Conheça a história da seringueira, que transformou Manaus em uma das cidades mais ricas do mundo, mas também aprofundou desigualdades que ainda persistem. Hoje, a população amazônica busca reescrever esse legado por meio de modelos produtivos que valorizam a floresta em pé.
Entre 1890 e 1920, Manaus e Belém viveram um ciclo de modernização raro para os padrões da época. Alimentadas pela riqueza da borracha — o “ouro negro” que o mundo industrial passou a disputar — as duas capitais amazônicas se tornaram símbolos de sofisticação e desenvolvimento urbano no Brasil.
Boulevards arborizados, bondes elétricos, teatros monumentais e mercados de ferro fundido replicavam o estilo europeu. Manaus foi, então, uma das cidades mais ricas do mundo: A libra esterlina circulava como moeda corrente e a renda per capita era duas vezes maior que a das regiões cafeeiras do Sudeste.
Esse surto de prosperidade foi possível graças à crescente demanda internacional por látex, usado para fabricar pneus, engrenagens e peças industriais. A Amazônia chegou a responder por quase 40% de todas as exportações brasileiras. Era o auge do chamado ciclo da borracha, motor de uma modernização urbana que fez Belém ser chamada de a “cidade mais europeia do Brasil” e transformou Manaus na “Paris dos trópicos”.
Mas esse desenvolvimento era seletivo. Enquanto o centro das cidades florescia, periferias alagadiças cresciam sem acesso a saneamento e infraestrutura. No interior da floresta, milhares de trabalhadores eram submetidos ao sistema de aviamento, presos a dívidas com os patrões e sem acesso a direitos básicos. A modernidade tropical tinha endereço certo e prazo para acabar.
Esse prazo começaria a se esgotar em 1876, quando o inglês Henry Wickham deixou o porto de Belém com 70 mil sementes de seringueira escondidas no porão de um navio. Sem que ninguém soubesse, ele levava consigo o embrião do colapso de toda uma economia. Mas, antes desse ponto de virada, qual é a verdadeira história da seringueira no Brasil e o que ela revela sobre a Amazônia?
Antes do ciclo da borracha, os saberes indígenas sobre o látex
A Hevea brasiliensis, conhecida popularmente como seringueira, é uma árvore nativa da Bacia Amazônica. Ela pode alcançar até 30 metros de altura e 60 centímetros de diâmetro. Em seu ambiente natural, não forma plantações densas, permanece dispersa pela floresta, muitas vezes separada por quilômetros de outras da mesma espécie.
É da casca da seringueira que se extrai o látex, uma seiva leitosa que escorre em filetes após incisões cuidadosas no tronco. Ao coagular, esse líquido dá origem à borracha natural, que viria a revolucionar a indústria global nos séculos 19 e 20. Mas a borracha não foi descoberta pelos europeus.
Séculos antes do início do ciclo da borracha, povos indígenas da Amazônia já dominavam o uso do látex, integrando-o à vida cotidiana. Os Omágua, Tikuna e Munduruku, assim como outras etnias, usavam a seiva da seringueira para impermeabilizar roupas e objetos, confeccionar bolas elásticas para rituais e brincadeiras, moldar utensílios flexíveis e proteger o corpo durante longas caminhadas na mata.
A técnica ancestral envolvia a coagulação do látex com fogo ou fumaça, um conhecimento complexo, transmitido de geração em geração.
Em 1730, o naturalista francês Charles Marie de La Condamine, ao visitar a região, registrou o fascínio europeu diante daquele material. La Condamine descreveu as bolas moldadas pelos Omágua que “saltam muito mais que as de vento, sem comparação” — um relato que ajudaria a despertar o interesse científico e econômico europeu pela borracha.
O que era tecnologia indígena se tornou mercadoria global. À medida que o látex passou a alimentar a industrialização europeia, a Amazônia entrou em uma nova ordem econômica, que ignorava o conhecimento ancestral e priorizava a extração em larga escala. Foi assim que se abriu o primeiro ciclo da borracha, período em que Belém e Manaus vivenciaram um auge sem precedentes, sustentado por uma base profundamente desigual.
A Belle Époque amazônica: Luxo, modernidade e desigualdade em expansão
O auge da borracha criou não apenas uma, mas duas capitais amazônicas de ambição cosmopolita. Belém e Manaus emergiram como cidades-espelho, ambas movidas por uma matéria-prima que, naquele momento, sustentava engrenagens inteiras da Revolução Industrial.
A borracha natural se tornou indispensável para isolamentos elétricos, correias de transmissão, mangueiras industriais, revestimentos de máquinas, cabos telegráficos submarinos, componentes mecânicos e, mais tarde, a nascente indústria de pneus.
Isso acontecia porque a borracha natural reune propriedades únicas; alta elasticidade, impermeabilidade, forte capacidade de isolamento elétrico e resistência ao atrito, algo que nenhuma outra matéria-prima da época conseguia oferecer. A vulcanização, inventada por Charles Goodyear em 1839, ampliou ainda mais sua durabilidade e estabilidade térmica, transformando o material em base para máquinas, transportes e sistemas de comunicação que impulsionaram a Revolução Industrial.
O fluxo global de riqueza, proveniente das exportações para Europa e Estados Unidos, impulsionou transformações urbanas profundas nas duas capitais amazônicas. Belém, como centro financeiro e porta para o Atlântico, canalizou seus recursos em reformas urbanas monumentais.
Sob a gestão de Antonio Lemos, intendente entre 1897 e 1911, a cidade passou por uma remodelação inédita, com a ampliação de avenidas, implantação de sistemas de esgoto, arborização planejada, códigos de postura rígidos e a construção de espaços públicos de inspiração parisiense. Além da construção do mais antigo teatro da Amazônia, o Theatro da Paz. Lemos queria fazer de Belém uma vitrine da civilização europeia na Amazônia, um “cartão de visita” da prosperidade regional.
“Os governantes da época queriam mostrar que Belém era uma das capitais do mundo em termos de importância, de beleza e de riqueza”, disse Rebeca Ribeiro, diretora do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Pará, em entrevista à BBC.
Manaus, posicionada estrategicamente no encontro dos rios Negro e Solimões, acompanhou o ritmo e elevou o padrão de ostentação, se tornando uma das cidades mais ricas do mundo. Sob a gestão do intendente Eduardo Ribeiro, capital amazonense se orgulhava do Teatro Amazonas, com sua estrutura imponente e materiais importados da Itália, Áustria e França.
A cidade introduziu eletricidade e água tratada no centro antes de diversas capitais brasileiras e até antes de cidades europeias que alimentavam o próprio ciclo industrial da borracha.
Apesar do cenário de prosperidade, Belém e Manaus compartilhavam a mesma estrutura de desigualdade. O auge econômico coincidiu com a piora das contradições sociais. A promessa da borracha atraiu fluxos migratórios massivos, sobretudo do Nordeste. Estima-se que, entre 1870 e 1900, cerca de 300 mil nordestinos tenham chegado à Amazônia fugindo das secas.
De 1890 a 1920, a população de Belém saltou de 50 mil para 236 mil habitantes, um crescimento de 370%, superado apenas pelo de São Paulo no auge do café.
Mas a maior parte desses trabalhadores jamais participou da riqueza gerada pelo látex. Relegados aos arrabaldes e às áreas alagadiças assistiram a seus bairros crescerem de forma desordenada e sem infraestrutura mínima. Paralelamente, povos indígenas enfrentavam formas ainda mais profundas de violência, sendo submetidos ao trabalho forçado, à escravização e à expulsão de seus próprios territórios para dar lugar às frentes de extração que avançavam sobre a floresta.
Enquanto isso, os donos de seringais e as empresas europeias que forneciam infraestrutura acumulavam fortunas. “O lucro fica nas mãos de poucas famílias que detêm as terras. Mas a riqueza produzida pela exportação do látex não fica na região amazônica. Ela é drenada pelas casas exportadoras e pelas instituições bancárias que forneciam crédito a preço muito caro”, explica o pesquisador Nelson Sanjad.
Os migrantes que não conseguiram trabalho direto nos seringais passaram a ocupar de forma acelerada as margens de Belém. “São os arrabaldes da cidade, as áreas mais baixas, que a gente chama desde então de baixadas. Havia muita pobreza nesse momento”, diz a professora Celma Vidal, da UFPA. Ela destaca que, embora a desigualdade fosse comum em outras capitais brasileiras, em Belém o contraste era ainda mais evidente devido à intensidade da riqueza concentrada na elite da borracha.
Henry Wickham e a viagem que mudou o destino da Amazônia
Foi nesse cenário, de riqueza recente, mas profundamente desigual, que Henry Wickham embarcou em Belém, em 1876, com 70 mil sementes de seringueira (Hevea brasiliensis) escondidas no porão do navio SS Amazonas. Declaradas às autoridades portuárias como “espécimes botânicos extremamente delicados”, as caixas levavam, na verdade, o embrião do que se tornaria a base dos seringais asiáticos e o início do fim do monopólio amazônico da borracha.
Wickham conhecia bem a região, pois morava em Santarém, no oeste do Pará, e reuniu rapidamente as sementes que o Royal Botanic Gardens, Kew, em Londres, tanto desejava. O Kew funcionava como centro estratégico do Império Britânico, encarregado de aclimatar, multiplicar e distribuir culturas tropicais consideradas valiosas para suas colônias, como chá, cacau, cana, café, e agora, a borracha.
O inglês descreveu a operação como um “contrabando” em suas memórias. A fraude, no entanto, ocorreu no porto de Belém, quando a carga foi embarcada com licença oficial, mas obtida por meio de declarações falsas. Não havia uma lei brasileira que proibisse formalmente a exportação de sementes, mas a remoção do material genético era considerada estrategicamente delicada. A dissimulação foi, portanto, um sinal claro de que tanto Wickham, quanto o império britânico, sabiam exatamente o que estavam fazendo e o que queriam evitar.
Especialistas, como Nelson Sanjad, lembram que a coleta de plantas por naturalistas estrangeiros era comum na ciência colonial do século 19 e não havia uma legislação que a impedisse, o que relativiza, na opinião de alguns, a acusação moderna de biopirataria. Ainda assim, o episódio tornou-se simbólico.
Wickham não foi um herói solitário, nem um vilão isolado, mas peça em uma engrenagem imperial mais ampla, movida pela corrida das potências europeias para garantir matérias-primas essenciais às suas indústrias. E sua missão deu certo.
A travessia atlântica com as sementes de seringueira marca o ponto de virada na história da borracha. Nos anos seguintes, os ingleses conseguiram não apenas germinar parte das sementes em Kew Gardens, 2.700 das 70.000, mas também transplantá-las com sucesso para colônias como Sri Lanka, Malásia e Singapura, quebrando o ciclo da borracha amazônico e construindo um novo centro global de produção com escala, eficiência e baixo custo.
A competição asiática que derrubou o império da borracha na Amazônia
O domínio global da borracha amazônica chegou ao fim diante da superioridade logística e biológica dos seringais asiáticos, estabelecidos a partir das sementes contrabandeadas por Henry Wickham. Com produção organizada, custos mais baixos e maior previsibilidade, o modelo asiático sepultou de vez o extrativismo disperso da floresta tropical.
O sistema brasileiro de produção, baseado na extração de florestas nativas, tinha, desde o início, limitações estruturais. As seringueiras, espalhadas naturalmente na mata para evitar a disseminação de doenças, exigiam que os trabalhadores percorressem longas distâncias entre uma árvore e outra. Isso implicava em altos custos de mão-de-obra, produtividade baixa e logística lenta, sobretudo devido à dependência dos rios como vias de transporte.
Além das dificuldades logísticas, havia um limite biológico intransponível, a presença do fungo Pseudocercospora ulei, causador do mal-das-folhas, uma doença endêmica na região amazônica que ataca as folhas da seringueira, provocando desfolhamento precoce e queda na produção de látex.
A doença se espalha com facilidade em ambientes úmidos e inviabiliza qualquer tentativa de plantio homogêneo em larga escala. Esse obstáculo foi o grande fator que impediu o Brasil de adotar o modelo de monocultura que prosperava na Ásia, onde o fungo não existia.
Em contraste, a produção asiática foi organizada em plantações de monocultivo, altamente otimizadas para escala comercial, resultando em uma cadeia de valor muito mais eficiente. Quando a oferta asiática explodiu, os preços internacionais caíram, tornando o modelo extrativista amazônico inviável.
A queda das elites da Amazônia e a continuidade da desigualdade
Para as elites de Belém e Manaus, a crise foi abrupta. Obras públicas foram paralisadas, investimentos estrangeiros suspensos, bancos faliram e a infraestrutura urbana entrou em deterioração. Cidades que se imaginavam cosmopolitas passaram a conviver com a retração econômica e o abandono.
Já para as periferias urbanas e os trabalhadores da floresta, que nunca haviam se beneficiado da modernização ou da concentração de riquezas, o colapso não representou uma ruptura, mas sim a continuidade de uma exclusão estrutural e o agravo de certas condições. A precariedade que sempre marcou as baixadas, os barracões e os seringais seguiu seu curso, invisível às narrativas oficiais de apogeu e declínio.
O segundo ciclo da borracha: Promessa renovada, frustração repetida
Três décadas após o colapso do primeiro ciclo da borracha, a Amazônia voltou a ser requisitada por uma nova crise externa. O interesse sobre a Amazônia se revelou cíclico e oportunista. Com o bloqueio do látex asiático, imposto pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial no início dos anos 1940, os Estados Unidos passaram a depender novamente da produção amazônica.
Diferente do primeiro ciclo, no entanto, o segundo não trouxe de volta o prestígio nem os privilégios da elite regional. Os antigos barões da borracha, já enfraquecidos desde o colapso da década de 1910, não foram protagonistas da retomada. O novo esforço produtivo era guiado por uma lógica de guerra, comandado pelo Estado brasileiro em articulação com os interesses dos Estados Unidos.
A extração foi reorganizada por meio de estruturas públicas como o SEMTA (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), priorizando volume e urgência em detrimento da organização comercial tradicional.
O Brasil, sob o governo de Getúlio Vargas, firmou com os norte-americanos o Acordo de Washington, comprometendo-se a fornecer borracha para o esforço de guerra aliado. Para viabilizar a operação, o governo lançou uma ampla campanha de recrutamento com forte apelo patriótico, convocando os chamados “Soldados da Borracha”.
Entre 55 mil e 70 mil trabalhadores, em sua maioria nordestinos, foram enviados ao interior da floresta, repetindo o padrão migratório do ciclo anterior. Além de atender à demanda de guerra, o recrutamento também servia a um projeto geopolítico do Estado brasileiro: Ocupar o que se chamava, à época, de “vazio geográfico” da Amazônia, uma expressão que ignorava a presença milenar de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Essa ideia partia da premissa de que a região, por ser considerada “pouco povoada” e com fraca presença institucional, estaria vulnerável à internacionalização ou à perda de soberania. O envio massivo de trabalhadores visava consolidar o controle territorial, reforçar a integração nacional e afirmar a “brasilidade” da Amazônia.
A promessa de riqueza e glória, no entanto, logo se revelou uma tragédia. Os Soldados da Borracha enfrentaram condições de trabalho brutais, má gestão, altas taxas de mortalidade e isolamento extremo nos seringais. Com o fim abrupto da guerra e a reabertura do mercado asiático em 1945, a demanda evaporou e os trabalhadores foram abandonados pelo governo, que descumpriu as promessas de retorno, indenização e assistência social. Esse cenário traz repercussões até hoje.
A desigualdade consolidada nos dias de hoje
A modernização seletiva da Belle Époque amazônica deixou uma marca estrutural de desigualdade nas capitais da região. Segundo o IBGE, o conceito de “áreas subnormais”, aglomerados urbanos com carência de serviços essenciais e sem regularização fundiária, ajuda a mapear a precariedade estrutural nas cidades brasileiras.
Essas regiões enfrentam falta crônica de saneamento, infraestrutura precária e riscos ambientais recorrentes, como alagamentos. Belém e Manaus lideram o ranking nacional de precariedade urbana, com cerca de 57% e 56% de suas populações vivendo em áreas subnormais, respectivamente.
Esses números mostram que, enquanto a riqueza gerada pela borracha foi volátil e efêmera, a desigualdade urbana que ela ajudou a construir permanece sólida e estrutural. As baixadas de hoje são, em muitos sentidos, o “museu vivo” do fracasso de um modelo econômico baseado na extração sem redistribuição, um retrato concreto da permanência histórica da exclusão.
Da tragédia extrativista ao futuro sustentável: O que a seringueira revela à bioeconomia amazônica
A extração do látex nativo da seringueira (Hevea brasiliensis) tem sido reposicionada hoje como um caminho regenerativo e inclusivo. Em contraste com a lógica extrativista, os projetos atuais buscam agregar valor à cadeia produtiva, integrando comunidades tradicionais da floresta como protagonistas da conservação e da geração de renda.
É o caso, por exemplo, dos indígenas Rikbaktsa, em Mato Grosso, que retomaram a extração de látex e firmaram parcerias com grandes empresas dispostas a pagar preços justos e estáveis pela matéria-prima e também da comunidade extrativista da Resex Guariba-Roosevel. Essa nova configuração garante emprego e renda durante a seca, além de reforçar o papel dessas comunidades como guardiãs da floresta.
Além do impacto social, a extração nativa oferece vantagens ecológicas e tecnológicas. Por ser realizada em sistemas biodiversos, evita riscos como o avanço do fungo do mal-das-folhas. Embora menos produtiva em volume, essa forma de produção é biologicamente mais segura e alinhada com os princípios da bioeconomia baseada na floresta em pé.
Por outro lado, o legado do ciclo da borracha funciona como um estudo de caso negativo que ainda ecoa sobre a Amazônia urbana e rural. O colapso econômico gerado pela dependência de um único recurso, sem investimento em desenvolvimento humano ou diversificação produtiva, contribuiu para a desigualdade estrutural.
A memória do colonialismo científico, com o transporte das sementes por Henry Wickham, reforça a importância de proteger o patrimônio genético e o conhecimento tradicional. A criação de marcos como a Lei da Biodiversidade (Lei nº 13.123/2015), que regulamenta o acesso a recursos genéticos e garante repartição justa de benefícios, é uma resposta direta a esse fracasso histórico.
O alerta também se estende ao presente. Sem mecanismos justos de governança, políticas como o mercado de carbono correm o risco de repetir a lógica do extrativismo, transferindo o valor dos recursos para fora da região e gerando novos conflitos nos territórios.
A borracha é hoje símbolo de um duplo caminho. De um lado, representa o potencial de estruturar uma cadeia de valor sustentável e inclusiva, baseada no conhecimento ancestral, no manejo florestal e na conservação dos territórios. De outro, serve como alerta: se os lucros e o controle dessa riqueza continuarem concentrados fora da Amazônia, como ocorreu no passado, a região poderá reviver o ciclo da desigualdade agravada, em que a floresta sustenta o progresso alheio, mas permanece à margem dele.
Além dos impactos sociais, o histórico de exploração da borracha também deixa lições ambientais. Estimativas de 2023 apontam que mais de 4 milhões de hectares de cobertura de árvores, uma área equivalente ao tamanho da Suíça, podem ter sido desmatados globalmente desde a década de 1990 para dar lugar a plantações de seringueira. O dado reforça a urgência de fortalecer modelos produtivos baseados na floresta em pé, capazes de gerar valor sem repetir o colapso ecológico e social do passado.
A história da seringueira mostra que a Amazônia não é um mero depósito de recursos, físicos, genéticos ou climáticos, mas um centro de conhecimento, de cultura e de vida, cujo protagonismo deve ser garantido para evitar que o futuro seja apenas um eco da injustiça do passado.