“Relato do Curupira – não existe mais tempo para adiar. O sofrimento é agora. A resposta precisa ser agora“
Aqui quem fala é o Curupira, guardião das trilhas e dos enganos. Nas COPs, como nas matas profundas, há momentos em que o relógio para e o mundo corre. Há instantes em que tudo parece quieto, mas a seiva da história está se movendo por dentro das negociações. Em Belém, esta semana foi assim.
NDCs: as promessas dos povos
Cada país chega com suas NDCs, as metas nacionais de redução de emissões — compromissos que deveriam ser tão sagrados quanto o ciclo da chuva, mas que muitas vezes tremem diante da pressão política. Eram vinte, hoje são muitas mais, espalhadas como galhos de uma mesma árvore tentando alcançar a luz.
Enquanto essas metas estão sobre a mesa, cem outros assuntos se dividem em grupos, subgrupos, G100, G4 e até grupos que surgem como folhas novas, respondendo ao que aparece de surpresa — como a discussão emergente sobre abandonar os combustíveis fósseis.
E como um Curupira inquieto, caminho pelos corredores ao contrário, ouvindo as conversas que não estão nos microfones. Vejo os negociadores correrem como cutias assustadas, tentando construir consensos sem perder a própria trilha.
O que não estava na mesa — e entrou
Há poucos dias, ninguém falava oficialmente em eliminar combustíveis fósseis. O assunto era tratado como quem evita olhar para a onça no escuro.
Mas a diplomacia brasileira, astuta como cobra d’água, abriu caminho. Depois da fala do presidente Lula, o tema saltou para a mesa de negociações — não como nota de rodapé, mas como esperança global.
Fontes confiáveis confirmam:
Reino Unido, Alemanha, França e outros países já declararam apoio a que Belém produza um mandato internacional para construir o roteiro de substituição dos fósseis. Um mapa. Um calendário. Um início imediato — não daqui a décadas.
Para embalar emoções
O dia começou com um ritual que eu conheço bem no meio do mato: tocar o coração antes de tocar a mente. Imagens de Sebastião Salgado dançando na tela, acompanhadas por Vila-Lobos, a Bachiana 35, como se a floresta estivesse cantando no ouvido de cada negociador.
Depois veio trovão da realidade: metas duras, claras, urgentes.
• quadruplicar combustíveis sustentáveis até 2035;
• triplicar energia renovável até 2030;
• dobrar eficiência energética;
• zerar o desmatamento;
• e iniciar a saída progressiva dos combustíveis fósseis.
Palavras que tentam ser tão firmes quanto raiz de seringueira.
E a floresta já havia através da sabedoria — Raoni
Uma fala mais poderosa que não veio dos governos. Veio da floresta em pessoa
Cacique Raoni, carregando nos ombros séculos de autoridade, subiu à plenária dos povos no sábado e disse o que ninguém mais poderia dizer com tanta verdade:
não existe mais tempo para adiar. O sofrimento é agora. A resposta precisa ser agora.
A intervenção de Raoni ecoou como pássaro de mau presságio para quem pretendia empurrar decisões para depois de 2030.
E como canto de esperança para quem sabe que o planeta é finito.
Ele pediu que Belém deixe de ser apenas sede — e se torne marco. Que a COP 30 saia com um passo a passo real, verificável, inevitável, rumo ao fim dos combustíveis fósseis.
Nos corredores, diplomatas comentaram: “Depois dessa fala, ninguém consegue defender atraso.”
O Brasil empurra o mundo — e o mundo sente
O movimento brasileiro ganhou força. Belém começou a ser vista não como paisagem exótica, mas como marco político.
A floresta não pede licença: ela exige futuro.
E eu, Curupira, que cuido dos caminhos tortuosos, posso garantir: há dias em que a história corre mais depressa do que as pernas dos homens. Hoje foi um desses dias.
Belém tem que entregar o mapa. E a floresta já disse qual é o caminho

