Com surtos cada vez mais graves, Brasil aposta em ciência para reduzir impacto da dengue, unindo biofábrica de mosquitos com Wolbachia e vacina do Butantan em estratégia conjunta
A dengue se consolidou como uma das maiores crises de saúde pública da América do Sul. O Brasil registrou o pior surto da história em 2024, com 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6.300 mortes. Em 2025, já são 1,6 milhão de infecções. Diante desse cenário, o país aposta em duas frentes de combate: a liberação de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia e o desenvolvimento de uma nova vacina pelo Instituto Butantan.
O método da Wolbachia foi criado pelo World Mosquito Program, da Universidade Monash, e já está em uso em 14 países. A estratégia consiste em infectar o mosquito Aedes aegypti com a bactéria, que reduz sua capacidade de transmitir o vírus da dengue. Quando liberadas no ambiente, as fêmeas transmitem a Wolbachia aos descendentes, tornando a população de mosquitos menos perigosa.
Experiências no Brasil indicaram reduções de até 89% nos casos prováveis em áreas de aplicação; em Niterói, por exemplo, a queda foi de quase 70%. Para ampliar o alcance da iniciativa, uma biofábrica foi inaugurada, em Curitiba, em 2024. Ela tem capacidade para produzir 100 milhões de ovos por semana e deve proteger cerca de 14 milhões de brasileiros ao ano – ela é a maior do mundo no setor.

Paralelamente, a aposta em vacinas também avança. Atualmente, o país aplica a Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda, mas em escala limitada devido ao alto custo e à oferta restrita. A expectativa está voltada para uma vacina de dose única desenvolvida pelo Instituto Butantan, em São Paulo, que apresentou eficácia de até 89% em pessoas já infectadas e 74% em indivíduos sem contato prévio com o vírus.
O imunizante aguarda aprovação da Anvisa, mas o governo já anunciou a intenção de adquirir 60 milhões de doses anuais, a partir de 2026. Para a epidemiologista Annelies Wilder-Smith, da Organização Mundial da Saúde, a combinação entre vacinas e mosquitos com Wolbachia representa a estratégia mais promissora para reduzir os impactos da doença, que hoje ameaça 3,9 bilhões de pessoas em todo o mundo.

