Corais ameaçados: o que perdemos se eles desaparecerem do litoral brasileiro?

O valor estimado da preservação dos recifes de corais no litoral nordestino brasileiro já é de R$160 milhões; sua presença funciona como barreira natural contra inundações, ressacas e furacões

Os recifes de corais são vitais para a biodiversidade marinha, abrigando ou servindo de passagem para 25% das espécies conhecidas apesar de ocuparem apenas 0,1% dos oceanos do mundo. No entanto, enfrentam impactos diretos da crise climática: entre o fim de 2023 e meados de 2024, cerca de 90% dos corais brasileiros foram atingidos pela quarta onda de branqueamento, um fenômeno causado pelo aquecimento das águas, que rompe a simbiose com algas essenciais à sua sobrevivência. Isso leva ao esbranquiçamento e à morte de muitos desses animais – e pode afetar um patrimônio de aproximadamente R$160 milhões.

Esse é o valor estimado da preservação dos recifes de corais no litoral nordestino brasileiro, segundo um estudo da Fundação Grupo Boticário, repercutido em matéria da Forbes Brasil. O valor considera os benefícios gerados aos setores industriais, portuários, comerciais e residenciais em áreas costeiras com significativa presença desses seres vivos, que funcionam como barreiras naturais contra desastres como ressacas, inundações e furacões.

Um recife de corais do tipo Acropora, no Atol Caroline (a 1.500 quilômetros ao sul do arquipélago do Havaí, no centro do Pacífico) começa a se recuperar de um branqueamento após sofrer com o aquecimento das águas em 2015-16, que matou a maioria dos organismos que ali viviam.
Um recife de corais do tipo Acropora, no Atol Caroline (a 1.500 quilômetros ao sul do arquipélago do Havaí, no centro do Pacífico) começa a se recuperar de um branqueamento após sofrer com o aquecimento das águas em 2015-16, que matou a maioria dos organismos que ali viviam | Foto de Enric Sala

Além da proteção costeira, os corais exercem funções ecológicas cruciais: ajudam a absorver CO₂ da atmosfera, sustentam a produção primária marinha e o ciclo de nutrientes, e geram cerca de 30 milhões de empregos em atividades como pesca e turismo. A conservação desses ecossistemas, portanto, não é apenas uma medida ambiental, mas também um pilar econômico vital para as regiões litorâneas.

Preservação na prática

Essa preservação depende de um tripé bem estruturado formado por investimento, conscientização e reparação. Embora os esforços demandem anos de trabalho e possam ser desfeitos rapidamente por eventos climáticos extremos, os defensores dos recifes seguem trabalhando em projetos que valorizem os corais no litoral brasileiro.

Um exemplo é o o ReefBank, projeto de inseminação artificial de corais nascido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Idealizado e coordenado pelo professor Leandro Godoy, a iniciativa aposta na reprodução assistida a partir de protocolos como o congelamento de sêmen de corais. “O que fazemos aqui com os corais é o que clínicas de reprodução humana fazem com casais que têm problema de fertilidade. Só existem quatro grupos de pesquisa no mundo que trabalham com essa biotecnologia”, afirma Leandro em entrevista à Forbes.

Foto de uma parte do processo de inseminação artificial de corais, quando os óvulos são coletados.
Foto de uma parte do processo de inseminação artificial de corais, quando os óvulos são coletados | Reprodução Forbes Brasil/ReefBank

“A importância dos recifes de corais é muito maior do que a maioria das pessoas imaginam. Esperamos que o estudo estimule um olhar mais atento da sociedade para esses ecossistemas e inspire uma melhoria nos esforços de conservação. Já é hora de incorporar a avaliação econômica à gestão integrada da nossa zona costeira”, destaca Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, que conduziu o estudo sobre a avaliação do patrimônio protegido pelos recifes no Brasil.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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