Ártico liberou carbono na última deglaciação

Em eventos do passado de aquecimento do planeta, como durante a última deglaciação, os solos congelados do Ártico sofreram alterações que levaram a grandes emissões de gases de efeito estufa. A descoberta serve de alerta para as mudanças em curso devido ao aquecimento global, ressaltou estudo publicado na revista ‘Science Advances‘.

Estima-se que os solos congelados do Ártico abriguem cerca de 1,3 trilhões de toneladas de carbono orgânico. A quantidade corresponde a duas vezes o estoque de CO2 presente na atmosfera. Por esse motivo, as mudanças observadas no Ártico constituem um tema de grande interesse para a ciência.

O aquecimento da região está desencadeando processos que podem levar à liberação do carbono armazenado nos solos. Constituídos por uma mistura de terra e gelo, os solos congelados enfrentam a ameaça de derretimento, que ocorre de modo gradual ou, sob determinadas condições, abruptamente.

Compreender melhor os processos em atuação no Ártico, bem como a resposta da região ao aquecimento, representa um importante desafio para a ciência. Contribuiria para aprimorar as projeções de cenários futuros de aquecimento, levando-se em conta os fluxos de carbono associados aos solos congelados.

Liberação de carbono na última deglaciação

Investigar os acontecimentos do passado geológico terrestre consiste em uma alternativa para entender melhor as possíveis consequência do atual aquecimento. É o caso da última deglaciação, entre aproximadamente 20 e 10 mil anos atrás.

No auge da glaciação, entre 26 e 20 mil anos atrás, o mundo havia se transformado. A temperatura média global estava bem abaixo da atual. Grandes calotas polares cobriam o Hemisfério Norte, e geleiras continentais se expandiram. O nível médio do mar caiu em cerca de 134 metros em relação ao presente.

O fim da era do gelo – a deglaciação -, durante a qual o sistema climático aqueceu, trouxe consigo o derretimento das calotas polares do Hemisfério Norte e a retração global das geleiras. Em consequência, o nível médio do mar subiu para os níveis atuais.

Nesse período, acredita-se que depósitos ricos em carbono de solos no oeste da Sibéria perderam grandes volumes de carbono. A erosão do terreno provocou a biodegradação da matéria orgânica dos solos.

A liberação do carbono teria contribuído para o aumento das concentrações atmosféricas de CO2 em 80 partes por milhão – ppm. A principal fonte de CO2 teria sido o oceano. Faltavam, no entanto, levantamentos contínuos de registros paleoclimáticos da perda de carbono durante a última deglaciação.

Dados de sedimentos marinhos

Aquecimento no Ártico levou à liberação de carbono dos solos congelados
A linha cinza do gráfico traz a reconstrução das temperaturas entre 27 mil anos atrás e o período pré-industrial. A linha preta mostra o fluxo de carbono detectado nos sedimentos marinhos. Fonte: adaptado da figura 2 do estudo.

Através da coleta e análise de sedimentos marinhos na costa da Sibéria, os cientistas reconstruíram os fluxos de carbono no Ártico desde o auge da última era do gelo, há cerca de 27 mil anos atrás, até o período pré-industrial.

Os resultados constituíram o primeiro registro paleoclimático contínuo da liberação de carbono orgânico na região do Ártico siberiano. Verificou-se que ao longo do auge da glaciação, a região perdeu uma baixa quantidade de carbono.

Os dados revelaram três pulsos de liberação de carbono, ligados a três eventos de aquecimento do Ártico. Em um dos eventos, estoques mais novos de carbono foram liberados devido à degradação de camadas superficiais dos solos congelados, um processo gradual que se observa atualmente.

Nos outros dois eventos, processos erosivos e o colapso abrupto da paisagem dos solos congelados levou à emissão de estoques mais antigos de carbono. Em todos os três eventos, o estudo identificou liberação maciça de carbono orgânico, resultando em emissões para a atmosfera.

Os resultados confirmaram outras pesquisas, apontando que o aquecimento do Ártico durante a última deglaciação promoveu grandes injeções de CO2 na atmosfera. Segundo o estudo, o aquecimento do Ártico, mesmo em apenas alguns graus, tem o potencial de desencadear o derretimento e degradação em larga escala dos solos congelados.

Esse gatilho, uma vez ativado, elevaria ainda mais as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa, acelerando o aquecimento do planeta.

Mais informações: Martens, Jannik, et al. “Remobilization of dormant carbon from Siberian-Arctic permafrost during three past warming events.” Science Advances 6.42 (2020): eabb6546.

Fonte: Ciência e Clima

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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