“A isenção alivia 25 milhões de assalariados e aquece o consumo, mas a pergunta decisiva é se o Brasil terá coragem de atacar as distorções que blindam a alta renda”
Há iniciativa que nascem a qualquer custo — e, ainda assim, carregam dentro de si um nervo ético que não se compra. Porque o Brasil, quando fala de Imposto de Renda, não fala apenas de alíquotas: fala do desenho secreto do seu pacto social. Fala de quem pode sonhar com o mês seguinte — e de quem já vive instalado no século seguinte.
A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil (com desconto até R$ 7.350) tem, sim, um lado imediato e doméstico: dinheiro voltando ao bolso de milhões de trabalhadores. E bolso, no Brasil real, não é cofre; é corrente sanguínea. É supermercado, farmácia, material escolar, conserto do ventilador, prestação renegociada, um respiro que impede a vida de virar uma fila permanente de humilhações.
Mas o valor mais precioso desse anúncio não está apenas no consumo que ele destrava. Está no que ele denuncia.
A desigualdade brasileira não é acidente: é arquitetura. O Brasil convive há décadas com uma espécie de infraestrutura ideológica — uma engenharia invisível que normaliza a concentração de renda como se fosse paisagem. Como se fosse natural que alguns acumulem com facilidade aquilo que a maioria só toca com sacrifício. Como se a desigualdade fosse “triste”, mas inevitável; “alta”, mas não imoral.
E é aí que a isenção do IR, quando associada ao princípio da justiça tributária, deixa de ser apenas uma medida administrativa e vira uma provocação civilizatória: quem ganha mais deve contribuir proporcionalmente mais. Não por punição. Por maturidade republicana.
Porque, se o imposto recai com mais peso sobre quem trabalha e consome — e com menos peso sobre quem concentra e recebe rendas pouco tributadas — então o sistema não arrecada: ele escolhe lados. E, escolhendo, educa o país a aceitar a própria distorção.
Quando “pagar menos” vira política de dignidade Isentar até R$ 5 mil é reconhecer que existe uma faixa enorme de brasileiros que não “sobra”, apenas resiste. Gente que sustenta a família, financia o cotidiano, mantém o comércio de bairro vivo e, muitas vezes, ainda carrega o país nos ombros sem carregar o país na conta bancária.
Ao aliviar essa base, o Estado não está “dando presente”: está desafogando a engrenagem humana que faz a economia girar. A previsão fala em injeção de recursos na economia em 2026, girando no comércio e estimulando emprego e pequenos negócios. Esse é o efeito clássico de colocar renda onde ela tem maior propensão a virar consumo e circulação — e circulação, no Brasil, é sobrevivência compartilhada.
O ponto político é outro: quem paga pouco demais? A pergunta que separa marketing de justiça é simples: quem paga a conta?
Os arautos da medida sustentam que a resposta está em corrigir uma “injustiça histórica”: a subtributação de altas rendas, especialmente quando parte relevante do rendimento vem de dividendos. Levantamentos do Sindifisco Nacional e do Ministério da Fazenda indicam que estratos muito ricos podem ter alíquotas efetivas baixíssimas em comparação com o restante da população, justamente por acessarem rendas que escapam do modelo tradicional de tributação.
Se isso for verdade — e a hipótese é plausível num país que por anos tratou renda do capital com luvas e renda do trabalho com martelo — então o problema não é o pobre pagar imposto. O inacreditável é o sistema permitir que o super-rico pague, proporcionalmente, menos do que a classe média.
E aqui mora o coração desta reflexão: a desigualdade brasileira não persiste por falta de diagnóstico. Persiste porque tem defensores silenciosos, travestidos de neutralidade técnica. Persiste porque o país aprendeu a chamar privilégio de “segurança jurídica” quando o privilégio é de cima — e a chamar direito de “gasto” quando o direito é de baixo.
O mérito e o limite da isenção
A isenção é meritória por duas razões:
1. Material: melhora a vida de quem vive comprimido entre salário e boletos.
2. Simbólica: reabre a discussão sobre progressividade e sobre o que é “justo” numa sociedade desigual.
Mas ela tem limite. E um ensaio sério precisa dizer isso: desigualdade não cai só com alívio tributário. Ela cai com um conjunto de escolhas persistentes: qualidade da educação, produtividade, formalização do trabalho, combate a sonegação sofisticada, revisão de renúncias ineficientes, eficiência do gasto público, políticas regionais que não tratem a Amazônia como periferia do orçamento e centro do discurso.
Ainda assim, o gesto importa. Porque ele mexe na crença mais perigosa do Brasil: a crença de que a ordem social é imutável.
Um país não muda apenas quando arrecada: muda quando assume vergonha Existe um ponto em que uma sociedade precisa escolher entre duas vergonhas:
• a vergonha de corrigir privilégios;
• ou a vergonha de perpetuar a miséria como destino.
Isentar o IR até R$ 5 mil — e financiar isso com um desenho mais progressivo — pode ser lido como tentativa de trocar a segunda vergonha pela primeira. E isso, num país que naturalizou a distância entre o andar de cima e o andar de baixo, já é uma forma de coragem.
No fim, a medida não é “uma vitória de brasileiros”, como diz o aviso promocional. Ela só merecerá esse nome se for o começo de uma travessia: a travessia de um país que para de tratar desigualdade como estatística e passa a tratá-la como imoralidade pública — dessas que, quando permanecem, apodrecem por dentro até os discursos mais bonitos.
Porque um Brasil que isenta a base e cobra do topo não está apenas ajustando contas. Está tentando, ainda que tardiamente, voltar a se olhar no espelho — e não desviar os olhos.