Estudo revela que a terra preta da Amazônia reorganiza microrganismos do solo, acelera o crescimento de árvores e surge como solução promissora para restaurar áreas degradadas.
Um estudo conduzido no Amazonas aponta que a chamada terra preta da Amazônia, um solo fértil criado por populações indígenas ao longo de séculos, pode impulsionar significativamente o crescimento de árvores nativas e contribuir para a recuperação de áreas degradadas.
Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena-USP), da Embrapa Amazônia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) observaram que mudas cultivadas com pequenas quantidades desse solo apresentaram ganhos expressivos de desenvolvimento em campo. No caso do ipê-roxo (Handroanthus avellanedae), houve aumento de até 55% na altura e 88% no diâmetro do tronco em apenas 180 dias. Já o paricá (Schizolobium amazonicum) registrou crescimento de 20% em altura e 15% em diâmetro no mesmo período.
Os resultados indicam que o diferencial da terra preta da Amazônia não está apenas na concentração de nutrientes, mas principalmente na composição microbiológica. O solo abriga uma diversidade de bactérias, arqueas e, sobretudo, fungos que favorecem a absorção de nutrientes pelas plantas e reduzem a presença de microrganismos patogênicos. Esse equilíbrio contribui para um ambiente mais propício ao desenvolvimento vegetal.
Segundo os pesquisadores, a adição da terra preta promove uma reorganização da microbiota ao redor das raízes, ampliando a eficiência dos processos biológicos que sustentam o crescimento das plantas. Os fungos, em especial, desempenham papel central na decomposição da matéria orgânica e na ciclagem de nutrientes, tornando-os mais disponíveis para as espécies cultivadas.
O experimento foi realizado no Amazonas, com mudas inicialmente cultivadas em viveiro e posteriormente transferidas para campo aberto, sem uso de fertilizantes ou herbicidas. Mesmo nessas condições, todas as plantas sobreviveram e aquelas tratadas com terra preta apresentaram desempenho superior.
Além de reforçar o valor do conhecimento ancestral na formação desses solos, o estudo abre caminho para o desenvolvimento de soluções baseadas na microbiologia da terra preta da Amazônia. Como seu uso direto é protegido por lei, o foco dos cientistas está em identificar os microrganismos e processos responsáveis por suas propriedades, com o objetivo de replicá-los em larga escala.
A aplicação desse conhecimento pode ser estratégica para restaurar áreas degradadas, melhorar sistemas agrícolas e fortalecer serviços ecossistêmicos essenciais, como o sequestro de carbono e a conservação da biodiversidade.