Amazônia: a maior farmácia viva do planeta e sua contribuição para a saúde global

Também conhecida como “farmácia do mundo”, a Amazônia contém a maior biodiversidade do planeta e abriga espécies que originam medicamentos, terapias e pesquisas decisivas para a saúde global.

Cerca de 25% dos medicamentos modernos têm origem, direta ou indireta, em plantas medicinais da Amazônia. Não por acaso, a região é conhecida como a “farmácia do mundo”.

A floresta concentra a maior biodiversidade do planeta: até 20% de todas as espécies do mundo estão no bioma. São mais de 80 mil plantas catalogadas, milhares de insetos, fungos e microrganismos, além de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes.

Vista aérea da floresta amazônica.
Imagem aérea da Amazônia. Foto: Canva.

Ainda assim, a maior parte desse patrimônio natural segue inexplorada. Estimativas indicam que, em algumas áreas da Amazônia, até 90% das espécies permanecem desconhecidas da ciência. A combinação entre a vasta biodiversidade e os saberes tradicionais dos povos da floresta situa a região como uma fronteira indispensável para a saúde global. 

Hoje, plantas, animais e microrganismos amazônicos são estudados por seu potencial de tratar doenças como malária, asma, reumatismo e até mesmo câncer. A importância da Amazônia para a medicina é uma das faces mais fascinantes de um patrimônio biológico que impressiona pela escala e complexidade.

A biodiversidade da Amazônia em números: o que a ciência já revelou e o que permanece oculto na floresta

A Amazônia se estende por 6,7 milhões de km², abrangendo nove países da América do Sul, 4 milhões de km² da floresta amazônica estão em território brasileiro. Com ecossistemas variados, o bioma abriga cerca de 10% de todas as espécies conhecidas de animais e plantas do planeta, segundo o Painel Científico para a Amazônia (PCA), outras fontes indicam que esse número é de 20% – a depender da metodologia utilizada.

De acordo com a WWF, a floresta reúne aproximadamente 80 mil espécies de plantas identificadas — entre árvores, arbustos, cipós e trepadeiras. São mais de 2.500 espécies de árvores, um terço de todas as árvores tropicais do mundo.

Em números gerais, cientistas estimam mais de 3 milhões de espécies vivas na Amazônia. A fauna inclui cerca de 100 mil espécies de invertebrados, 3 mil peixes, 380 répteis, 400 anfíbios, 1.300 aves e 427 mamíferos. No entanto, a riqueza vai muito além do que já foi descrito: entre insetos e invertebrados, mais de 100 mil espécies foram registradas, mas o número real pode chegar a milhões.

Infográfico com dados sobre a biodiversidade da Amazônia.
Foto: Brasil Amazônia Agora.


No caso de fungos, a lacuna é ainda maior. Apesar de milhares de espécies já terem sido catalogadas, milhões permanecem desconhecidas. Segundo a WWF, apenas entre 2014 e 2015, foram descritas 381 novas espécies na Amazônia, o equivalente a uma descoberta a cada dois dias, evidenciando que a farmácia do mundo segue, em sua maioria, desconhecida. Enquanto a ciência se esforça para desvendar essa imensidão, os povos da floresta já conhecem parte desse tesouro há gerações, incorporando a biodiversidade amazônica em seus sistemas de saúde e práticas de cura.

As plantas medicinais nas práticas de cura dos povos da floresta 

Para os povos indígenas da Amazônia, a cura vai além do corpo: depende do equilíbrio entre seres humanos e natureza. Rios, florestas e solos são vistos como territórios habitados por seres espirituais, que podem causar doenças quando há desrespeito à floresta. Nesse sistema, saúde e ambiente são inseparáveis, e o kumuã (ou pajé) é figura central.

Cabe a ele diagnosticar enfermidades e indicar os tratamentos, que combinam chás, xaropes e unguentos feitos de cascas, folhas e raízes com práticas como benzimentos, cânticos e até restrições alimentares ou sexuais.

Mulher indígena diante de plantas.
Foto: Reprodução/ Conservação Internacional.

Entre os rituais de cura, comuns a muitos povos, estão o rapé, preparado a partir de plantas moídas e cinzas finas sopradas nas vias nasais para aliviar o cansaço; a sananga, um colírio natural; além de chás, banhos de folhas, massagens e unguentos. Entre os Yanomami, por exemplo, folhas aplicadas sobre o corpo ou em banhos ajudam a reduzir febre e dores.

Infográfico com as espécies de plantas medicinais mais utilizadas pelos povos indígenas.
O óleo das sementes de andiroba é conhecido por suas propriedades anti-inflamatórias e também como repelente natural. A casca da carapanaúba é usada no tratamento de febres e malária. A unha-de-gato, por sua vez, tem casca e raízes que fortalecem o sistema imunológico. Já a planta popularmente chamada de sara-tudo é utilizada em banhos e infusões, considerada quase “universal” no cuidado com diferentes males. Foto: Brasil Amazônia Agora.

Estima-se que cerca de 25 mil espécies de plantas sejam usadas com fins terapêuticos por povos indígenas na Amazônia. A eficácia desses tratamentos desperta interesse científico. Um levantamento apoiado pela Fapesp mostrou que 64,5% dos pacientes relataram alívio da dor com remédios naturais indígenas, contra 22,2% entre aqueles tratados apenas com medicamentos convencionais.

A força da medicina popular no dia a dia da Amazônia

Além dos povos indígenas e quilombolas, ribeirinhos e comunidades urbanas também fazem uso de plantas medicinais em chás, xaropes, unguentos, banhos e garrafadas preparados com folhas, cascas, raízes e sementes. Parteiras, curandeiros e raizeiros seguem como referências de saúde, especialmente em regiões onde o acesso ao atendimento médico usual é limitado.

Entre as plantas mais comuns estão o óleo de copaíba como cicatrizante, o unguento de andiroba contra inflamações, o chá de capim-santo como calmante, a folha de camapu para problemas renais e o barbatimão para cicatrizações. Também são frequentes os banhos de ervas e defumações, associados à proteção espiritual e ao afastamento do “mau-olhado”. Rituais de cura acompanham esses preparos, reafirmando a ideia de saúde como equilíbrio entre corpo, espírito e natureza na medicina popular. 

Fotografia de loja com ervas medicinais, garrafadas e outras misturas da medicina popular da Amazônia.
A venda de garrafadas, chás e ervas medicinais é comum em mercados abertos na região da Amazônia. Foto: Rebeca Beatriz / G1 AM.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% da população mundial recorre a remédios caseiros. A medicina popular amazônica é parte de um sistema de saúde plural, enraizado no território e com contribuições estratégicas para a ciência e para a valorização da biodiversidade brasileira.

No entanto, seu uso exige cautela: algumas plantas podem causar efeitos adversos quando consumidas em excesso, combinadas a outros medicamentos ou preparadas de forma inadequada. Por isso, especialistas reforçam a importância de aliar o conhecimento tradicional à orientação científica, garantindo segurança sem perder a riqueza cultural dessas práticas.

Ciência moderna e bioprospecção: o que já foi descoberto?

A Amazônia tem fornecido à ciência compostos de alto valor farmacêutico. Entre as plantas, o óleo de copaíba (Copaifera spp.), chamado de “antibiótico da floresta”, é estudado por ações cicatrizantes e antimicrobianas. Já a andiroba (Carapa guianensis) tem eficácia comprovada contra inflamações. O açaí (Euterpe oleracea), rico em antioxidantes, apresentou resultados promissores no controle de processos inflamatórios crônicos e o jambu (Acmella oleracea), conhecido por seu efeito anestésico natural, é pesquisado para analgésicos tópicos. 

Um exemplo múltiplo é a unha-de-gato (Uncaria tomentosa), analisada por diversas funções. Ela tem atividade neuroprotetora: seu extrato inibe proteínas associadas ao Alzheimer e melhora a memória em modelos animais. Pesquisas também demonstram seu potencial anti-inflamatório e de fortalecimento do sistema imunológico, além da eficácia no combate de tumores.

A fauna da Amazônia também oferece moléculas de interesse médico. A secreção do sapo kambô (Phyllomedusa bicolor) é estudada por conter peptídeos analgésicos mais potentes que a morfina, além de substâncias antimicrobianas. A sanguessuga gigante (Haementeria ghilianii) produz uma enzima capaz de dissolver coágulos resistentes a drogas usuais, sendo útil em pesquisas contra trombose. 

Fotografia em close do sapo kambô.
Imagem do sapo kambô. Foto: Towi 08/Flickr

A floresta como fonte de novos antibióticos e antivirais

A resistência antimicrobiana, considerada pela OMS uma das maiores ameaças à saúde global, tem na Amazônia possíveis respostas. Um estudo identificou mais de 150 extratos de plantas eficazes contra 11 microrganismos patogênicos, metade dessas plantas demonstrou baixa toxicidade, reforçando a possibilidade de desenvolvimento futuro em antibióticos e antifúngicos.

Fungos da região também se destacam: espécies isoladas de solos e ambientes aquáticos demonstraram efeito contra bactérias resistentes, como Staphylococcus aureus e E. coli. Microrganismos do gênero Streptomyces, abundantes em solos amazônicos, vêm sendo avaliados como candidatos a novos antibióticos e antivirais.

Embora esse campo seja inicial, investir em pesquisa e bioprospecção na Amazônia pode trazer soluções estratégicas para enfrentar superbactérias e vírus emergentes, uma crise que já provoca mais de 1 milhão de mortes por ano.

Imagem de fungo raro descoberto em expedição.
Novas espécies de fungos vêm sendo registradas em expedições, muitas delas com potencial medicinal. Foto: Alessandro Falco/Sumaúma.

Casos de sucesso: bioativos amazônicos no mercado

A Amazônia já deu origem a medicamentos que marcaram a história da medicina. A quinina, retirada da casca da cinchona, foi por séculos o principal tratamento contra a malária e teve papel decisivo no controle da doença. O curare, veneno vegetal usado por povos indígenas em flechas de caça, levou ao isolamento da tubocurarina, que revolucionou a anestesiologia a partir da década de 1940, embora hoje tenha sido substituída por compostos mais modernos. Também da região, a coca (Erythroxylum coca) abriu caminho para anestésicos locais como a novocaína (procaína), largamente utilizada odontologia e em cirurgias no século XX.

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Foto histórica da árvore cinchona, nativa da América do Sul. Após a colonização europeia, suas cascas foram levadas para cultivo na Índia, quando se descobriu que o extrato era eficaz no combate à malária. Foto: Royal Geographic Society/Getty Images.

Entre os fitoterápicos, a pilocarpina, extraída do jaborandi (Pilocarpus microphyllus), segue amplamente usada em colírios contra glaucoma e xerostomia, sendo produzida no Brasil e exportada em grande escala. Óleos de copaíba (Copaifera spp.) e andiroba (Carapa guianensis) migraram do uso popular para formulações reguladas, aplicadas como anti-inflamatórios, cicatrizantes e em tratamentos de pele e articulares. Já a unha-de-gato (Uncaria tomentosa), com propriedades imunomoduladoras, passou a ser estudada a partir da década de 1990 como tratamento complementar para HIV e hoje é testada contra doenças inflamatórias e no fortalecimento do sistema imune.

Biopirataria na Amazônia: ameaça ao patrimônio genético e aos saberes tradicionais

O potencial biofarmacêutico da Amazônia também traz riscos, entre eles a biopirataria: o uso ilegal e não autorizado de recursos genéticos e de conhecimentos tradicionais de povos da floresta. Mais do que contrabando de espécies, a prática envolve a apropriação de saberes ancestrais para desenvolver medicamentos, cosméticos e outros produtos patenteados sem retorno às comunidades.

Casos emblemáticos ilustram essa exploração. A catuaba, usada tradicionalmente como fortificante, foi alvo de patentes internacionais sem benefício às populações que detêm o saber. O jaborandi, de onde se extrai a pilocarpina usada em colírios contra glaucoma, foi explorado por empresas estrangeiras durante décadas sem repartição justa. A andiroba, tradicionalmente aplicada como cicatrizante e repelente, também foi patenteada fora do país, convertida em cosméticos e fármacos sem reconhecimento aos povos da floresta.

Além da injustiça social, a biopirataria provoca danos ambientais. O extrativismo predatório para atender à demanda externa reduz populações naturais, ameaça espécies vulneráveis e fragiliza ecossistemas inteiros. Esse ciclo mina iniciativas sustentáveis de manejo, rompe relações ecológicas e diminui a biodiversidade disponível para estudos futuros.

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Foto: Felipe de Souza/Pexels

O marco legal da biodiversidade no Brasil

Para enfrentar esse cenário, o Brasil aprovou a Lei da Biodiversidade (13.123/2015), uma das mais avançadas do mundo. A norma regulamenta o acesso ao patrimônio genético e estabelece regras de repartição de benefícios entre empresas, pesquisadores e comunidades tradicionais. 

Qualquer pesquisa ou exploração comercial de recursos brasileiros deve ser registrada no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen) e parte dos lucros obtidos com produtos derivados deve ser destinada ao Fundo Nacional de Repartição de Benefícios ou repassada diretamente às comunidades que contribuíram com conhecimentos ancestrais.

Apesar dos avanços, dez anos após a aprovação da lei, falhas na fiscalização, morosidade na regularização de pesquisas e desigualdade de poder entre empresas globais e comunidades locais dificultam a sua aplicação plena. 

Pesquisa científica local 

A pesquisa científica local é essencial para garantir soberania sobre os recursos genéticos e benefícios que retornam à região na forma de políticas públicas, formação de cientistas e fortalecimento da bioeconomia. Além de criar condições para transformar o potencial da Amazônia em soluções concretas para a saúde.

O INPA, em Manaus, é referência em ecologia e biotecnologia, tendo identificado compostos bioativos com potencial para gerar novos fitoterápicos. A Fiocruz Amazônia atua no enfrentamento de doenças tropicais como malária e leishmaniose e mantém cerca de 30 laboratórios de referência para o SUS, voltados à vigilância epidemiológica e ao monitoramento ambiental. 

Plantas medicinais no SUS 

O Brasil é um dos poucos países que incorporam oficialmente plantas medicinais ao sistema público de saúde. Desde 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) incluiu a fitoterapia no SUS, permitindo que médicos prescrevam medicamentos de origem vegetal. 

A Renisus lista mais de 30 espécies de interesse, incluindo copaíba, andiroba e unha-de-gato, orientando pesquisas e produção de fitoterápicos. Um dos pilares da política são as Farmácias Vivas, que cultivam, manipulam e distribuem gratuitamente fitoterápicos à população. Presentes em várias cidades, já oferecem xaropes, pomadas e cápsulas produzidas localmente, unindo acesso a tratamentos de baixo custo, valorização do conhecimento popular e fortalecimento da bioeconomia regional.

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Foto: Pedro Crepaldi Carlessi/Divulgação.

Perder espécies da Amazônia impacta a saúde mundial

A exploração predatória, o avanço do desmatamento e a degradação ambiental na Amazônia colocam em risco um patrimônio biológico ainda pouco conhecido. A floresta abriga milhões de espécies não descritas, que podem fornecer ativos essenciais para novos fármacos, biotecnologias e terapias inovadoras. A perda desse potencial significa a extinção de compostos que poderiam se transformar em antibióticos contra superbactérias, antivirais para prevenir futuras pandemias ou tratamentos para câncer e doenças crônicas.

A ameaça não é apenas biológica: junto com as espécies desaparecem também saberes tradicionais de povos indígenas e comunidades ribeirinhas, que há séculos orientam a ciência na identificação de princípios ativos. A erosão desse conhecimento, somada à devastação da floresta, compromete tanto a diversidade cultural quanto as possibilidades de inovação científica.

A Amazônia, portanto, não é apenas um bioma, mas um eixo estratégico da saúde global. Preservar sua integridade significa garantir soberania científica, estimular a inovação biomédica e abrir caminhos para salvar vidas no presente e no futuro a partir do patrimônio natural insubstituível da maior farmácia viva do planeta.

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Foto: Richard Barnes.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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