Quem produz na floresta agora tem visibilidade: Iniciativa mapeia cadeias produtivas na Amazônia

O avanço da sociobioeconomia na Amazônia ganhou uma nova ferramenta estratégica. O Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, o Idesam, atualizou o Painel Redes da Sociobiodiversidade, plataforma digital que reúne dados territoriais, produtivos e institucionais das organizações socioprodutivas do interflúvio Madeira–Purus, uma das regiões prioritárias para a implementação de políticas públicas voltadas à bioeconomia no Brasil.

A atualização ocorre em um momento decisivo, quando o país discute a consolidação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia. Nesse contexto, o painel se posiciona como uma base concreta de informações para orientar decisões públicas, fortalecer cadeias produtivas da sociobiodiversidade e ampliar a visibilidade das organizações comunitárias que atuam na floresta.

Disponível gratuitamente no site do instituto, a ferramenta passou a incorporar novos indicadores, modos de visualização e funcionalidades que facilitam a análise integrada do território.

O que é o Painel Redes da Sociobiodiversidade

O Painel Redes da Sociobiodiversidade é uma plataforma interativa criada para mapear, sistematizar e tornar públicos os dados sobre organizações socioprodutivas que atuam com produtos da floresta e da agricultura familiar no interflúvio Madeira–Purus, no sul do Amazonas.

Ele reúne informações sobre associações, cooperativas, coletivos e empresas que integram cadeias produtivas da sociobiodiversidade, como óleos vegetais, sementes, frutos, fibras, produtos agroextrativistas e alimentos regionais.

Mais do que um banco de dados, o painel funciona como um instrumento de governança territorial. Ele permite compreender onde estão essas organizações, como produzem, quais cadeias de valor integram e que tipo de apoio acessam, oferecendo uma visão sistêmica do território.

Novos rankings e infográficos ampliam leitura do território

Entre as principais inovações da atualização está a inclusão de rankings e infográficos dinâmicos que organizam os dados por diferentes critérios.

Agora é possível visualizar, por exemplo:

  • O número de organizações por município
  • Os principais tipos de atividades econômicas desenvolvidas
  • Os formatos jurídicos predominantes
  • A atuação das organizações em áreas protegidas

Esses recortes permitem identificar padrões territoriais e produtivos, além de revelar a concentração ou dispersão das iniciativas socioprodutivas ao longo do interflúvio.

Painel Redes da Sociobiodiversidade Transformando Dads em Desenvolvimento Territorial 1

O usuário também pode analisar a presença dessas organizações em territórios como terras indígenas, assentamentos da reforma agrária e unidades de conservação, o que ajuda a compreender como a sociobioeconomia se articula com políticas ambientais e fundiárias.

Três modos de visualização integrados

A plataforma passou a operar com três formas principais de navegação.

O primeiro modo é o Mapa, que permite localizar espacialmente cada organização no território. O segundo é a Lista, que organiza os dados em formato tabular. O terceiro é o Dashboard, que apresenta gráficos e indicadores agregados.

Essas três visualizações funcionam de maneira integrada. Sempre que o usuário aplica um filtro, os resultados se atualizam simultaneamente em todos os formatos.

Segundo Fernanda Catenacci, da Iniciativa de Governança Territorial do Idesam, esse modelo favorece análises mais completas e personalizadas.

Painel Redes da Sociobiodiversidade no Interfluvio Madeira Purus 1

“O painel passou a integrar mapa, lista e dashboard com filtros que se conversam. É possível selecionar uma cadeia de valor, um município ou um tipo de organização e visualizar imediatamente como esses critérios se distribuem no território”, explica.

Ela destaca que a ferramenta foi pensada para atender públicos diversos, desde organizações comunitárias até gestores públicos e parceiros institucionais.

Ferramenta estimula novas cadeias produtivas

Além de sistematizar dados existentes, o painel também funciona como um instrumento de prospecção econômica.

De acordo com Fernanda Catenacci, ele permite identificar cadeias produtivas potenciais e produtos ainda pouco explorados do ponto de vista comercial.

“Se uma startup de alimentos quiser desenvolver um produto a partir do gengibre, da copaíba ou do murumuru, pode usar os filtros para localizar possíveis fornecedores e parceiros no território”, afirma.

Essa funcionalidade aproxima o universo da inovação e do empreendedorismo das organizações comunitárias, criando pontes entre a economia da floresta e novos mercados.

Devolutiva fortalece apropriação local dos dados

A atualização do painel não ficou restrita ao ambiente digital. Em novembro, lideranças comunitárias e representantes de organizações socioprodutivas participaram de uma devolutiva presencial durante a 1ª Oficina do Núcleo de Desenvolvimento da Sociobioeconomia do Médio Purus.

O encontro ocorreu no município de Lábrea, entre os dias 24 e 26, e reuniu representantes de 32 organizações dos municípios de Tapauá, Lábrea, Canutama e Pauini.

Durante a atividade, os participantes navegaram pelo painel, visualizaram os dados de seus próprios territórios e discutiram como a ferramenta pode apoiar a governança local e a tomada de decisões comunitárias.

Para Marcikely Ferreira dos Santos, presidente da Associação dos Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha, a atualização representa um avanço concreto na defesa do território.

“Agora conseguimos mostrar quem somos, onde estamos e o que produzimos. Isso fortalece nossa presença, nossos modos de vida e nosso diálogo com o poder público”, afirma.

Dados organizados fortalecem a autonomia das comunidades

Segundo Marcikely, a organização das informações traz impactos diretos sobre a valorização das cadeias da sociobiodiversidade.

Ao reunir dados confiáveis em um único sistema, as organizações passam a ter mais credibilidade institucional e maior capacidade de articulação com parceiros externos.

Isso amplia as possibilidades de acesso a projetos, mercados e políticas públicas, além de reforçar estratégias de conservação da floresta.

O painel também se torna um instrumento de memória territorial, registrando práticas produtivas, áreas de atuação e trajetórias organizativas que antes ficavam dispersas em documentos isolados.

Fichas técnicas funcionam como portfólios institucionais

Outra inovação importante foi o aprimoramento das fichas técnicas de cada organização cadastrada.

Essas fichas reúnem informações sobre:

  • Territórios de atuação
  • Produção e comercialização
  • Infraestrutura existente
  • Principais gargalos
  • Necessidades de apoio
  • Registro fotográfico

O novo design facilita a navegação e permite que essas fichas sejam utilizadas como portfólios institucionais em ações de comunicação e prospecção de parcerias.

Com isso, a própria plataforma passa a funcionar como vitrine digital da sociobiodiversidade amazônica.

Infraestrutura passa a integrar o mapeamento

A camada de infraestrutura também foi ampliada e qualificada.

Agora o painel inclui dados sobre razão social, formato jurídico, status de atividade e tipos de estrutura, como agroindústrias, casas de farinha, entrepostos, frigoríficos e movelarias.

Embora o foco principal continue sendo as organizações comunitárias, infraestruturas empresariais reconhecidas no território também foram incorporadas, com dados obtidos junto a parceiros e bases geoespaciais.

Políticas públicas ganham visibilidade territorial

Segundo Lilia Assunção, da Iniciativa de Governança Territorial do Idesam, o painel se consolida como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento regional.

“Ele dá visibilidade às organizações, apoia cadeias de valor e impulsiona iniciativas socioprodutivas”, afirma.

Um dos destaques é a aba de políticas públicas e apoios, que mostra quais projetos, assessorias e parcerias cada organização acessou nos últimos anos.

Isso permite visualizar como diferentes políticas chegam ao território e quais redes institucionais estão sendo formadas.

Próximos passos incluem divulgação e capacitação

Além da atualização técnica, a equipe responsável pretende ampliar a divulgação do painel e produzir materiais de apoio para o uso da ferramenta.

A ideia é incentivar que as próprias organizações mapeadas se apropriem dos dados para melhorar sua gestão interna, fortalecer sua comunicação e ampliar a captação de recursos.

O painel foi desenvolvido pelo Idesam com apoio da Fundação Betty e Gordon Moore.

Ele mapeia organizações socioprodutivas em 11 municípios do interflúvio Madeira–Purus: Autazes, Beruri, Borba, Canutama, Careiro, Careiro da Várzea, Humaitá, Lábrea, Manaquiri, Manicoré e Tapauá.

A plataforma pode ser acessada em https://idesam.org/paineis-interativos/painel-redes-da-sociobiodiversidade/.


Matéria publicada originalmente no portal Revista Amazônia.

Igor Lopes
Igor Lopeshttps://brasilamazoniaagora.com.br/
Igor Lopes é diretor de conteúdos do Portal

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