“O que o ariá nos ensina, afinal? Que a floresta tem tempo próprio. Que prosperidade é quando todos colhem — a comunidade, a ciência, a floresta e o planeta. Que o menino Eli Minev Benzecry, com suas mãos sujas de terra e páginas cheias de vida, não quer apenas resgatar um alimento, mas provocar uma mudança de mentalidade”
“Não se herda a floresta. Se planta. Com os pés na terra e os olhos na memória.”
Há nomes que brotam no tempo certo. E há gestos que colhem séculos de história numa única ação silenciosa, mas profundamente revolucionária. Eli Minev Benzecry, jovem manauara de 17 anos, é o protagonista de uma dessas colheitas simbólicas: ao resgatar o ariá, um tubérculo ancestral da Amazônia, semeia mais do que alimento — devolve à floresta uma parte esquecida de sua dignidade.
Em tempos de inteligência artificial, fast food e hiperconexão, Eli cavou a terra da memória e encontrou, sob as folhas largas da Goeppertia allouia, o que muitos já haviam abandonado: um alimento milenar, parte da dieta de seus antepassados indígenas, e também da infância da avó Nora Benchimol Minev, que recordava o sabor como se fosse um segredo de afeto. Nascia ali o projeto “Amazônia Chibata* : Ariá”, que uniu pesquisa científica, oralidade ancestral e ativismo juvenil — e que agora conquista reconhecimento nacional e internacional como símbolo de um novo modo de pensar a floresta: pela raiz.
- *Chibata” é uma expressão regional do Amazonas para algo que é considerado muito bom, ótimo ou excelente.
A floresta como berço e bússola
A linhagem de Eli carrega em si a saga de muitas diásporas. De um lado, os judeus sefarditas oriundos do Marrocos, como seu bisavô Samuel Benchimol, um dos maiores pensadores do desenvolvimento sustentável na Amazônia. De outro, a narrativa amazônica dos seringais e da reinvenção: entre seus ancestrais, um correspondente escocês do jornal Telegraph que trocou a pena pela estrada de seringa na calha do Rio Abunã. Todos movidos pelo mesmo chamado: a floresta como promessa, destino e redenção.
Foi em meio ao esplendor econômico da borracha que a família Benchimol chegou a Manaus, então uma das capitais mais importantes do planeta. A cidade pulsava como Paris tropical — e era também abrigo para aqueles que, como Samuel, acreditavam que prosperidade só faz sentido se caminhar com a sustentabilidade. Seu legado virou doutrina: todo empreendimento na Amazônia deve ser socialmente justo, economicamente rentável, politicamente correto e ambientalmente sustentável. Muito antes do termo ESG ser inventado.
Literatura empreendedora: um novo gênero nasce
Com sua publicação bilíngue “Ariá: um alimento de memória afetiva”, Eli inaugura não apenas uma nova etapa da bioeconomia amazônica, mas também uma literatura empreendedora: escrita com a alma e com o solo, com método e com pertencimento. O livro não é só registro científico — é gesto político, afeto coletivo e convite à reeducação alimentar da Amazônia urbana, muitas vezes alienada daquilo que nasce à sua porta.

Esse trabalho já rendeu a Eli convites para representar o Brasil em feiras internacionais de ciência (como a ISEF, nos EUA) e, agora, o reconhecimento que homenageia sua coerência: o Prêmio de Literatura Empreendedora e Exemplar da Saga Judaica na Amazônia. Um tributo à sua ação transformadora, à sua linhagem plural e ao seu compromisso com o futuro — um futuro enraizado.
Denis Minev na COP 30: a coerência familiar em cena
No mesmo palco em que Eli resgata o passado para alimentar o amanhã, Denis Benchimol Minev, seu tio, prepara sua participação na COP 30, que ocorrerá em Belém. Empresário, economista e defensor da floresta em pé, Denis representa o setor privado amazônico com uma proposta ousada: tornar o reflorestamento um vetor de valor econômico e climático, criando um ambiente em que investimentos amazônicos possam, em uma década, alcançar a bolsa de valores como ativos verdes globais.
Ambos, tio e sobrinho, falam com a mesma coerência familiar: desenvolvimento com raízes. Prosperidade com responsabilidade. Ciência com alma. E uma crença profunda na Amazônia como nova Terra Prometida — não pela extração predatória, mas pelo florescimento consciente.
Um convite: reaprender a Amazônia pela boca e pelo coração
O que o ariá nos ensina, afinal? Que a floresta tem tempo próprio. Que memória também alimenta. Que prosperidade é quando todos colhem — a comunidade, a ciência, a floresta e o planeta. Que o menino Eli, ocom suas mãos sujas de terra e páginas cheias de vida, não quer apenas resgatar um alimento, mas provocar uma mudança de mentalidade.
Seu gesto simples e radical — replantar um tubérculo esquecido — é também um chamado: para que empresas, governos, escolas, universidades e famílias voltem a olhar a floresta com reverência. Com fome de futuro. E com a coragem de quem entende que salvar o planeta pode começar com um pequeno pedaço de chão.

