Manaus: O Hub de importados que o Brasil insiste em não ver

“A Amazônia não precisa se limitar ao papel de hub de importados; pode — e deve — ser laboratório de serviços, palco da economia intangível e vitrine de uma floresta que compete com inteligência.”

O dado incômodo

Manaus acaba de alcançar a condição de maior cidade importadora do Brasil em 2025 . Não é pouca coisa. Os números da UFAM, de 2023 a 2025, deixam claro: a capital amazonense é a porta de entrada de uma riqueza colossal, tributada na chegada e contabilizada nos cofres do Estado quase sem custo . E, no entanto, o que se devolve à cidade que carrega esse fardo? Estradas esburacadas, porto obsoleto, logística precária.

O paradoxo tributário

Aqui se arrecada pesado, mas se investe pouco. O tributo entra como enxurrada e sai como goteira. Em vez de alavancar infraestrutura, modernizar processos e desburocratizar a engrenagem, o recurso some no labirinto fiscal . É como se o manancial das importações fosse tratado como rio de águas invisíveis — enriquece os cofres, mas não irriga a planície onde vive o povo.

A indústria esquecida

Há décadas se canta a glória da indústria de transformação, mas se esquece a indústria de serviços. Essa, sim, seria capaz de consolidar Manaus como um hub nacional de importação . Serviços de logística, de tecnologia, de rastreabilidade e compliance. Serviços financeiros, de câmbio, de crédito.

Serviços de formação de mão de obra especializada, que dariam aos jovens amazônidas uma trilha diferente da informalidade. Tudo isso é não poluente, intensivo em inteligência e gerador de emprego qualificado . Mas a cada governo, a pauta é engavetada como se fosse detalhe. Não é detalhe: é o eixo do futuro.

HUB DE IMPORTADOS
 Pós-doutoranda em Biotecnologia na FIOCRUZ

Cenários de escolhas


Se nada mudar, continuaremos sendo a capital que mais importa — e também a que mais exporta oportunidade perdida.
• Se houver investimento em porto público, parcerias para a BR-319 , armazéns alfandegados , corredores logísticos inteligentes, Manaus deixará de ser apenas estatística e se tornará plataforma estratégica.
• Se tivermos ousadia, a Zona Franca dará seu passo seguinte: virar hub de serviços globais . Não só receber mercadorias, mas também gerar soluções. Não só importar produtos, mas exportar inteligência.

A pergunta que ecoa

Para onde vai o imposto recolhido na entrada de cada contêiner ? Se não for devolvido em infraestrutura e serviços, ele só reforça a desigualdade. O risco é claro: a vocação caiu no nosso colo , mas pode escapar entre os dedos se não houver decisão política.

Epílogo provisório

A Amazônia não precisa ser apenas entreposto de mercadorias. Pode — e deve — ser laboratório de serviços, palco da economia intangível, vitrine de uma floresta que compete com inteligência. O problema não é a ausência de vocação, é a persistente omissão de quem prefere gastar a riqueza em Brasília a transformá-la em Manaus.

Eis o dilema: seguir importando riqueza sem destino ou, finalmente, inaugurar a era do comércio de serviços, a indústria limpa que o Brasil sempre deixou de lado.

Em Tempo: está na hora de substituir o catastrofismo ambiental na recuperação da BR 319 por um investimento civilizado e civilizante em favor da integração do Amazonas e Roraima ao restante do Brasil.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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