“A plateia latino-americana acompanha com atenção, alguns aplaudem, outros suspiram. A música é séria, mas não consegue esconder o pano de fundo: estamos em plena ópera bufa, e o diplomata aloprado insiste em comandar o espetáculo”
Ópera bufa em quatro atos e um epílogo desafinado
Ato I — O ensaio geral que virou tragédia
As cortinas se abrem em Brasília. No palco, diplomatas de dois países que trocam sorrisos protocolares há mais de dois séculos. A ata da reunião é um libreto suave: elogios ao Brasil, aos bons negócios yankees, com reverências a São Paulo, como “coração financeiro da América Latina”, país de promessas de parcerias duradouras. O público respira aliviado — parecia que a ópera seguiria com flautas e violinos.
Mas eis que, oito dias depois, o maestro aloprado surge. Troca a partitura pela corneta de fanfarra e anuncia: tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros! Um gesto tão abrupto que fez os violoncelos desafinarem e as flautas engasgarem.
Ato II — O Garrincha da geopolítica
Trump, do país do Pato Donald, resolve improvisar: quem sabe, pensa ele, pode resolver a guerra entre Rússia e Ucrânia? Primeiro, conversa sozinho com Putin, como se fosse um técnico bolando jogada ensaiada. Esquece, no entanto, de combinar com o “time”. A cena é digna da anedota de Garrincha em 1962: “Mas vocês combinaram com os russos?”.
O palco vira pelada: jogadores correndo em direções opostas, com Trump driblando a si mesmo. O público ri, mas o placar continua marcando tragédia.
Ato III — O coro da embaixada
Enquanto isso, a embaixada dos EUA no Brasil ecoa, em uníssono, o discurso desafinado do chefe:
“Parceiro horrível!”
“Democracia duvidosa!”
“Comércio injusto!”
O coro parece mais uma paródia de opereta vienense do que uma análise séria. O contraste é gritante: bastidores cordiais, palanque agressivo. O público se pergunta: trata-se de má-fé ou apenas de um libreto mal traduzido?
Ato IV — O contracanto da resistência
Do outro lado do palco, surge o Brasil em tom grave. Lula ergue a batuta da soberania: recorre à OMC, invoca a Lei de Reciprocidade, prepara retaliações. A orquestra nacional toca o “Brasil Soberano”, injetando bilhões em crédito para proteger exportadores.
A plateia latino-americana acompanha com atenção, alguns aplaudem, outros suspiram. A música é séria, mas não consegue esconder o pano de fundo: estamos em plena ópera bufa, e o bufão insiste em comandar o espetáculo.
Epílogo desafinado
No fim, a cortina cai. Trump, convencido de que protagonizou uma tragédia shakespeariana, recolhe os aplausos imaginários de sua plateia fiel. Mas o público global sai do teatro rindo, comentando nos corredores: “Que peça estranha… parecia drama, mas foi comédia. Ou seria uma comédia que custou caro demais para o Brasil?”
E assim termina a Crônica dos tarifões de um diplomata aloprado — uma ópera sem maestro, onde o riso e o espanto disputam lugar na mesma plateia.