Tio de Damares, pastor é acusado de grilagem de terra pública na Amazônia

O mesmo tio que teve avião utilizado para tráfico de droga apreendido, é acusado de ter fraudado documentos para se apropriar de terras públicas.

O pastor e ex-deputado federal Josué Bengtson, tio da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), é acusado de criar gado em uma extensa área de 6.866,52 hectares de terras pertencentes à União. Esta região é quase o dobro do tamanho do Parque Nacional da Tijuca, localizado no Rio de Janeiro.

De acordo com investigações, 72% da propriedade, ou seja, 4.932,39 hectares, estão localizados em área pertencente à gleba federal Pau de Remo, destinada à reforma agrária desde 2015. A documentação que comprova a posse desta parcela do território, emitida pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa), é acusada de ser fraudulenta. A fazenda de Bengtson também faz divisa com a Terra Indígena Alto Rio Guamá, habitada pelo povo Tembé, que tem enfrentado invasões de madeireiros oriundos da Pau de Remo e de outra gleba vizinha, a Cidapar.

A questão voltou ao noticiário recentemente, quando a Polícia Federal apreendeu 290 quilos de skunk, uma variação mais potente de maconha, em um avião da Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), da qual Josué Bengtson é fundador e líder. Além disso, a senadora Damares Alves foi recentemente citada em uma reportagem do Estadão que alega sua participação em desvios de verbas públicas destinadas a duas ONGs.

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Reportagem teve acesso a laudo do Iterpa que comprova fraude fundiária de Josué Bengtson

Polêmica da posse das terras

Uma parcela da propriedade de Bengtson, de 1.821 hectares, possui título definitivo datado de 1961, período anterior à análise do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que, em 1982, definiu as terras como públicas. Por outro lado, o título provisório de 2.492,12 hectares, datado de 4 de junho de 2003, foi indicado como fraudulento pelo Incra.

Marcos Bengtson, filho de Josué, afirma que, no momento da compra, a família não tinha ciência de que se tratava de uma área federal. Quanto ao título provisório, Marcos atribui a sua origem a um erro do Iterpa, que teria admitido o equívoco em 2014. Contudo, a análise do Incra que aponta a fraude é posterior a essa data.

Disputa de terras e violência

Os territórios ocupados por Bengtson têm sido alvo de disputas violentas. Agricultores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) já ocuparam a Fazenda Cambará, pertencente à família Bengtson, em 2007. Essa propriedade tem sido utilizada para criação extensiva de gado e, segundo dados da plataforma Mapbiomas de 2021, 62% da área da fazenda está desmatada.

Josue Bengtson registrou titulo provisorio a 27 km da area original dentro de gleba publica. Imagem De Olho nos Ruralistas
Josué Bengtson registrou título provisório a 27 km da área original, dentro de gleba pública. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)

De acordo com a promotora de Justiça Agrária Ione Nakamura, do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), é necessária uma decisão judicial definitiva para a questão das terras, pois o Incra ainda não tomou todas as medidas administrativas necessárias para consolidar o assentamento.

Família, política e religião

Josué Bengtson tem uma longa carreira como pastor e líder religioso. Foi um dos principais responsáveis pela expansão da Igreja do Evangelho Quadrangular no Brasil, a partir dos anos 60. Damares Alves, sua sobrinha, também atuou como pastora na mesma igreja.

Bengtson também tem um histórico na política. Em 1999, foi eleito deputado federal pelo PTB e, em 2018, foi condenado pela Justiça Federal à perda do mandato por enriquecimento ilícito. Ele fez parte de um esquema de desvio de recursos da saúde no Pará, conhecido como “máfia das ambulâncias”.

Seus filhos, Paulo e Marcos Bengtson, também têm participações na política e na religião. Paulo foi eleito deputado federal em 2018 pelo PTB e atualmente é secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia do Pará. Marcos é apontado como o administrador da Fazenda Cambará e, em um processo de homicídio, é indicado como o mandante do crime.

Assista ao vídeo da plataforma De Olho nos Ruralistas:

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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