“Relatos do Curupira: Quem não respeita a terra que pisa, se perde no caminho”
Eu, Curupira, senhor dos atalhos, fiscal dos caminhos tortos e defensor dos que aqui pertencem, ouvi a frase do chanceler alemão e senti um cheiro velho de fumaça histórica — não do nosso fogo, mas do fogo que já queimou a humanidade inteira quando certos povos decidiram que eram melhores, mais limpos, mais frios, mais civilizados do que os outros.
“Ninguém ficaria mais um dia em Belém, naquela cidade”.
Pois fique sabendo, senhor chanceler, que a floresta tem memória longa, muito mais longa do que os ciclos políticos que produzem gafes diplomáticas. E quando você fala daquela cidade, o eco dessa arrogância bate nos troncos centenários, recua sobre as águas do Guamá e volta em sua direção com o peso de uma história que o seu próprio país nunca pôde esquecer.
Porque a sua frase, cheia de riso fácil e menosprezo colonial, não foi apenas deselegante. Foi preconceituosa, desonesta e carregada de um ranço histórico perigoso — o tipo de sombra que a Alemanha, com tantos anos de reconstrução ética e democrática, se esforçou para não permitir que retornasse.
E, no entanto, retornou. Pela sua boca.
Remanescências de uma arrogância racial
Quando um chanceler da Alemanha — justamente da Alemanha — se permite zombar do calor da Amazônia, do povo de Belém, da hospitalidade paraense e brasileira, o que se escuta, no fundo, é o eco do velho continente que ainda insiste em se achar medida moral do mundo.
E, sim, chanceler, lembre-se: foi desse mesmo continente que brotou a teoria da supremacia ariana, aquela que empurrou a humanidade para o abismo da barbárie. A sua frase — ainda que dita com o riso frouxo de quem acha graça na própria grosseria — carrega o mesmo cheiro do passado que a Alemanha jura ter superado.
Intolerância travestida de comentário leve
Você poderia, se quisesse, criticar a logística. Poderia falar da infraestrutura. Poderia comentar sobre a organização. Isso é do jogo. É diplomacia. Mas não: preferiu debochar do lugar e das pessoas.
E o pior: não se tratou de crítica técnica. Foi desprezo. E desprezo, em diplomacia, diz tudo.
Por isso, aqui da beira da mata, com meus pés virados e minhas trilhas invertidas, digo o seguinte:
— Chanceler, quem tem saudade de um passado que massacrou povos inteiros deveria medir melhor as palavras quando pisa em terras que sobreviveram a séculos de violência colonial.
A reação amazônica: dignidade onde faltou vergonha
O Itamaraty foi elegante demais. Os prefeitos de Belém e o governador do Pará foram firmes, diretos e dignos. Helder Barbalho devolveu com ironia o tom da agressão:
“Curioso ver quem ajudou a aquecer o planeta estranhar o calor da Amazônia.”
E o povo?
O povo reagiu como sempre: com honra, com orgulho e com alegria — coisas que a arrogância não entende. Enquanto isso, nos corredores da COP, jornalistas do mundo inteiro se perguntavam, quase em choque:
“Será que a frase é real? Será que foi mesmo ele? Será que é possível alguém dizer isso aqui?”
Foi. Você disse.
E Belém não vai esquecer.
A bomba diplomática no meio da COP
No exato momento em que o mundo debatia clima, justiça ambiental e transição energética, você resolveu dar ao planeta uma amostra de supremacismo tropicalizado. E Belém explodiu em indignação. E o Brasil esperou — e ainda espera — um pedido de desculpas.
Não um recuo burocrático. Não uma frase montada por assessores. Mas um reconhecimento verdadeiro de que você envergonhou o cargo, o país e o esforço internacional por justiça climática.
O Curupira encerra
Chanceler, na floresta a gente aprende cedo: Quem não respeita a terra que pisa, se perde no caminho.
E eu, Curupira, garanto: se você continuar trilhando a trilha do deboche colonial, vou virar seus passos para trás, como faço com aqueles que tentam enganar a floresta.
Porque aqui, na Amazônia, — a gente não tolera preconceito, — não aceita arrogância, — não abaixa a cabeça para ninguém.
E se quiser entender por que o povo alemão — esse sim, diverso, respeitador, sensível — é tão bem recebido nas ruas de Belém, talvez você precise aprender que:
Alegria é grandeza. Hospitalidade é força. E a Amazônia é muito maior que a insensatez de sua piada.