“Desenvolver o Amazonas exige planejamento, financiamento, governança e a capacidade de transformar riqueza em oportunidade real para todo o território”
O debate eleitoral no Amazonas costuma repetir promessas conhecidas. Fala-se em diversificar a economia, interiorizar oportunidades, fortalecer a bioeconomia, reduzir desigualdades e preparar o Estado para o futuro. Tudo isso está correto. O problema é que, quase sempre, essas palavras chegam ao eleitor como slogans, não como programa de governo.
O Amazonas não precisa escolher entre o Polo Industrial de Manaus e a economia do interior.

Precisa fazer exatamente o contrário: usar a força fiscal, tecnológica, logística e institucional da Zona Franca de Manaus como plataforma para criar novas cadeias produtivas, novos empregos e novas fontes de renda nos municípios.
O Polo continua sendo o principal indutor econômico do Estado, sem o qual a atividade comercial não cumpriria seu papel de circulação da riqueza e alta performance na geração de empregos e oportunidades. Em 2025, segundo dados oficiais da Suframa, o PIM alcançou um faturamento histórico de R$ 227,6 bilhões, com crescimento de aproximadamente 11% em relação ao ano anterior e mais de 131 mil empregos diretos gerados. Não se trata apenas de desempenho industrial. Trata-se de uma base concreta de geração de riqueza que poucos estados brasileiros possuem.
Mas a pergunta eleitoral decisiva é outra: o que fazer com essa força?
Diversificar não é abandonar a indústria. É adensar suas cadeias, atrair fornecedores, ampliar engenharia local, transformar pesquisa em produto, aproximar universidade e empresa, estimular startups, criar marcas amazônicas e levar infraestrutura produtiva ao interior. Interiorizar não é apenas abrir pequenos projetos em municípios distantes. É garantir energia confiável, internet, crédito, assistência técnica, regularização fundiária, compras públicas, certificação sanitária, logística fluvial e governança.
1- Os gargalos são conhecidos. O primeiro é logístico.
Um Estado continental, dependente dos rios, não pode tratar transporte, armazenagem, portos, frio, conectividade e energia como assuntos periféricos. Sem logística, a castanha perde valor, o pescado perde qualidade, o açaí perde mercado, o turismo perde competitividade e a bioeconomia vira retórica.
2– O segundo gargalo é tecnológico.
A floresta oferece ativos extraordinários, mas nenhum produto amazônico chega aos mercados de maior valor apenas com boa intenção. É preciso laboratório, design, embalagem, rastreabilidade, certificação, pesquisa aplicada, escala e inteligência comercial.
3- O terceiro gargalo é financeiro. E aqui o debate precisa ganhar precisão.
O Amazonas não carece apenas de ideias. Dispõe de uma base robusta de geração de recursos que precisa ser melhor organizada. A própria Zona Franca financia parte relevante das estruturas que deveriam sustentar a diversificação econômica.
A Universidade do Estado do Amazonas, financiada majoritariamente por receitas vinculadas ao modelo, é hoje uma das maiores redes de ensino superior multicampi do país, presente em todos os municípios. É um ativo estratégico para interiorização do conhecimento. O desafio é conectá-la de forma mais direta às cadeias produtivas, transformando formação e pesquisa em solução econômica aplicada.
O Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas pode ser um vetor relevante de dinamização local, irrigando cooperativas, pequenos negócios e arranjos produtivos. Mas é o Fundo de Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI) que se apresenta como um dos instrumentos mais robustos e estratégicos disponíveis. Sua vocação é clara: financiar infraestrutura, logística, turismo sustentável e projetos estruturantes no interior. Sem o FTI operando de forma coordenada e orientada por prioridades, qualquer agenda de interiorização continuará limitada.
Há ainda os recursos vinculados à pesquisa, desenvolvimento e inovação, oriundos da Lei de Informática e de programas como o PPBio, capazes de financiar cadeias produtivas de maior valor agregado.
Temos, também, recursos vinculados à pesquisa, desenvolvimento e inovação, oriundos da Lei de Informática e de programas como o PPBio, capazes de financiar cadeias produtivas de maior valor agregado.
Somam-se a esses instrumentos os recursos externos já disponíveis. FNO, FDA, Fundo Amazônia, Finep, FNDCT, Fapeam, cooperação internacional, bancos multilaterais, créditos de carbono e fundos climáticos.
A questão, portanto, não é perguntar se existe dinheiro. Existe, e em escala relevante. A questão é saber quem será capaz de organizar bons projetos, integrar esses instrumentos e transformar recursos dispersos em estratégia econômica.
O candidato que quiser tratar o Amazonas com seriedade deve assumir alguns compromissos objetivos.
Defender o Polo Industrial de Manaus como política de Estado. Transformar contrapartidas de pesquisa e inovação em projetos com impacto econômico mensurável. Criar uma estrutura permanente de organização e captação de projetos.
Priorizar cadeias com vocação real, como pescado, açaí, castanha, óleos vegetais, fármacos, cosméticos, turismo de natureza, madeira manejada, alimentos regionais, energia solar em comunidades isoladas, reciclagem industrial e serviços ambientais. E usar o poder de compra do Estado para abrir mercado para produtos amazônicos com qualidade certificada.

Não haverá diversificação sem educação técnica. Não haverá adensamento sem engenharia. Não haverá interiorização sem logística. Não haverá bioeconomia sem ciência.
A eleição deveria servir para separar quem apenas repete palavras bonitas de quem sabe estruturar soluções.
Porque desenvolvimento, no Amazonas, não será obra de improviso. Será resultado de planejamento, financiamento, governança e capacidade de transformar riqueza em oportunidade real para todo o território.
