Rede Castanha, um caminho

Sua majestade, a excelsa e preciosa castanha do Pará, da Amazônia ou do Brasil, um legado dos povos indígenas para a Humanidade, é um desafio para a Ciência com um amontoado de oportunidades para empreender com sustentabilidade na perspectiva amazônica da prosperidade social.  A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma árvore nativa da Amazônia Continental, cuja proliferação por alguns sítios – em vez de endemia natural como muitos descreviam – resulta de uma agricultura tropical milenar dos povos indígenas,  de acordo com o pesquisador Charles Clement, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que já usufruíam seus benefícios há 10 mil anos e conheciam as vantagens de seu cultivo. Há milhares de pesquisas a respeito de suas propriedades e utilizações, assim como outros tantos carecem ser aprofundados para compartilhar os inúmeros ganhos com seu manejo e propagação. Foi nesse contexto que foi criada, no âmbito estadual,de Ciência, Tecnologia e Inovação, sob a batuta de Estevao Monteiro de Paula,  a Rede Castanha, um programa interdisciplinar e interinstitucional, que reune nesta semana duas dezenas de pesquisadores, na sequência dos Debates Produtivos, promovidos por Afeam, Cieam,  Fieam e Faea, para aprofundar, integrar e gerar novas oportunidades econômicas a partir do conhecimento da castanha em quatro eixos: Química  e Bioquímica; Manejo, Ecologia e Genética; Tecnologia, Processamento e Industrialização; Economia e Novos Negócios. Na II Guerra Mundial, quando Washington, alegando esforço de guerra, impôs que os navios saíssem da Amazônia carregando apenas borracha, os pioneiros da economia regional, conta Moyses Israel, promoveram um bafafá diplomático. Afinal, os consumidores americanos e europeus já estavam seduzidos pela excelsa iguaria, para consumo natural, pães  e tortas. Hoje, a Ciência, a Tecnologia e a Inovação se curvam diante de suas promessas e prometem multiplicar ao infinito seus benefícios.

Desarticulados, muitas vezes, os pesquisadores das propriedades cosméticas não conhecem a febre entre os produtores de cachaça, vinho ou conhaque, pelos apreciadores destes produtos quando envelhecidos ou fermentados em  toneis de castanheira, ou saborizados com os extratos de seu néctar. Poucos sabem da prospecção química e isolamento de princípios antimaláricos a partir de resíduos provenientes de processos industriais  de beneficiamento da castanha-do-Brasil. O ultimo prêmio Jovem Cientista foi entregue a pesquisadora Barbara Cardoso, que estudou por 9 anos a relação entre o consumo diario de castanhas e deficit cognitivo, entre eles, o mais aterrador, o Alzheimer. Sob a orientação de Silvia Cozzolino, titular de Nutrição da Faculdade de Farmácia da USP, ja integrada na Rede Castanha, a etapa seguinte é avançar nos estudos conjuntos com o Inpa e Ufam, entre outros, que relacionam o selênio da  castanha com tratamento auxiliar de obesidade, diabetes e algumas patologias renais. Seus nutrientes, objetos de estudos interdisciplinares há dezenas de anos, terão seus benefícios transformados em oportunidades em rede de informação e fomento para diversificar a economia e estimular a inovação. De quebra, o melhoramento vegetal, os serviços ambientais, a oferta de mudas e sementes, a cultura de tecido vegetal, o mapeamento das ocorrências (biogeografia), os bancos de germoplasma, o manejo dos castanhais para produção de frutos e madeira, equilíbrio climático e oferta de novas oportunidades que demonstrem a viabilidade da economia com a ecologia, no processamento e industrialização das castanha, processamento do óleo, das cascas e outros resíduos, para a cosmética, a nutracêutica, a fitoterapia, enfim, os novos espaços e promessas da Biotecnologia. Para quem reclamava da falta de escala para os produtos da Amazônia, o plantio de 1,5 milhão de castanheiras, na Fazenda Aruanã, em Itacoatiara, da Família  Vergueiro, é um padrão promissor para as áreas degradadas. A Rede vai juntar, debater e partilhar tudo isso, em conjunto com a Uea, Inpa, Ufam, Embrapa, Fucapi, Cba, Usp, e quem se achegar para estudar as distorções ecológicas, e diversificar as vocações econômicas, em nome do clima e da promoção das pessoas. Mãos à obra!

alfredo.lopes@uol.com.br
Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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