“Nos 50 anos da Honda em Manaus, a contratação de 30 jovens do Projeto Mulheres Sakura renova uma parceria entre Japão e Amazônia que se aproxima de um século, com motivos para celebrar e agradecer“
Os certificados já haviam sido entregues quando veio a confirmação de que as 30 integrantes da primeira turma do Projeto Mulheres Sakura seriam contratadas pela Moto Honda da Amazônia. Diante das famílias, depois de oito meses de formação, a notícia foi recebida com lágrimas, abraços e agradecimentos a Deus.
João Batista Mezari contou esse momento ao Brasil Amazônia Agora com a emoção de quem acompanhou o caminho até ali. Ao recordar seu discurso na formatura, confessou: “Eu tive que me segurar”.
Há acontecimentos que também comovem quem está acostumado a conduzir equipes, enfrentar dificuldades e responder por resultados. Naquela cerimônia, o trabalho de meses ganhava o rosto das jovens e de seus familiares. Era possível reconhecer o que havia sido construído em conjunto e perceber quanto aquela oportunidade significava para cada casa.
A gratidão encontra razões concretas nessa história. Está no esforço das participantes, na confiança das famílias e no cuidado dos profissionais que organizaram uma formação capaz de chegar ao emprego. A Honda receberá as 30 mulheres como operadoras de produção em diferentes áreas da fábrica de Manaus.
O cuidado começou antes da primeira aula
O Mulheres Sakura foi concebido para jovens de 18 a 26 anos em situação de vulnerabilidade social. Mais de duas mil candidatas se inscreveram na primeira edição. A equipe de recursos humanos e serviço social foi conhecer de perto a realidade das participantes em potencial, procurando identificar aquelas que enfrentavam maiores dificuldades.
“A equipe foi no gemba, foi ver a realidade de cada uma”, relatou Mezari.
A expressão japonesa ganha uma dimensão humana nesse contexto. Ir ao lugar onde a vida acontece permitiu aproximar a seleção das condições que as candidatas efetivamente enfrentavam. Esse cuidado prosseguiu durante a formação, com bolsa, uniformes específicos do projeto e cestas básicas.
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Mezari faz questão de lembrar que houve dificuldades. Sustentar oito meses de preparação exige tempo, organização e condições materiais, sobretudo quando as necessidades de casa não podem esperar. O apoio à permanência foi parte essencial da oportunidade oferecida.
Esse é um dos méritos institucionais do projeto. A empresa reconheceu que precisava acompanhar o percurso entre a inscrição e a formatura, criando condições para que as participantes pudessem concluí-lo.
Quem ensina também participa da conquista
Foram mais de 480 horas de formação, reunindo preparação técnico-operacional, conhecimentos digitais, comunicação, inteligência emocional, trabalho em equipe, cidadania e empoderamento feminino.Cinquenta e um instrutores voluntários, entre colaboradores e gestores das áreas produtivas e administrativas, compartilharam conhecimentos e experiências. Mezari recorda a participação de profissionais de engenharia, administração, psicologia e finanças.
É justo dedicar a eles uma parte do reconhecimento. Quem ensina oferece tempo, atenção e a disposição de acompanhar o aprendizado de outra pessoa. Dentro de uma fábrica, isso inclui transmitir cuidados, explicar procedimentos e ajudar alguém a encontrar segurança para perguntar e executar uma tarefa.
Ao final, esses profissionais puderam assistir à chegada de futuras colegas. A experiência acumulada na Honda passou a contribuir para o começo de novas trajetórias, aproximando a responsabilidade social da vida cotidiana da empresa.
Há inteligência institucional nessa organização. A formação respondeu às necessidades do trabalho industrial; o apoio ajudou a sustentar a participação; a contratação deu continuidade ao aprendizado. O resultado também deve ser creditado às jovens, que atravessaram as exigências do programa e chegam à fábrica com sua própria contribuição a oferecer.
A sakura encontra o pau-d’arco
Mezari explicou que a escolha do nome Sakura carrega o sentido de renovação e transformação da vida. A floração das cerejeiras ocupa um lugar especial na cultura japonesa, reunindo pessoas em torno de uma beleza que retorna a cada primavera e permanece por pouco tempo. (japan.travel, japan.travel)
Na Amazônia, o pau-d’arco, também conhecido como ipê, oferece uma imagem com a qual podemos aproximar afetivamente essa tradição. Suas flores tomam a copa e mudam a paisagem; em diferentes espécies, a floração aparece quando a árvore está despida de folhas, tornando sua presença ainda mais visível. (gov.br, infoteca.cnptia.embrapa.br)
Podemos imaginar, nesse encontro entre a sakura e o pau-d’arco, uma expressão da convivência nipo-amazônica. Cada árvore pertence à sua história natural e cultural. Aproximá-las, aqui, é uma maneira de reconhecer a beleza dos vínculos construídos entre povos que aprenderam a compartilhar o trabalho e a vida na região.
O pau-d’arco traz também a memória dos conhecimentos indígenas, presente no uso de sua madeira para a confecção de arcos. Essa herança lembra que a Amazônia participa de todo encontro com saberes, experiências e culturas próprios. (sescsp.org.br)
As mulheres do Sakura fazem parte dessa continuidade. Recebem uma formação e levam para a fábrica sua inteligência, sua experiência de vida e sua capacidade de aprender. A parceria se renova também por meio delas.
Cinquenta anos de Honda, quase um século de convivência
A formatura acontece no ano em que a Honda celebra cinco décadas de produção em Manaus. Desde 1976, sua trajetória está ligada à formação de trabalhadores e ao desenvolvimento de competências industriais na região. Há famílias que acompanharam essa presença ao longo de gerações; agora, outras passam a escrever seus primeiros capítulos dentro da empresa. (honda.com.br)
Essa história integra uma relação mais longa. A chegada dos imigrantes japoneses a Tomé-Açu, em 1929, marca uma presença amazônica que completará cem anos em 2029. Entre dificuldades, aprendizagens e trabalho cooperativo, foram sendo construídos vínculos que hoje pertencem à memória regional. (belem.br.emb-japan.go.jp)
O Mulheres Sakura oferece um motivo contemporâneo para reconhecer essa contribuição. A gratidão alcança quem concebeu o projeto, quem o sustentou dentro da empresa, os instrutores, as equipes de apoio e as famílias. Alcança especialmente as participantes, cujo empenho deu sentido a toda a preparação.
A continuidade anunciada pela Honda poderá levar essa experiência a outras jovens. A procura pela primeira turma mostra quanto interesse existe e quanto uma oportunidade acompanhada de cuidado pode mobilizar.
Ao encerrar seu depoimento, Mezari disse que tudo havia sido “tratado com muito carinho”. É uma observação que ajuda a compreender a emoção da formatura. O carinho estava nas providências tomadas durante os oito meses, na presença das famílias e na satisfação de quem pôde anunciar as contratações.
Entre a sakura e o pau-d’arco, cabe guardar a lembrança desses abraços. Neles se encontraram o reconhecimento pelo caminho percorrido, a gratidão de quem o compartilhou e a alegria das 30 mulheres que começam uma nova etapa da vida em Manaus.