Restaurar pasto degradado custa 72% menos do que abrir novas áreas na Amazônia

Além de mais rentável, restauração pode evitar desmatamento de 1 milhão de hectares por ano até 2030, mostra estudo do projeto Amazônia 2030

A crescente demanda por carne bovina e o aumento da produção no setor até 2030 poderão resultar em desmatamento de 1 milhão de hectares/ano na Amazônia, caso a pecuária não tenha ganho de produtividade ao longo da próxima década. Este cenário, no entanto, não precisa acontecer: com uma coordenação política eficiente, a região pode produzir mais sem desmatar, empregando técnicas e recursos financeiros já disponíveis, a um custo agregado até 72% menor do que o necessário para abrir novas áreas. 

As conclusões constam em nova análise produzida pelo projeto Amazônia 2030, iniciativa de pesquisadores que busca o desenvolvimento sustentável para o bioma.

De autoria do pesquisador associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) Paulo Barreto, o trabalho traz uma revisão da literatura científica para identificar mudanças públicas que possam frear o desmatamento e garantir que a pecuária na região se torne mais eficiente. 

Ao longo da próxima década, a demanda brasileira por carne bovina deve crescer entre 1,4% e 2,4%, segundo projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A partir dessas projeções, o estudo estimou que seria necessário desmatar, respectivamente, 634 mil e 1 milhão de hectares por ano entre 2020 e 2030, caso a atividade não ganhe em produtividade, com custos que variam entre R$ 950 milhões e R$ 1,63 bilhão/ano.

Atualmente, 4 de cada 10 cabeças de gado no Brasil estão na Amazônia Legal, sendo que a baixa produtividade predomina – em média, na área onde seria possível alimentar 33 animais, existem apenas 10 na Amazônia. Os pastos cobrem cerca de 90% das áreas desmatadas no bioma.

mapa Pastos cobriam cerca de 90 da parea desmatada no bioma Amazonia em 2019 Fonte Rodney Salomao Mapbiomas
Pastos cobriam cerca de 90% da área desmatada no bioma Amazônia em 2019. Fonte:Rodney Salomão/Mapbiomas

Alternativas mais rentáveis e sustentáveis

Segundo o documento, para atender a demanda por meio de ganho de produtividade, sem desmatar novas áreas, seria necessário reformar 170 mil e 290 mil hectares de pasto degradado por ano até 2030, considerando as taxas de crescimento projetadas pelo MAPA (1,4% e 2,4%). Isso equivaleria a reformar somente entre 0,37% e 0,64% da área de pasto existente no bioma, com custo entre R$ 270 milhões e R$ 873 milhões. 

Ou seja, o valor da reforma da pastagem chega a ser 72% menor do que o custo de abertura de novas áreas através do desmatamento (R$ 270 milhões/ano contra R$ 950 milhões/ano, no cenário de crescimento mais conservador).

O documento leva em conta o custo agregado de toda área, considerando todos os gastos com investimentos que devem ser feitos por pecuaristas na abertura de novas terras e o ganho de produtividade da reforma de pastos, que passaria dos atuais 80kg por hectare para 300kg por hectare. “É necessário desmatar mais para produzir o mesmo que será produzido na área reformada”, explica Paulo Barreto.

Grafico evolucao pecuaria

Os números apresentados pelo pesquisador do Imazon não são apenas hipotéticos. Ainda que não seja uma prática disseminada no bioma, a recuperação de pastagem e aumento de produtividade é realidade para alguns produtores da Amazônia.

Este é o caso de Mauro Lúcio Costa, pecuarista no município de Paragominas, no Pará, cuja propriedade, de grande porte, consegue até 10 vezes a média nacional de produção de carne. 

“Eu, que lido na prática diariamente com essa questão, a cada dia tenho mais certeza de que a melhoria do processo produtivo é viável e é a única saída para o futuro da pecuária”, disse, a ((o))eco.

Quando considerado somente o custo de derrubada da vegetação e plantio de pasto, de fato, o desmatamento é mais atrativo: R$ 1,5 mil por hectare, contra R$ 3 mil/ha para recuperação da pastagem. A conta, no entanto, não leva em consideração o custo global da atividade, muito menos o custo ambiental associado.

“Embora seja viável tecnicamente e financeiramente produzir sem desmatar, não há garantia de que esta alternativa prevalecerá. […] os incentivos à destruição da floresta e as barreiras à adoção das melhores práticas podem tornar a opção do desmatamento ainda sim vantajosa para o indivíduo”, diz trecho do documento.

Demanda por area Desmatamento X Reforma de pasto

Estudo Barreto
Infogram

Entraves à implantação da pecuária intensiva

As barreiras para a adoção de melhores práticas fazem parte de um conjunto de “incentivos perversos” que desestimulam avanços técnicos, diz o estudo: há muita terra barata disponível, mão-de-obra pouco qualificada e infraestrutura precária.

Outro trabalho recente sobre regularização fundiária na Amazônia, também do Imazon, estimou que existam aproximadamente 144 milhões de hectares de terras – 28% do território – não destinadas ou sem informação de destinação no bioma. A promessa do governo de legalizar ocupações irregulares, as constantes mudanças na lei beneficiando a grilagem e os irrisórios valores de terra incentivam mais invasões. 

Em Roraima, por exemplo, o hectare de terra (10 mil m²) sai por R$ 73. No Tocantins, o preço cobrado para regularizar uma terra pública invadida chega a ser de apenas R$ 3,50.

“As pessoas trabalham demais em cima de especulação. Eles colocam a bandeira que abrir novas áreas é para produzir, mas não é, desmata para especular, então, aumentar o tamanho da terra é primordial. Poucas são aquelas que querem ter um aumento de produtividade”, diz o pecuarista Mauro Lúcio Costa.

O enfraquecimento do imposto contra a especulação fundiária, déficit de infraestrutura rural, déficit educacional, de assistência técnica e de capital social também estão na lista dos “incentivos perversos” que desestimulam a melhoria de produtividade, segundo o trabalho de Barreto.

“No estudo olhei dados pra entender quais os fatores que levam os produtores a adotarem tecnologia para aumento de produtividade, porque no Brasil tem a conversa de que, se tem crédito e assistência técnica, está resolvido o problema. Mas a experiência global mostra que tem vários outros fatores, como capital social, cooperativas, nível de educação. Na Amazônia tem um oceano de baixa produtividade e escassez desses fatores. E quando olha para outras regiões onde a produtividade é maior, tais fatores são melhores”, explica Barreto.

Crédito disponível para melhorias

A falha na regularização fundiária é outro fator importante para a pecuária de baixa produtividade na Amazônia. “Não vou investir em casa alugada”, disse um fazendeiro de São Felix do Xingu ao se referir ao fato de que não possui o título da terra, por isso não faria investimentos nela.

Mas a falta de interesse é só um aspecto da questão: quando não há documentos, também não é possível adquirir créditos. “Enquanto você não tem título, não tem crédito e o produtor entra num ciclo que não consegue sair: a pessoa não consegue aumentar a produtividade porque não tem crédito e não tem crédito porque não tem documentos suficientes da área. É preciso avançar com a regularização fundiária, sem que isso signifique desrespeitar o que está estabelecido no Código Florestal”, diz Jordan Timo Carvalho, pecuarista em Redenção, também no Pará.

Ter crédito é importante devido aos altos custos da transferência de uma pecuária extensiva para intensiva, de alta produtividade, explica Carvalho. “O mais barato, que ainda sim é caro, é o preparo do solo, com correção, adubação e semeio. Depois tem a divisão da pastagem, a questão das cercas, da água, mas o mais caro do processo são os animais. Quando você tem uma taxa de lotação de um animal por hectare e passa para três, você precisa comprar duas vezes mais animais do que você tem ali”, explica.

A boa notícia, segundo o estudo de Barreto, é que já existe crédito para recuperação das pastagens degradadas. Para produzir sem desmatar, o pesquisador estima que os produtores da Amazônia Legal precisariam de um valor que pode variar entre 3% e 9,5% do crédito rural contratado para a região em 2020, que chegou a R$ 9,15 bilhões.

São empréstimos feitos pelos produtores rurais e que, hoje, são principalmente empregados na compra de novos animais, mas que podem se redirecionados para a recuperação de pastagens. “Os bancos continuam investindo em pouca produtividade, estamos financiando uma pecuária que não é eficiente”, diz Barreto.

Recomendações

Para mudar o atual status da pecuária na Amazônia, o estudo recomenda que o poder público induza o uso mais produtivo das terras, desestimulando a expansão de fronteiras agrícolas especulativas e ineficientes, e trabalhando para fornecer os serviços e a infraestrutura que vão facilitar os investimentos nas áreas já desmatadas. 

Barreto recomenda atuar, simultaneamente, em duas frentes: 1) Combate ao desmatamento e especulação fundiária e 2) Facilitação do uso mais produtivo da terra, por meio do treinamento e assistência continuados, oferecendo crédito rural focado em ganhos de produtividade, além da instalação de infraestrutura e serviços necessários nas diferentes regiões.

“Idealmente, o governo deveria agir nos dois lados ao mesmo tempo. Mas, se fosse fazer uma coisa só, eu diria que é preciso controlar o desmatamento, porque isso força o setor privado a adotar melhores práticas e a usar melhor as áreas que já estão desmatadas. A gente viu que isso aconteceu no passado e dá para repetir esse modelo. Agora, dado o cenário de baixíssima governança pública atualmente, os estados e setor privado têm um papel enorme e precisam começar a agir”, diz Barreto.

Fonte: O Eco

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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