“Para investir no Brasil, é preciso enfrentar o desafio dos juros altos: o ganho de eficiência demanda tecnologia e equipamentos, mas a SELIC impede a retomada dos investimentos”
Vivemos no Brasil em um ataque constante ao “espírito animal” descrito por Keynes (1936) quando apontou os impulsos psicológicos, emoções, intuições e expectativas que levam o empresário a investir em momentos de incerteza. Temos um juro que adoece ou mata esse espírito animal. Se ficarmos atentos para as notícias que correm na maior parte imprensa de economia, prevalece o amedrontamento. Será que estas notícias sao para a população, para os investidores ou para empresários?
Por outro lado, o investimento com baixa dose de risco, apresenta rentabilidade interessante. A taxa SELIC atual, de 15% ao ano, contra uma inflação pelo IPCA de 12 meses, com base de outubro, representa 4,68%. Isso implica em um juro real de 10,32%, para os títulos do tesouro.
Para investir na economia real, a rentabilidade mínima seguindo o retorno esperado do ativo, vai ser de cerca de 20% ao ano, descontada a inflação ou um retorno nominal de 25%, seguindo a metodologia de CAPM e as taxas de risco de Damodaran. Ainda devemos considerar a tributação mais baixa para o investimento financeiro do que para o lucro de empresas de pequeno e médio porte, onde não há uma engenharia fiscal aprofundada.
Assim, para valer a pena tomar risco empreendendo, as margens de lucro precisam ser praticamente o dobro do que em outros países. Estes juros elevados, quando colocados os desafios adicionais do custo Brasil para as regiões periféricas, levam a um risco ainda maior e não é de se estranhar tanta desigualdade.
Sair do mercado financeiro para a economia real fica pouco atraente. Sendo assim, para muitos, é apropriada a venda do medo, pois isso abala o tal “espírito animal” e deixa a as empresas sem força para investir, ao mesmo tempo que quem tem dinheiro só o faz para um prêmio elevado, realimentando a inflação. Em paralelo, as empresas sem capital viram zumbis, quebrando por falta de capacidade de captar recursos a custos compatíveis com seus lucros.
A alteração da dinâmica de dinheiro fácil do “overnight” dos anos de alta inflação parece ainda não ter saído de nossa cultura. Seguimos em um paraíso para o rentismo. Mesmo assim aumentando o emprego formal e as empresas seguem a aumentar as suas margens para viabilizar investimentos com capital próprio, pela impossibilidade de captação de recursos no mercado com juros condizentes com negócios “normais”. Sem esta possibilidade, como falar em ganhos de produtividade? Afinal, dependeríamos de capacitar os trabalhadores e pesados investimentos em tecnologias produtivas.
Somente com a quebra desta dinâmica é que poderemos começar a considerar a aumentar o tamanho dos negócios, o que poderia levar a um aumento expressivo tanto da indústria de transformação quanto de outros setores.
A possibilidade de reverter este juro tão alto parece mais difícil do que empreender, pois ele está em um ciclo de retroalimentação do medo, levando a mais ganhos de quem os define – o tal “mercado”. O juro alto leva a um medo de déficit, que aumenta o déficit e afasta o investimento, alimentando a inflação, provocando um aumento do medo.
Quando for melhor investir em empresas e quando for mais fácil ganhar dinheiro com negócios começaremos a sair da armadilha que nos autoimpusemos. Afinal, é melhor investir sem risco do que em negócios e nos seus riscos. Há ainda a possibilidade de os aconselhados e conselhos do Banco Central perceberem o alto nível de emprego que estamos como um sinal negativo.
O ganho de eficiência começa a ser necessário, pelo alto emprego. Precisamos de mais tecnologia e equipamentos, mas como investir, considerando um juro tão alto? Já passou da hora de reduzir a SELIC para retomarmos investimentos empresariais.