Governador do RS admite que prevenção de desastres climáticos ficaram em 2º plano

Segundo o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, a questão fiscal se sobrepôs a outros temas na lista de prioridades do governo, incluindo a prevenção de desastres climáticos. Em entrevista à Folha, Leite (PSDB) reconheceu que estudos indicavam a necessidade de investimentos em prevenção de desastres, mas argumentou que o saneamento das contas estaduais era uma prioridade maior.

“O governo também vive outras pautas e agendas. A agenda que se impunha era especialmente vinculada ao restabelecimento da capacidade fiscal do estado para poder trabalhar nas pautas básicas de prestação de serviços à sociedade gaúcha”, afirmou Leite.

Justificativas do governo para a falta de ações preventivas

O governo do Rio Grande do Sul tem enfrentado críticas por sua retórica justificativa em relação à falta de ações preventivas para minimizar os impactos das chuvas históricas que atingiram o estado este mês. Leite defendeu as mudanças na legislação ambiental do estado, apontadas por ambientalistas como fatores que contribuíram para o desastre climático, afirmando que essas alterações serviram para “aprimorar” as leis.

“Simplesmente burocratizar e dificultar licenças não é proteger o meio ambiente. Acabaram com a legislação ambiental? Não, aprimoramos, modernizamos, ajustamos e até endurecemos em muitos pontos”, declarou o governador.

DESASTRES CLIMÁTICOS
Crédito Nelson Almeida – AFP

Gastos com defesa civil em Porto Alegre

Outro alvo de críticas é a prefeitura de Porto Alegre, uma das cidades mais afetadas pelas inundações. Um levantamento da Folha destacou que a cidade gastou menos de R$ 12 milhões com a Defesa Civil entre 2021 e 2023. Em contraste, municípios menores como Canoas e Santa Cruz do Sul gastaram cerca de R$ 54 milhões e R$ 43 milhões, respectivamente, com ações de prevenção e resgate no mesmo período.

A necessidade de priorizar a adaptação climática

Especialistas destacam a necessidade de que a adaptação climática se torne uma prioridade do poder público. O climatologista Carlos Nobre argumentou ao UOL que a inação diante desses eventos é inadmissível, ressaltando que é economicamente e socialmente mais prejudicial não tomar medidas preventivas.

“É uma ignorância total do sistema econômico e fiscal não perceber que é muito pior não fazer nada. Esses eventos levam à morte de milhares de pessoas. Isso é inadmissível”, afirmou Nobre.

Igor Travassos, coordenador de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, também enfatizou a importância de colocar em prática planos de prevenção e adaptação climática. “Prevenção e adaptação têm que ser política prioritária, tanto em orçamento, como prioridade de ações e medidas do poder público, seja ele municipal, estadual ou federal”, disse Travassos à Agência Brasil.

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Lauro Alves/Secom

Reflexão sobre aprendizado e vontade política

Diego Pereira Lindoso, da Universidade de Brasília (UnB), comentou à RFI sobre a necessidade de sociedades resilientes aprenderem com suas próprias tragédias, destacando a importância da vontade política para que essa transformação ocorra. “Com base nesse histórico de outras tragédias, eu sou um pouco cauteloso em afirmar que vai haver um aprendizado, apesar de reconhecer que a dimensão da catástrofe do Rio Grande do Sul tem potencial para representar um ponto de inflexão”, afirmou Lindoso.

A expectativa agora é que, diante da dimensão dos desastres climáticos no Sul, a adaptação climática deixe de ser uma agenda secundária e passe a ser tratada como prioridade pelas autoridades públicas.

*Com informações CLIMA INFO

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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