpriu formalmente uma meta, mas ainda não entregou integralmente o direito que essa meta representa.
A criança está na escola. Mas isso, por si só, não garante que ela esteja sendo devidamente cuidada, estimulada e acompanhada.
A diferença entre uma coisa e outra é o que separa política pública de política efetiva.
O Brasil já provou que consegue expandir. O desafio agora é mais complexo. Exige consistência, coordenação federativa, investimento qualificado e, sobretudo, uma mudança de foco. Menos celebração de cobertura. Mais compromisso com as condições reais de atendimento.
Porque, no fim, não é a matrícula que forma uma criança. É a experiência que ela vive dentro da escola.
