Previsões especiais sobre o futuro

“A economia amazonense evolui reagindo à economia nacional, e o faz com uma alavanca. A dúvida é o tamanho da força dessa alavanca, e o que a direciona. Procurar entender isso é a base do trabalho de previsão”

Veja os números a seguir. São, para cada um dos últimos anos, a primeira e a última previsão do crescimento econômico do Brasil, conforme o relatório Focus, do Banco Central. Em 2021, a primeira foi 3,41%, a última 4,5%. Em 2022, 0,28 e 3,04. Em 2023, 0,78 e 2,92. Em 2024, 1,59 e 3,49. Em 2025, 2,02 e 2,26. Em 2026, 1,8%. 

Complicado ler essa sequência de números. Mais difícil ainda é produzi-los. O relatório Focus reúne previsões de especialistas em cenário macroeconômico. Geralmente as instituições financeiras dedicam valiosos “homens-hora” para obter essas previsões. Mas, como disse Niels Bohr: fazer previsões é muito complicado, ainda mais se for sobre o futuro.

Nem precisamos filosofar sobre a essência contingencial da vida. Se você vaticina algo muito específico, como um crescimento de 1,8% do PIB do Brasil em 2026, terá também a certeza de que ao fim o número será outro. Profecia auto-irrealizável.

previsões

Então qual a utilidade das previsões? Seus fundamentos! Tanto pelas infinitas premissas usadas pela multidão de especialistas – na multidão de conselhos há sabedoria -, quanto pelo número em si da previsão. As previsões são em si novas informações.

O leitor percebe algum padrão na série do primeiro parágrafo? Veja que desde 2021 os especialistas têm subestimado a capacidade de crescimento da economia brasileira. Têm errado por excessiva cautela. No decorrer de cada ano as realidades que se impõem têm sido mais auspiciosas que o que inicialmente se supunha. Os especialistas percebem que os fundamentos evoluíram diferentemente do que imaginavam e fazem os devidos ajustes.

Quais fundamentos os especialistas negligenciaram no início de cada ano? Será que esqueceram que o Brasil tem o pré-sal? Uma agropecuária líder em produtividade da “porteira para dentro” e que está resolvendo a situação da “porteira para fora” com a logística do arco-norte?

A reforma da Previdência com economia de R$ 1,1 trilhão? Tinham esquecido que o dólar acima de R$ 5,00 iria incentivar exportações de maior valor agregado? O viés retórico dessas perguntas expõe o que vejo entre os principais motivos dessas surpresas positivas da economia brasileira desde 2021.

Contudo, há um segundo padrão naquela sequência do primeiro parágrafo: As distâncias positivas entre a última e a primeira previsões têm se estreitado. Especialistas e realidades estão se encontrando. Eles menos pessimistas e elas menos auspiciosas. Quais serão os fundamentos disso? Arrisco: A estabilidade na trajetória relação dívida-PIB, mas em sinal desfavorável. Sinal de alerta.

Para o Amazonas as previsões ainda estão errando muito para baixo. Em setembro de 2025 a Fundação Getúlio Vargas previu crescimento de 3% para o PIB do Amazonas em 2023. Poucos meses depois o IBGE trouxe o número: Ganho de 13%.

Incluo-me nessa. Em início de 2024 previ faturamento do PIM em R$ 188 bilhões. Foi de R$ 204 bilhões. Início de 2025 previ um mínimo de R$ 216 bilhões. Deve ser cerca de R$ 225 bilhões.

Qual o fundamento negligenciado? A economia amazonense evolui reagindo à economia nacional, e o faz com uma alavanca. A dúvida é o tamanho da força dessa alavanca, e o que a direciona. Procurar entender isso é a base do trabalho de previsão. E os lados e tamanhos dos erros nas previsões mostram, sim, muitas surpresas que a realidade pode impor a todos nós.  

André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

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