Nem tanques, nem tarifas: o Brasil que não se ajoelha mais

Sim, já vivemos uma ditadura. E não queremos mais.
Porque quem já teve sua voz calada sabe que dignidade não se negocia.
Porque quem já teve sua história sequestrada não tolera mais script alheio.
E porque, hoje, o boné virou elmo.
E o Brasil que não se ajoelha

Na entrevista ao The New York Times, Lula evocou a memória da ditadura para afirmar a soberania do Brasil e rechaçar a chantagem de Trump com tarifas: “Já vivemos uma ditadura — e não queremos mais.”

Há frases que não apenas enunciam um pensamento — elas desenterram fantasmas, convocam memórias e lançam avisos ao futuro. Assim soou a fala de Lula, presidente do Brasil, em entrevista ao The New York Times, em 30 de julho de 2025:
“Eu quero ser tratado com respeito. Já vivemos uma ditadura, e não queremos mais.”

E o Brasil que não se ajoelha
Hitler ditadura militar

Disse-o com serenidade, mas também com o peso de quem carrega a memória de um país que conheceu o porão, o silêncio imposto, a tortura invisível e a democracia como conquista — nunca como herança. Seu boné azul, com os dizeres “O Brasil é dos brasileiros”, não era adereço. Era elmo. Um gesto simbólico de resistência contra a tentativa de submissão.

O episódio não foi isolado. Desde abril de 2025, o governo norte-americano, sob a liderança de Donald Trump em seu novo mandato, iniciou uma escalada tarifária contra produtos brasileiros. O estopim foi a insatisfação com o rumo interno do Brasil. O recado era claro: ou o Brasil se dobra, ou paga.

No dia 9 de julho, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, com vigência a partir de 1º de agosto. Lula respondeu com firmeza:

A alegação formal para a escalada tarifária foi a defesa da “liberdade política e judicial” em nome de um aliado ideológico. Mas o subtexto era outro — e o Brasil soube reconhecê-lo.

Por trás da tentativa de ingerência estava uma visão de mundo ultrapassada e predatória, que sempre viu na Amazônia não um ativo estratégico da humanidade, mas um espaço vazio a ser conquistado. Uma visão que, nos bastidores, flertou com a ideia de remover programas como a Zona Franca de Manaus, pilar de redução das desigualdades regionais e instrumento de coesão nacional. A mesma lógica que queria transformar a floresta em um grande roçado, reduzindo a Amazônia a fronteira agrícola, negando seu potencial de inovação, ciência e desenvolvimento baseado na biodiversidade.

O que se tentou impor não foi apenas uma tarifa, mas uma agenda geopolítica disfarçada de comércio, onde a soberania se mede pelo grau de obediência — e não pela capacidade de resistência.

O Brasil já viu esse filme. Em 1964, a chamada Operação Brother Sam mobilizou aviões, destróieres e um porta-aviões para dar apoio logístico ao golpe militar que calaria o país por 21 anos. O apoio norte-americano à ditadura brasileira está documentado, cronometrado, confessado. O cheiro da dependência disfarçada volta agora com nova roupagem: não mais tanques, mas tarifas; não mais embaixadores, mas redes sociais e chantagem econômica.

Estudos recentes indicam que as intervenções da CIA na América Latina entre 1960 e 1970 — Brasil, Chile, Bolívia, Equador, Panamá — deixaram rastros duradouros: aumento da desigualdade, queda de renda média, fragilização da democracia e da sociedade civil. O Brasil, hoje, vive outra etapa — e não aceita mais esse tipo de tutela.

Os impactos da tarifa americana são reais: a estimativa é de US$ 1 bilhão em perdas para setores como carne, café, suco de laranja e petróleo. O Brasil supre 70% do mercado norte-americano de suco e exportou 181 mil toneladas de carne em 2025, mais que o dobro do ano anterior.

A resposta do governo foi à altura:

1-Pedido de negociação ignorado;

2-Recurso formal à Organização Mundial do Comércio (OMC);

3-Aprovação da Lei de Retaliação Comercial (nº 15.122/2025);

4-Decreto nº 12.551/2025 autorizando tarifas sobre produtos dos EUA.

Mesmo com o prejuízo imediato, o país escolheu dignidade em vez de subordinação. E essa escolha foi percebida internamente. A popularidade de Lula cresceu inclusive entre setores empresariais atingidos, não apenas pela defesa econômica, mas pelo gesto de firmeza institucional.

A fala de Lula, portanto, não é apenas resposta a Trump. É resposta à história. É um posicionamento civilizatório. O Brasil que já foi colônia, já foi tutela, já foi vassalo, hoje se recusa a ser coadjuvante da própria trajetória.

Quando o presidente diz “quero ser tratado com respeito”, ele vocaliza mais que a indignação de um líder. Ele traduz o sentimento de um povo que cansou de ser periferia de projetos alheios, e que passou a reivindicar — sem gritar, mas com clareza — seu lugar entre os atores do mundo.

A diferença entre a submissão e o respeito está na postura de quem se apresenta. E o Brasil, agora, se apresenta de pé.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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