Duas novas espécies de peixe, os “Cascudos da Mantiqueira”, são descobertas no Rio Sapucaí

As duas novas espécies de peixe são endêmicas da Serra da Mantiqueira e correspondem a um quinto das espécies de água doce no país

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) descobriram duas novas espécies de peixes do gênero Neoplecostomus nas cabeceiras do Rio Sapucaí, afluente do Rio Grande, localizado na bacia do alto Paraná. As espécies são endêmicas da Serra da Mantiqueira, que abrange São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os líderes da descoberta descreveram os novos cascudinhos em um artigo publicado na última sexta-feira (6) na revista Neotropical Ichthyology. Com isso, a bacia do alto Paraná agora abriga 12 das 20 espécies conhecidas de Neoplecostomus no meio ambiente, um gênero da família Loricariidae, popularmente conhecido como “cascudos”.

Localidade-tipo das novas espécies de peixe: riacho sem nome na rodovia AMG-1915, Delfim Moreira, drenagem do rio Sapucaí, sub-bacia do rio Grande, bacia superior do rio Paraná.
Localidade-tipo das novas espécies de peixe: riacho sem nome na rodovia AMG-1915, Delfim Moreira, drenagem do rio Sapucaí, sub-bacia do rio Grande, bacia superior do rio Paraná | Foto presente no artigo “Duas novas espécies de Neoplecostomus (Siluriformes: Loricariidae) de altas altitudes da bacia superior do rio Paraná, Brasil”.

“Essa é a família com mais espécies que a gente tem na América do Sul, de água doce. Então em todas as regiões têm cascudos e, principalmente essas de pequeno porte, elas costumam ter uma distribuição geográfica bastante restrita”, explica Pedro Uzeda, um dos autores do artigo, ao g1. No Brasil, foram descritas cerca de 6 mil espécies de peixes de água doce – sendo 1 mil cascudos e outros 5 mil de outros grupos.

Parentes próximos, mas não idênticos

As duas novas espécies de peixe Neoplecostomus são como parentes próximos, mas possuem diferenças notáveis. O Neoplecostomus altimontanus apresenta um padrão discreto, com manchas escuras bem definidas ao longo do corpo e uma nadadeira adiposa maior, uma característica que o auxilia a se destacar nos riachos sombreados das montanhas onde vive.

Já o Neoplecostomus sapucai contrasta com seu parente próximo por ser mais colorido, exibindo barras claras ao longo do corpo e uma nadadeira adiposa menor ou ausente. Essa característica o adapta a riachos ensolarados e com menor densidade de vegetação. Essas diferenças não são apenas estéticas, mas refletem adaptações específicas ao ambiente único das altitudes da Serra da Mantiqueira, onde cada espécie encontrou seu nicho.

Conservação da espécie requer preservação de seu habitat

Localidade de coleta do Neoplecostomus altimontanus no Rio Capivari, riacho que drena o Rio Sapucaí
Localidade de coleta do Neoplecostomus altimontanus no Rio Capivari, riacho que drena o Rio Sapucaí — Foto: Pedro Uzeda

Os cascudos da Mantiqueira foram encontrados apenas em localidades com condições ambientais altamente preservadas, como a localidade-tipo no rio Capivari, nos arredores do Parque Nacional do Itatiaia, e no Córrego Pinhão Assado, dentro do Instituto Alto-Montana da Serra Fina, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Alguns quilômetros rio abaixo da localidade-tipo, o rio Capivari e vários riachos afluentes atravessam ambientes urbanos, sendo sujeitos a canalização, remoção da cobertura ripária e poluição, e nenhum espécime foi encontrado nessas áreas, aponta o estudo.

“Outra ameaça para eles é remover a mata ciliar, por causa do risco de assoreamento. Como eles vivem entocados nas pedrinhas no fundo do rio, quando o rio começa a assorear esse espaço enche de areia e as espécies não tem mais onde viver”, alerta o biólogo.

Assim, por habitarem altitudes entre 1.000 e 1.500 metros, as novas espécies de peixe Neoplecostomus altimontanus e Neoplecostomus sapucai são especialmente sensíveis a mudanças ambientais, tornando o monitoramento essencial para sua conservação. Com o aquecimento global, animais adaptados a climas frios e específicos enfrentam a redução de seus habitats, destacando a urgência de medidas para protegê-los.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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