“Não há economia do século XXI sem mobilidade para a indústria — especialmente quando a logística do interior permanece arcaica e as capitais seguem presas a padrões do século XX”
Não se faz nada de relevante na Amazônia em relação à mobilidade das pessoas. Não se constroem infraestruturas novas. Quando se faz um projeto, a discussão segue na superficialidade. Ao invés de ser enfrentado o problema ambiental para a obra da BR-319, a opção é não fazer nada. Não se enfrentam as dúvidas e as oportunidades. Não pesquisamos a Amazônia como deveríamos. Precisamos de retroportos compatíveis com as atividades econômicas do interior.
Nos aeroportos, os voos seguem caros. Nos rios, se faz dragagem a “esmo”, sem compreensão dos impactos ambientais e econômicos. Não se faz a avaliação de efetividade. A Amazônia segue como um almoxarifado para o futuro que nunca chega. Quem se aventura a empreender na região vai ter que contar apenas consigo, salvo nas grandes capitais. Os interiores possuem o modo de vida e atividades econômicas do passado remoto.
É importante perceber que a atividade econômica depende de uma mobilidade urbana, de uma mobilidade intermunicipal e interestadual. A cada dia ficará mais difícil e mais caro fazer novas obras. Precisamos começar a encontrar as capacidades de investimento para além das falácias associadas ao “não gaste”. Sem investimento não há crescimento e não podemos seguir sem métodos de investimento em infraestrutura até para encontrar o nosso próprio território.
Há minérios que podem ter exploração danosa e desordenada. Todavia, há também minérios que podem ter uma exploração minimamente ou maximamente responsável. É uma obrigação encontrar estes equilíbrios. Afinal, as rotas de desenvolvimento, de comércio e de transformação são sempre possíveis, desde que queiramos fazer algo. Estamos hoje com uma série de amarras mentais que ancoram o país no século passado.
A mobilidade das pessoas e dos comércios é o que tem permitido às expansões e mudanças de dinâmicas econômicas ao longo do tempo, seja na rota do âmbar, das especiarias ou da seda. Ao longo dos séculos as mobilidades de pessoas e de produtos é que permitiram fronteiras de desenvolvimento e mudança. Sem estas mudanças de urbanização, tecnologia e e da política.
Temos muito o que mudar no país, mas está na tecnologia e na infraestrutura a maior oportunidade que nos recusamos a enfrentar em 2026. Temos atacado e combatido nossas capacidades próprias de construção e de inovação. Precisamos nos pacificar entre nós sobre as possibilidades transformadoras da infraestrutura. A política precisa se pacificar com a história para além da compreensão da importância do diálogo com as maiorias silenciosas.
A Amazônia precisa ter uma mobilidade do século XXI. Enquanto a infraestrutura for do século XV no interior profundo e do século XX nas capitais, não poderemos querer uma economia do século XXI. Precisamos mudar a realidade com um investimento, para podermos colher os benefícios das potências econômicas que são apenas faróis para um futuro que, da forma que está, nunca chega. Fica aqui um primeiro passo: nossos portos de interior precisam de retroportos, compatíveis com a necessidade de cada município.

