Milton Hatoum e a Amazônia na casa de Machado de Assis

Ao ocupar sua cadeira na Casa de Machado de Assis, Hatoum amplia a geografia da literatura brasileira, inscrevendo na memória desta nação o vigor, a complexidade e a ancestralidade da floresta em pé e tudo o mais que isso simboliza

A eleição de Milton Hatoum para a Academia Brasileira de Letras transcende a conquista pessoal e literária: trata-se de um gesto simbólico de inserção da Amazônia no coração da brasilidade cultural. A ABL, fundada sob o signo de Machado de Assis, é o espaço onde se preserva e se reinventa a tradição literária de um país paradoxal, icônico, profundamente amado e atravessado por dilemas civilizatórios. Agora, nela ressoa a voz amazônica de Hatoum — e com ela, uma tradução singular da floresta e de sua gente.

A Amazônia como cenário e personagem

Em seus romances, a Amazônia não é pano de fundo: é força viva, personagem invisível que molda destinos, desafia memórias e inflama conflitos. Manaus, com suas ruas, casarões, cheias e vazantes, é palco e também protagonista. Essa territorialidade literária transforma a obra de Hatoum em algo mais do que regional: torna-a universal, justamente por enraizar-se na singularidade amazônica.

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Foto Divulgação/ Secretaria de Cultura e Economia Criativa

Identidade, memória e imigração

Hatoum decifra a Amazônia pela lente das famílias que nela se entrelaçam. Sírios, libaneses, judeus, indígenas, nordestinos — todos compõem uma tapeçaria cultural onde a memória da imigração, a busca por identidade e as tensões do pertencimento se cruzam. A literatura de Hatoum revela que a Amazônia é, em si, um laboratório de brasilidade: múltipla, híbrida, contraditória, mas profundamente viva.

Conflitos e dilemas civilizatórios

Os dramas familiares de “Relato de um certo Oriente” e “Dois irmãos” espelham dilemas que ultrapassam o núcleo doméstico. São metáforas da sociedade amazônica, marcada por rivalidades, disputas por herança, traumas da memória e tensões étnicas e sociais. Nesse espelhamento, Hatoum oferece ao Brasil uma chave para compreender sua própria encruzilhada histórica: como transformar o conflito em diálogo, e o trauma em potência criativa.

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Foto: Companhia das Letras

Linguagem, estilo e Borges

A crítica reconhece na linguagem de Hatoum uma rara combinação de precisão e imaginação. Seu texto é refinado, mas não hermético; lírico, mas nunca disperso. O leitor percebe a influência de Jorge Luis Borges, tanto na tessitura da memória e da ficção quanto na criação de mundos que oscilam entre realidade e imaginação. Ao modo borgeano, Hatoum constrói labirintos de lembranças, narrativas entrecortadas e memórias fragmentadas — como se fossem reflexo do próprio rio Amazonas e suas múltiplas ramificações.

Tradução cultural da Amazônia

A literatura de Hatoum é também um ato de tradução cultural. Ele transporta para o universo da língua e da imaginação as atmosferas, os personagens e os dilemas da Amazônia. Seus romances, traduzidos e reconhecidos internacionalmente, cumprem uma função dupla: apresentam a Amazônia ao Brasil e ao mundo, e devolvem ao Brasil e ao mundo o espelho de si mesmos a partir da Amazônia.

Geografia literária 

O ingresso de Milton Hatoum na Academia Brasileira de Letras ultrapassa o que seria um reconhecimento literário: é um ato político, civilizatório e simbólico. É a inscrição da Amazônia no cânone da cultura nacional, não como apêndice exótico, mas como coração pulsante da brasilidade. Ao ocupar sua cadeira na Casa de Machado de Assis, Hatoum amplia a geografia da literatura brasileira, inscrevendo na memória da nação o vigor, a complexidade e a ancestralidade da floresta em pé e tudo o mais que isso simboliza.

É motivo de orgulho e de alegria para todos os que compreendem que a Amazônia não é apenas patrimônio natural, mas também patrimônio simbólico, intelectual e cultural da humanidade.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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