Através do canto, pesquisadores descobrem nova espécie de perereca na Amazônia

Uma diminuta perereca, mas com uma potente cantoria. E foi graças ao seu canto, tão diferente das demais espécies conhecidas na região das florestas alagáveis de Rondônia, que pesquisadores conseguiram encontrá-la e registrar uma nova espécie para a rica herpetofauna amazônica. A Dendropsophus bilobatus é pequenina, os indivíduos encontrados pelos pesquisadores, todos eles machos, têm em média 20 milímetros, ou seja, são um pouco maiores do que uma unha humana. Mas na hora de “soltar o gogó”, a perereca se agiganta e vocaliza numa frequência muito mais alta do que a maioria das espécies que se conhecesse desse grupo. E foi exatamente esse canto que chamou atenção dos pesquisadores.

“Nós encontramos a nova espécie pela primeira vez nas florestas alagáveis do rio Jací-Paraná, um afluente do rio Madeira, em 2011. Nós ouvimos os machos cantando e percebemos que aquele canto não era comum. O que chamou atenção foi a frequência – 8.979 a 9.606 Hertz –, com que o canto era emitido, muito mais alta do que a maioria das espécies que se conhece desse grupo em específico de pererecas. Depois disto, coletamos mais alguns indivíduos desta nova espécie ao longo de 2012 e 2013, e gravamos o canto emitido pelos machos. Ano passado, sequenciamos o DNA de alguns indivíduos dessa espécie e analisamos o canto da espécie, e confirmamos então que se tratava de uma espécie ainda desconhecida”, conta um dos pesquisadores que participou da descoberta, o brasileiro Miquéias Ferrão, do Museum of Comparative Zoology de Harvard.

A nova espécie foi descrita em um artigo publicado na última quinta-feira (18), no periódico ZooKeys, escrito por Miquéias junto com outros três herpetólogos: Albertina Pimentel Lima, Jiří Moravec e James Hanken.

A cantoria emitida por sapos, rãs e pererecas, como a Dendropsophus bilobatus, são uma característica importante para identificação das espécies, pois cada espécie tem seu próprio canto. “Esse canto quase sempre é emitido por machos e é utilizado para atrair as fêmeas da mesma espécie. Algumas vezes, as diferenças são sutis ao nosso ouvido e são preciso análises estatísticas para conseguirmos diferenciá-los, outras vezes, a diferença no canto entre espécies diferentes é perceptível mesmo aos nossos ouvidos”, explica Miquéias.

Manchete 2
O saco vocal da Dendropsophus bilobatus é dividido em dois lobos, que se inflam durante a cantoria e ficam verde translúcido. Foto: Albertina Lima

No caso da Dendropsophus bilobatus não houve muita dúvida sobre a peculiaridade da vocalização. Outra característica bem particular desta nova espécie é seu saco vocal, que é a estrutura utilizada para emitir o canto. O saco vocal dos machos desta espécie é “bilobado”, como chamam os herpetólogos, o que significa que ele possui dois lobos, partes arredondadas que se assemelham a duas bolas de chiclete coladas uma na outra, que no caso da nova perereca ficam verde translúcido.

“Esta nova espécie de perereca é caracterizada principalmente pelo seu canto e pelo saco vocal dos machos. É uma espécie de hábito noturno e sabemos que ela se reproduz em áreas dentro da floresta que são periodicamente alagadas pelos rios no período das chuvas. Este é o período em que a espécie se reproduz, e o período onde é mais fácil encontrá-la”, informa o pesquisador. Sobre o habitat da perereca, Miquéias explica que até o momento ela foi encontrada apenas nas florestas do lado direito do rio Madeira, no Brasil, mas que os pesquisadores acreditam que ela também possa ocorrer do lado boliviano.

O gênero Dendropsophus corresponde a um grupo de espécies pequenas, com alta diversidade de espécies, na maioria das vezes morfologicamente semelhantes. Atualmente, são reconhecidas 108 espécies do gênero, das quais 66 ocorrem na Amazônia brasileira.

Fonte: O Eco

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...