Será que vale a pena utilizar a Amazônia para o plantar de soja?

Estudo aponta que o desmatamento impulsionado pelo cultivo de soja, gerou uma perda de R$10 bilhões em serviços ecossistêmicos nas últimas três décadas. Pesquisadores sugerem alternativas sustentáveis e questionam a viabilidade do uso da Amazônia para agricultura intensiva.

Uma pesquisa recente realizada por cientistas do Museu Paraense Emílio Goeldi e da Universidade Federal do Pará (UFPA) revelou que, nas últimas três décadas, o leste amazônico perdeu cerca de R$10 bilhões em serviços ecossistêmicos devido ao aumento da área destinada à agricultura. O estudo, publicado na revista científica “Ambiente e Sociedade”, destaca as perdas econômicas geradas pelo desmatamento entre 1985 e 2021, focando na bacia do Gurupi, região que abrange os estados do Pará e do Maranhão.

Os pesquisadores identificaram 15 tipos de serviços ecossistêmicos, avaliando 210 valores distintos para quantificar os impactos econômicos. De acordo com os dados coletados, a área agrícola na bacia do Gurupi cresceu 92% enquanto a área de floresta sofreu uma redução de 25%. O cultivo de soja foi apontado como o principal fator impulsionador dessa transformação, resultando em consequências adversas para o equilíbrio ambiental da região.

Será que vale a pena utilizar a Amazônia para o plantar de soja?
Desmatamento na Reserva Biológica do Gurupi e das Terras Indígenas Caru e Alto Turiaçu, no Maranhão. Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Ima Vieira, coautora do estudo e pesquisadora do Goeldi, em entrevista ao portal O Eco alertou para os efeitos negativos dessa mudança: “Todo esse plantio enfraquece as funções dos ecossistemas naturais, como a regulação do clima, a qualidade da água e a polinização, que são serviços importantes prestados pela floresta. Se a área de floresta é reduzida, esses serviços também se reduzem”. Além de destacar a perda dos serviços ecossistêmicos, o estudo visa enfatizar a importância da consolidação da política nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Tal política, segundo os pesquisadores, poderia beneficiar especialmente as comunidades quilombolas da região, promovendo a conservação ambiental e proporcionando suporte financeiro às populações locais que dependem diretamente dos recursos naturais.

Será que vale a pena utilizar a Amazônia para o plantar de soja?
foto: Daniela Paola Alchapar/Unsplash

É possível Sustentabilidade na produção de soja?

Entre 2015 e 2019, a Bacia Amazônica foi responsável por um terço das terras convertidas para o cultivo de soja no Brasil, gerando um considerável desmatamento. Um estudo de 2022 publicado na revista Nature Sustainability, no entanto, sugere que é possível aumentar a produção agrícola anual de soja em 36% até 2035, ao mesmo tempo em que se reduz as emissões de gases de efeito estufa em 58%, comparado às tendências atuais.

Os pesquisadores, liderados por especialistas da Universidade de Nebraska-Lincoln e em parceria com instituições brasileiras como a UFSM, USP, UFG e Embrapa, indicam que o Brasil, maior exportador mundial dessa commodity, poderá converter cerca de 57 milhões de acres em plantações nos próximos 15 anos. Um quarto dessa expansão deverá ocorrer em áreas ecologicamente frágeis, como florestas tropicais e savanas.

O estudo apresentou três cenários para a produção em quatro regiões-chave do Brasil: Pampa, Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado. Utilizando dados do Global Yield Gap Atlas, os cenários consideram a continuidade das tendências atuais, a proibição da expansão agrícola, e uma estratégia de “intensificação”. Este último, que propõe aumentar os rendimentos das culturas de soja, cultivar uma segunda safra de milho e criar mais gado em pastagens menores, mostrou-se promissor em termos de sustentabilidade.

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Foto: Jornal da USP e Acervo do Pesquisador

A estratégia de intensificação permitiria que o Brasil mantivesse 85% da receita bruta projetada de soja e milho, enquanto reduzisse as emissões de gases de efeito estufa em 58%. Patricio Grassini, líder do estudo, destaca que esta abordagem poderia eliminar completamente o desmatamento e mitigar as mudanças climáticas, mantendo a produtividade agrícola.

Para que a intensificação seja bem-sucedida, o estudo ressalta a necessidade de instituições fortes, políticas adequadas e fiscalização rigorosa, garantindo que os ganhos de produtividade resultem na preservação das florestas. As recomendações também possuem aplicabilidade global, especialmente para outros países em desenvolvimento que enfrentam desafios semelhantes na produção agrícola sustentável. O Jornal da USP falou mais sobre isso.

Será que vale a pena utilizar a Amazônia para o plantar de soja?
Parque Nacional das Anavilhanas

Vale a pena soja na Amazônia?

À medida que as tendências de bioeconomia e desenvolvimento sustentável ganham força, surge uma questão crítica: vale a pena sacrificar o território amazônico para o plantio de soja? O Brasil tem uma oportunidade única de liderar uma nova era de crescimento econômico baseada na conservação e valorização dos recursos naturais, ao invés de continuar no caminho do desmatamento para agricultura intensiva.

A reindustrialização com base sustentável pode proporcionar uma agregação de valor aos produtos que exportamos, podendo ser a chave para um futuro mais sustentável. Em vez de expandir a fronteira agrícola à custa da floresta amazônica, o Brasil poderia investir em tecnologias de bioeconomia que aproveitem a biodiversidade única da região para criar produtos de alto valor agregado. Além disso, a implementação de práticas agrícolas mais eficientes e a utilização de terras já desmatadas para o cultivo poderiam atender à demanda global sem a necessidade de novos desmatamentos.

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Imagem meramente ilustrativa criada por inteligência Artificial

É essencial questionar se a expansão dessa produção em áreas ambientalmente frágeis realmente beneficia o país a longo prazo. O desmatamento não só ameaça a rica biodiversidade da Amazônia, mas também compromete serviços ecossistêmicos vitais, como a regulação do clima e a qualidade da água. A aposta na bioeconomia, aliada a políticas públicas sólidas e fiscalização rigorosa, pode proporcionar um crescimento econômico que não dependa da destruição ambiental.

O Brasil deve decidir se deseja ser reconhecido como um líder global em sustentabilidade e inovação, ou se continuará a trilhar o caminho tradicional e insustentável da expansão agrícola. O futuro da Amazônia, e do próprio desenvolvimento econômico do país, depende dessa escolha crucial.

Igor Lopes
Igor Lopeshttps://brasilamazoniaagora.com.br/
Igor Lopes é diretor de conteúdos do Portal

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