“A síntese é esta: o Acordo UE–Mercosul mexe no “clima” em que a ZFM vive. Se o Polo depender só do abrigo, sentirá frio. Se usar o vento para gerar energia, pode ganhar uma nova década de fôlego”
O destravamento do Acordo UE–Mercosul (com o “sinal verde” político dado por uma maioria qualificada de países da UE nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026) parece, à primeira vista, um assunto distante da Avenida Buriti e dos galpões do Distrito Industrial. Mas, brother, ele mexe numa das engrenagens mais sensíveis da Zona Franca de Manaus: o diferencial de competitividade que nasce da combinação “tarifa alta + incentivo local”.
Eis o ponto central: quando você baixa tarifa de importação para produtos europeus no Mercosul, você mexe no “muro” que ajuda a sustentar a indústria instalada em Manaus. Ao mesmo tempo, você abre uma avenida de acesso a tecnologia, máquinas, insumos e até mercados — mas só para quem souber dirigir nela.
O que aconteceu (e o que ainda falta)
- A UE confirmou apoio suficiente para avançar com a assinatura do acordo — o maior acordo comercial já concluído pelo bloco europeu, após mais de 25 anos de negociação.
- Mesmo assim, não entra em vigor agora: ainda precisa do aval do Parlamento Europeu, e isso pode ser apertado politicamente.
- O pano de fundo é geopolítico: para defensores como Alemanha e Espanha, o acordo ajuda a abrir mercados, compensar tensões com tarifas dos EUA e reduzir dependência da China, inclusive garantindo acesso a insumos críticos.
Por que isso encosta na ZFM
A ZFM é uma solução brasileira para um problema brasileiro: como industrializar longe dos grandes centros, criando emprego formal e coesão territorial na Amazônia. O “motor” do modelo, goste-se ou não, é um diferencial econômico que depende também do ambiente tarifário e regulatório.
Quando um acordo promete reduzir tarifas altas do Mercosul sobre bens industriais europeus (carros, autopeças, máquinas, químicos etc.), o resultado tende a ser este:
1) Risco: o “barateamento do importado” morde a vantagem relativa
Se o produto europeu chega com menos imposto, ele encurta a distância de preço para o produto feito aqui (inclusive em Manaus). Isso pode pressionar margens em setores onde a Europa é forte — máquinas, químicos, equipamentos e partes — e, por efeito dominó, reduzir demanda por componentes e processos locais.
Em português direto: quando o muro baixa, quem vivia melhor protegido precisa correr para ser mais competitivo de verdade — produtividade, escala, engenharia, design, pós-venda, logística.
2) Oportunidade: máquinas e tecnologia mais baratas podem turbinar produtividade no PIM
Aqui entra o lado pouco comentado: se a tarifa cai para bens de capital e tecnologia europeia, o Polo pode comprar melhor, modernizar linhas, automatizar, reduzir perdas, ganhar qualidade e eficiência energética.
Ou seja: o mesmo acordo que aperta por um lado pode soltar um parafuso do outro — aquele parafuso que trava a modernização por custo de equipamento e tecnologia.
3) Oportunidade “difícil”: exportar para a UE (mas com régua alta)
A grande promessa simbólica do acordo é criar um mercado integrado gigantesco (na casa de 700+ milhões de pessoas) e ampliar comércio.
Para a ZFM, exportar mais para a Europa é possível, mas não é “só vender”: é cumprir regras de origem, padrões técnicos, rastreabilidade e exigências ambientais que, politicamente, estão no coração do debate europeu (inclusive no Parlamento).
O acordo mais recente tentou justamente amarrar o pilar comercial a compromissos de sustentabilidade (Paris etc.), porque sem isso a resistência europeia cresce.
Então… o que isso significa para a economia da ZFM, na prática?
Significa que Manaus precisa tratar esse acordo como alerta estratégico, não como manchete distante.
Três linhas de ação bem pé no chão:
- Mapear “onde dói”: quais NCMs do Polo ficam mais expostos se a tarifa cair (autopeças? certos eletroeletrônicos? químicos?).
- Acelerar a agenda de competitividade real: produtividade, inovação de processo, eficiência energética, engenharia local, certificações.
- Transformar ESG em vantagem comercial: se a UE vai apertar o cerco político e regulatório, a ZFM pode responder com o que tem de mais raro: uma indústria no coração da floresta que pode provar — com dados — que ajuda a manter a floresta em pé.