Relato do Curupira — Quando o Relógio Para e a História Acelera

“Relato do Curupira – não existe mais tempo para adiar. O sofrimento é agora. A resposta precisa ser agora

Aqui quem fala é o Curupira, guardião das trilhas e dos enganos. Nas COPs, como nas matas profundas, há momentos em que o relógio para e o mundo corre. Há instantes em que tudo parece quieto, mas a seiva da história está se movendo por dentro das negociações. Em Belém, esta semana foi assim.

Cada país chega com suas NDCs, as metas nacionais de redução de emissões — compromissos que deveriam ser tão sagrados quanto o ciclo da chuva, mas que muitas vezes tremem diante da pressão política. Eram vinte, hoje são muitas mais, espalhadas como galhos de uma mesma árvore tentando alcançar a luz.

Enquanto essas metas estão sobre a mesa, cem outros assuntos se dividem em grupos, subgrupos, G100, G4 e até grupos que surgem como folhas novas, respondendo ao que aparece de surpresa — como a discussão emergente sobre abandonar os combustíveis fósseis.

E como um Curupira inquieto, caminho pelos corredores ao contrário, ouvindo as conversas que não estão nos microfones. Vejo os negociadores correrem como cutias assustadas, tentando construir consensos sem perder a própria trilha.

relato do curupira
Organizações temem que conferência de Belém repita os fracassos observados na COP29 (Bárbara Cruz | Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR | Composição: Paulo Dutra)

Há poucos dias, ninguém falava oficialmente em eliminar combustíveis fósseis. O assunto era tratado como quem evita olhar para a onça no escuro.

Mas a diplomacia brasileira, astuta como cobra d’água, abriu caminho. Depois da fala do presidente Lula, o tema saltou para a mesa de negociações — não como nota de rodapé, mas como esperança global.

Fontes confiáveis confirmam:

O dia começou com um ritual que eu conheço bem no meio do mato: tocar o coração antes de tocar a mente. Imagens de Sebastião Salgado dançando na tela, acompanhadas por Vila-Lobos, a Bachiana 35, como se a floresta estivesse cantando no ouvido de cada negociador.

Depois veio trovão da realidade: metas duras, claras, urgentes.

Palavras que tentam ser tão firmes quanto raiz de seringueira.

Uma fala mais poderosa que não veio dos governos. Veio da floresta em pessoa

Cacique Raoni, carregando nos ombros séculos de autoridade, subiu à plenária dos povos no sábado e disse o que ninguém mais poderia dizer com tanta verdade:

A intervenção de Raoni ecoou como pássaro de mau presságio para quem pretendia empurrar decisões para depois de 2030.
E como canto de esperança para quem sabe que o planeta é finito.

Ele pediu que Belém deixe de ser apenas sede — e se torne marco. Que a COP 30 saia com um passo a passo real, verificável, inevitável, rumo ao fim dos combustíveis fósseis.

Nos corredores, diplomatas comentaram: “Depois dessa fala, ninguém consegue defender atraso.”

O movimento brasileiro ganhou força. Belém começou a ser vista não como paisagem exótica, mas como marco político.
A floresta não pede licença: ela exige futuro.

E eu, Curupira, que cuido dos caminhos tortuosos, posso garantir: há dias em que a história corre mais depressa do que as pernas dos homens. Hoje foi um desses dias.

Belém tem que entregar o mapa. E a floresta já disse qual é o caminho

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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