Enquanto houver preconceito contra a Zona Franca de Manaus, haverá resistência

O preconceito contra a Zona Franca de Manaus (ZFM) não acaba, nem fica pequeno. Apenas muda de forma, de tom e de manchete. Sempre que o país atravessa crises fiscais, políticas ou identitárias, a Zona Franca volta à berlinda. Nunca como solução, mas sempre como problema. E isso não é coincidência — é projeto.

A mais recente manifestação dessa estratégia aparece no jornal O Estado de S. Paulo, em uma matéria que afirma, no título, que as renúncias fiscais da ZFM e do agronegócio somam mais de R$ 200 bilhões. A informação é tecnicamente falsa e editorialmente tendenciosa. Na realidade, segundo os próprios dados da Receita Federal que a matéria menciona, o agronegócio responde por R$ 158 bilhões e a ZFM por R$ 75 bilhões.

A distorção do título cria um efeito perverso: induz o leitor a crer que a ZFM é responsável pela maior parte da renúncia, ou que ela é comparável ao Agro em dimensão e impacto fiscal. Não é. E essa comparação é desonesta.

Enquanto o agronegócio avança sobre florestas, concentra terras e distribui pouco, a Zona Franca de Manaus emprega mais de 100 mil pessoas com carteira assinada, distribui renda, mantém a floresta em pé e evita o colapso social e ambiental de uma região que historicamente sofre com a ausência do Estado.

O Polo Industrial de Manaus responde por cerca de 80% da arrecadação federal no Amazonas. Seus incentivos são compensados por um retorno direto à União. O Agro, ao contrário, se beneficia de subsídios bilionários sem devolução proporcional, com passivos ambientais expressivos e baixa inclusão social.

A comparação só serve a um objetivo: deslegitimar a ZFM como política de Estado.

zona franca de manaus
Indústria não é Agro – Imagem criada por IA

É preciso perguntar: quem ganha com o enfraquecimento da Zona Franca? Certamente não o Brasil profundo, que ainda vê na ZFM uma das poucas tentativas concretas de interiorizar o desenvolvimento. Tampouco a Amazônia, que ficaria ainda mais vulnerável à mineração predatória, ao desmatamento e ao narcogarimpo.

Quem ganha são os setores econômicos concentrados no Sul e Sudeste, que há décadas disputam os mesmos recursos e tentam capturar a narrativa do desenvolvimento nacional como se o país terminasse no Planalto Central.

O preconceito contra a Zona Franca de Manaus é o mesmo que olha a Amazônia como periferia e não como centro estratégico do século XXI. É o mesmo que trata a floresta como obstáculo e não como ativo. É o preconceito de quem nunca precisou disputar uma vaga de emprego a mil quilômetros do centro urbano mais próximo. De quem nunca entendeu o valor logístico, simbólico e geopolítico de se manter a Amazônia conectada à economia global.

A ZFM não é isenção fiscal: é política pública. Não é enclave industrial: é âncora de soberania. Não é favor: é dever do Estado com sua porção mais crítica e mais promissora.

E esse modelo não está parado no tempo. A Zona Franca de Manaus está em plena transformação: investe em inovação, pesquisa, ESG, energias renováveis, bioeconomia e florestas produtivas. Queremos ser ponte entre o Brasil industrial e a Amazônia sustentável. E isso não se faz com preconceito. Se faz com visão de futuro.

ChatGPT Image 27 de mai. de 2025 12 18 33
Indústria sustentável

Enquanto houver má fé, desinformação ou manipulação contra a Zona Franca, haverá resistência. E ela virá da sociedade civil, das entidades industriais, dos trabalhadores e de quem ainda acredita que é possível crescer protegendo, produzir conservando e desenvolver incluindo.

Esse ensaio é mais que um alerta: é um manifesto. Um compromisso com a verdade, com o desenvolvimento e com a Amazônia viva, pensante e produtiva.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

Artigos Relacionados

A reforma tributária e o Amazonas: a hora de discutir o próximo passo

A transição do sistema tributário brasileiro desloca o debate amazônico da defesa dos incentivos para uma questão mais ampla e mais difícil: qual projeto econômico, territorial e fiscal poderá sustentar o Amazonas nas próximas décadas

Cobra com patas de 100 milhões de anos muda teoria sobre evolução das serpentes

Fóssil de cobra com patas encontrado na Argentina revela novas pistas sobre a evolução das serpentes e desafia teorias antigas.

O que são panapanás? Entenda o fenômeno das borboletas na Amazônia

Panapaná reúne milhares de borboletas na Amazônia e revela conexões entre ciclos dos rios, biodiversidade e mudanças climáticas.

Terras raras, soberania rara

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados...

Estudo na revista Nature revela que microplásticos no ar foram superestimados

Estudo revela que microplásticos transportados pelo ar vêm majoritariamente da terra e desafiam modelos globais sobre poluição.