Estiagem amazônica: um ciclo de descaso que precisa de quebra

“Diante da estiagem amazônica, o alerta está dado — de novo. E é preciso que a voz do comércio e da indústria da Amazônia ecoe com firmeza: não pedimos favores, exigimos políticas públicas comprometidas com a realidade logística do nosso território”

Mais uma vez, como em um roteiro já escrito, os rios da Amazônia anunciam a chegada de uma nova vazante severa. Para quem vive do comércio, da indústria e da prestação de serviços na região, isso significa um novo ciclo de prejuízos, incertezas e desigualdade logística.

Este não é um evento inesperado. É um fenômeno cíclico que já ceifa competitividade, eleva o custo de vida e prejudica o abastecimento de milhões de pessoas. E, mesmo assim, o Brasil insiste em virar as costas para este drama amazônico.

estiagem amazônica
Chega de paliativos!

Quando o nível dos rios baixa drasticamente, o frete sobe. Aplica-se uma taxa conhecida como “low waters”, imposta pelas operadoras de transporte pelo risco ampliado da navegação. Mas esse é apenas o custo direto. Há também os indiretos:

  • 🔷 ⁠Maior tempo de entrega,
  • 🔷⁠ ⁠Maior necessidade de estoque,
  • 🔷 ⁠Maior imobilização de capital,
  • 🔷Mais carga tributária sobre tudo isso.

Além da distância física dos grandes centros, a Amazônia sofre com um isolamento logístico e político que parece teimoso e deliberado. A cada novo ciclo de estiagem, nossas dificuldades se repetem como se fossem novidade, e as medidas sempre chegam tarde, paliativas, emergenciais – nunca estruturais.

20241004secarionegro1 marizildagp0su2ojh
Embarcações encalhadas no leito seco do Rio Negro: trecho que banha Manaus registrou a maior seca desde 1902, ano em que se iniciaram as medições no local (Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace)

A proposta não é apenas gritar o problema. É propor, dividir responsabilidades e convocar para a colaboração entre setor público e privado, antes que a seca bata à porta mais uma vez.

Do setor privado, podemos agir:

  • 🔷 ⁠Oferecendo custos portuários mais acessíveis nos dois meses que antecedem o período crítico,
  • 🔷⁠Organizando compras antecipadas,
  • 🔷 ⁠Ajustando estoques com planejamento coletivo.

Do Governo Federal, exigimos:

  • 🔷 ⁠Redução temporária das taxas da Suframa nos meses de risco,
  • 🔷Melhoria das condições de trabalho para a Alfândega de Manaus, garantindo agilidade e eficiência no desembaraço de cargas.

Do Governo Estadual, pedimos:

  • 🔷 ⁠Prazos maiores para pagamento de ICMS no mesmo período,
  • 🔷⁠Diálogo com o setor produtivo para medidas antecipadas e não apenas reativas.

O alerta está dado. De novo. E é preciso que a voz do comércio e da indústria da Amazônia ecoe com firmeza. Não pedimos favores. Exigimos políticas públicas comprometidas com a realidade logística do nosso território.

Chega de paliativos pós-desastre. Está na hora de responsabilidade prévia. O Amazonas não pode mais ser tratado como exceção: precisamos ser prioridade.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

Artigos Relacionados

Cobra com patas de 100 milhões de anos muda teoria sobre evolução das serpentes

Fóssil de cobra com patas encontrado na Argentina revela novas pistas sobre a evolução das serpentes e desafia teorias antigas.

O que são panapanás? Entenda o fenômeno das borboletas na Amazônia

Panapaná reúne milhares de borboletas na Amazônia e revela conexões entre ciclos dos rios, biodiversidade e mudanças climáticas.

Terras raras, soberania rara

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados...

Estudo na revista Nature revela que microplásticos no ar foram superestimados

Estudo revela que microplásticos transportados pelo ar vêm majoritariamente da terra e desafiam modelos globais sobre poluição.

Após 10 anos, Brasil atualiza lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção

Nova lista atualiza cenário das espécies aquáticas ameaçadas no Brasil e reforça medidas contra sobrepesca, poluição e perda de habitat.