O desvario ilimitado de Trump

“A questão é simples e incômoda: até onde vai esse roteiro — e o que os países do Hemisfério farão, de forma concreta, para não serem o próximo capítulo?”

A captura de Nicolás Maduro, narrada como feito militar e celebrada sob a lógica do petróleo e da tutela, expõe um método: a política externa que normaliza a força, banaliza a soberania e transforma países em “ativos” sob administração. Se esse roteiro prosperar, o Hemisfério entra numa era de coerção permanente — com tarifas, ameaças territoriais e “interinatos” moldados pela conveniência do poder.

Há fatos que são graves pelo que acontecem — e outros que são ainda mais graves pelo que inauguram. A operação que retirou o ditador Nicolás Maduro de seu território, sob a justificativa de acusações criminais e com descrição pública de “captura” por atores estatais estrangeiros, não se limita ao destino de um homem: ela rebaixa o direito internacional ao papel de adereço.

Quando a superpotência passa a tratar a excepcionalidade como rotina, a pergunta deixa de ser “por que fizeram?” e vira “com que frequência farão?”. Porque o ponto não é apenas o alvo — é o método: criminaliza-se, militariza-se, executa-se; e depois convida-se o mundo a discutir o “depois”, como se o “durante” fosse irrelevante.

O desvario começa exatamente aí: quando a força deixa de ser último recurso e vira primeira gramática. Quando a soberania vira detalhe, e o precedente vira plano.

desvario
Petroleo Venezuela

O traço mais revelador do episódio é aquilo que não aparece no centro da narrativa: “democracia”, “instituições”, “eleições”, “liberdades”. O eixo, ao contrário, torna-se material: petróleo, administração, controle, reorganização.

A palavra-chave é tutela. Não importa como ela se disfarce — “transição”, “administração temporária”, “estabilização” —, o efeito simbólico é o mesmo: um país deixa de ser visto como sociedade política e passa a ser tratado como território administrável, com ativos reordenados por decisão externa.

Esse é o salto perigoso do século XXI: o protetorado não precisa mais de bandeira fincada; basta a retórica de “governar provisoriamente” e o comando sobre fluxos vitais (energia, sanções, comércio). É colonização em linguagem de gestão. É domínio travestido de “solução”.

A captura venezuelana dialoga com outras “gravatas” recentes — Canadá, Groenlândia, Canal do Panamá — porque todas orbitam um mesmo impulso: a geografia convertida em propriedade desejável. Territórios estratégicos, rotas logísticas e recursos naturais e minerais deixam de ser temas diplomáticos e passam a ser peças de pressão.

ataque eua venezuela narcotrafico
Ataque na Venezuela

E, quando a coerção militar se combina à coerção econômica, a arquitetura fica completa. O “tarifaço” de agosto de 2025, no caso brasileiro, foi um ensaio didático de como tarifas podem funcionar menos como política comercial e mais como instrumento de disciplinamento: um mecanismo capaz de premiar alinhados e punir divergentes, ao sabor de humores políticos.

O paradoxo é que esse tipo de poder não busca estabilidade — busca obediência. E obediência não produz parceria: produz volatilidade, ressentimento e corrida por alternativas. A relação Brasil–Estados Unidos, submetida a esse pêndulo, tende a oscilar entre pragmatismo e sobressalto. E sobressalto é o nome elegante de insegurança.


Se um país pode ser “administrado” por outro após uma operação de captura; se territórios podem ser tratados como “necessidades” estratégicas; se tarifas viram chicote político; então estamos diante de uma mudança de era: o poder se apresentando como direito, e a riqueza como destino.

O Brasil, a América do Sul e o mundo não podem responder apenas com indignação episódica. Precisam responder com método: diversificação econômica, blindagem institucional, coordenação regional, e uma diplomacia que recuse a normalização do precedente ou a banalização do mandonismo.

A questão é simples e incômoda: até onde vai esse roteiro — e o que os países do Hemisfério farão, de forma concreta, para não serem o próximo capítulo?

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Amazônia Inteligente 2026: quem precisa participar

“Mais do que um evento de tecnologia, um chamado...

Startup transforma biodiversidade amazônica em tecnologia que acelera cicatrização

Biodiversidade amazônica impulsiona startup que desenvolve tecnologia para acelerar cicatrização e cria soluções sustentáveis em saúde e bioeconomia.

Super El Niño pode acontecer? Veja o que dizem especialistas sobre o termo viral

El Niño 2026 levanta dúvidas sobre intensidade do fenômeno; especialistas explicam riscos, impactos no Brasil e limites das previsões climáticas.

Florestas africanas já emitem mais carbono do que absorvem, diz estudo

Estudo mostra que florestas africanas passaram a emitir carbono, elevando riscos climáticos e reforçando alerta para a preservação das florestas tropicais.