Ardor e sabor das pimentas da Amazônia: o que a ciência diz sobre seus benefícios e riscos

“Pimentas da Amazônia: o que a ciência diz sobre benefícios e riscos à saúde — e como escolher, usar e exagerar menos na cozinha”

Leia as anotações de Alfredo Lopes

Se no debate de saúde a pimenta costuma aparecer como “capsaicina e metabolismo”, na Amazônia ela aparece como mapa cultural. A floresta e seus rios formam um corredor de circulação de variedades de Capsicum (pimentas) — e também de saberes: roças, quintais, feiras, cozinhas indígenas e urbanas, além de cadeias produtivas locais.

A ciência tem ajudado a revelar algo que os cozinheiros amazônicos já sabem: há grande diversidade genética em pimentas amazônicas, com variedades crioulas e ecótipos associados a territórios específicos — e, ao mesmo tempo, riscos de erosão dessa diversidade quando roças são abandonadas ou substituídas por outras culturas.  

O risco mais frequente não é “misterioso”: é ardor, dor epigástrica, azia e refluxo — especialmente com doses altas, sensibilidade individual ou condições como DRGE/NERD.  

“Muita pimenta faz mal”: agências sanitárias tratam como risco em altas doses

Um parecer do órgão alemão de avaliação de risco (BfR) descreve efeitos adversos principalmente gastrointestinais e também sintomas sistêmicos (tontura, alterações de pressão) em ingestões elevadas de capsaicina, ainda que a dose exata varie muito entre indivíduos.  

Há meta-análises com conclusões que variam por desenho de estudo e região. Uma linha recorrente é a hipótese de efeito diferente conforme o nível de consumo (moderado vs muito alto) e fatores associados (padrão alimentar, conservação de alimentos, álcool, tabaco, H. pylori etc.).  

A piperina (da pimenta-do-reino) pode inibir enzimas/transportadores envolvidos no metabolismo de fármacos (ex.: CYP3A4 e P-gp), levantando preocupação com interações, sobretudo com extratos/suplementos concentrados (não é o mesmo que “um pouco no prato”). 

  • Pessoas com refluxo/azia frequentes, gastrite sintomática, NERD/DRGE, ou intestino muito sensível (alguns casos de IBS) — a pimenta pode piorar sintomas.  
  • Quem usa muitos medicamentos e está pensando em extratos/suplementos de pimenta-do-reino/piperina (aqui vale sugerir conversa com médico/farmacêutico).  
  • Em geral: dose e contexto importam. A mesma substância que pode ter efeitos fisiológicos interessantes também pode ser, para muitos, só desconforto.
pimentas da amazonia
Foto: Adobe Stock
  • Comece com microdoses e aumente devagar.
  • Para reduzir ardência: retire placenta interna (onde há mais capsaicina), use junto com gordura (azeite/coco), e finalize com acidez (limão/vinagre) para equilibrar.
  • Se a pessoa exagerou: água piora; laticínios e alimentos com gordura tendem a aliviar a sensação.

Apesar do ardor e da piora de sintomas em parte das pessoas, existe literatura experimental e clínica sugerindo que a capsaicina pode induzir mecanismos gastroprotetores em determinadas condições e doses — sem virar passe livre para quem tem refluxo ativo. 

Meta-análises com capsaicina/capsinoides sugerem aumento modesto de marcadores ligados a termogênese (como gasto energético/oxidação de gordura). Não é “atalho” de emagrecimento — pode ser um empurrão discreto, não um motor.  

Uma revisão sistemática de ensaios clínicos em adultos com sobrepeso/obesidade conclui que os estudos são heterogêneos e o efeito, quando aparece, tende a ser pequeno e dependente de dose/duração.  

Há revisão sistemática focada em pessoas com síndrome metabólica avaliando capsaicina versus placebo, indicando possível melhora em lipídios, mas com base em poucos ensaios e amostras relativamente pequenas. É promissor, não definitivo.  

Em coorte gigante na China, comer comida apimentada com mais frequência apareceu associado a menor mortalidade total e por algumas causas, após ajustes estatísticos. Isso não prova que pimenta “faz viver mais” (pode haver confusão por estilo de vida, padrão alimentar etc.), mas é uma descoberta consistente o bastante para adotar o consumo com o devido cuidado.  

Uma meta-análise de estudos observacionais também encontrou associação com menor mortalidade (total e cardiovascular), mas ressalta que ainda é difícil orientar “dose ideal”.  

Quando se juntam ensaios clínicos controlados, a suplementação com capsaicina/capsinoides tende a mostrar pouco ou nenhum efeito consistente em glicemia/insulina, tanto no curto quanto no longo prazo.  

Fora da cozinha: capsaicina em altas concentrações (adesivo/patch) tem evidência em dor neuropática crônica, com benefício que pode durar semanas, embora cause ardor local e precise de aplicação controlada.  

Apesar do ardor e da piora de sintomas em parte das pessoas, existe literatura experimental e clínica sugerindo que a capsaicina pode induzir mecanismos gastroprotetores em determinadas condições e doses — sem virar passe livre para quem tem refluxo ativo. 

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Pimenta Murupi – SEMMA

O risco mais frequente não é “misterioso”: é ardor, dor epigástrica, azia e refluxo — especialmente com doses altas, sensibilidade individual ou condições como DRGE/NERD.  

Um parecer do órgão alemão de avaliação de risco (BfR) descreve efeitos adversos principalmente gastrointestinais e também sintomas sistêmicos (tontura, alterações de pressão) em ingestões elevadas de capsaicina, ainda que a dose exata varie muito entre indivíduos.  

Há meta-análises com conclusões que variam por desenho de estudo e região. Uma linha recorrente é a hipótese de efeito diferente conforme o nível de consumo (moderado vs muito alto) e fatores associados (padrão alimentar, conservação de alimentos, álcool, tabaco, H. pylori etc.).  

A piperina (da pimenta-do-reino) pode inibir enzimas/transportadores envolvidos no metabolismo de fármacos (ex.: CYP3A4 e P-gp), levantando preocupação com interações, sobretudo com extratos/suplementos concentrados (não é o mesmo que “um pouco no prato”).  

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Papryka peruwiańska pikantna „Aji Charapita”




  • Pessoas com refluxo/azia frequentes, gastrite sintomática, NERD/DRGE, ou intestino muito sensível (alguns casos de IBS) — a pimenta pode piorar sintomas.  
  • Quem usa muitos medicamentos e está pensando em extratos/suplementos de pimenta-do-reino/piperina (aqui vale sugerir conversa com médico/farmacêutico).  
  • Em geral: dose e contexto importam. A mesma substância que pode ter efeitos fisiológicos interessantes também pode ser, para muitos, só desconforto.

  • Comece com microdoses e aumente devagar.
  • Para reduzir ardência: retire placenta interna (onde há mais capsaicina), use junto com gordura (azeite/coco), e finalize com acidez (limão/vinagre) para equilibrar.
  • Se a pessoa exagerou: água piora; laticínios e alimentos com gordura tendem a aliviar a sensação.
    Um olhar da pimenta a partir da Amazônia

Mas há um ponto que as listas de benefícios quase nunca enxergam: a pimenta não é só substância ativa — é território. Na Amazônia, ela não se resume à capsaicina e às promessas de metabolismo; ela aparece como memória culinária, cadeia produtiva, patrimônio biocultural e biodiversidade cultivada. 

Olhar para a pimenta “a partir da Amazônia” é trocar o foco: do suplemento para a roça, do efeito imediato para o ecossistema social que sustenta esse alimento.

Se no debate de saúde a pimenta costuma aparecer como “capsaicina e metabolismo”, na Amazônia ela aparece como mapa cultural. A floresta e seus rios formam um corredor de circulação de variedades de Capsicum (pimentas) — e também de saberes: roças, quintais, feiras, cozinhas indígenas e urbanas, além de cadeias produtivas locais.

A ciência tem ajudado a revelar algo que os cozinheiros amazônicos já sabem: há grande diversidade genética em pimentas amazônicas, com variedades crioulas e ecótipos associados a territórios específicos — e, ao mesmo tempo, riscos de erosão dessa diversidade quando roças são abandonadas ou substituídas por outras culturas.  

Ají charapita – Amazônia peruana

Na Amazônia peruana, o ají charapita é frequentemente descrito como um recurso genético valioso, com alto picor e aroma, além de crescente demanda em mercados locais e nacionais — tanto que já existem estudos comparando ecótipos para identificar melhor desempenho agronômico.  

  • Aji charapita é uma pimenta amazônica de alta pungência e aroma, com diversidade intra-varietal estudada por instituições e repositórios acadêmicos no Peru.  
  • Alguns trabalhos tratam charapita como Capsicum chinense e outros como Capsicum frutescens; na prática, o nome popular “charapita” é o que organiza mercado e cultura culinária — e a pesquisa agronômica trabalha com esse recorte local. 
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Na Colômbia, a pimenta entra como tema de pesquisa aplicada: há trabalhos avaliando produção de acessos de “ají amazónico” a partir do banco ex situ do Instituto SINCHI, com implantação em parcelas de produtores na região amazônica. Ou seja: é biodiversidade tratada como patrimônio vivo, que precisa produzir renda sem perder a origem.  

 “A Amazônia não é só repositório genético — é laboratório social: ciência + roça + mercado local.”

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Ají dulce (Capsicum chinense) e a cozinha venezuelana

Na Venezuela amazônica e no país como um todo, essa espécie introduz um contraponto: o ají dulce é um tipo de Capsicum chinense pouco pungente, descrito em estudos como elemento definidor do sabor de preparações venezuelanas; há inclusive caracterização fenotípica de cultivares locais (como Rosita, Pepón e Llanero). A doçura é maior e a ardência é discreta. 

  • Aji Dulce prova que “pimenta” na Amazônia continental não é sinônimo de sofrimento no uso exagerado: pode ser aroma, doçura e complexidade, com baixo ardor.
  • Além da suavidade adocicada, a Aji Dulce confere à culinária amazônica de origem venezuelana um sabor indescritível e ao mesmo tempo inesquecível. Dos pratos populares à dieta sofisticada sua aplicação acentua os sabores sem eliminar sua identidade e agrada ao paladar. 

Jiquitaia Baniwa (Brasil–Colômbia–Venezuela)

A pimenta jiquitaia Baniwa (mistura de pimentas secas/moídas com sal) é produzida por povos do Rio Negro e tem destaque no trabalho e na economia das mulheres Baniwa. Ela integra o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural (IPHAN, 2010), e o próprio povo Baniwa se distribui pelo noroeste amazônico, atravessando Brasil, Colômbia e Venezuela.  

  • “Não é ‘um tipo’ de pimenta: é um blend, uma assinatura de território.”
  • “Não é só tempero: é cadeia de valor baseada em agrobiodiversidade e conhecimento tradicional.” A mística Baniwa se revela na culinária básica e continental da mandioca, o tubérculo que sustenta a civilização amazônica.

O blend Baniwa ganhou penetração crescente por sua firmeza de ardência e respeito aos sabores dos ingredientes amazônicos. Os Baniwa são responsáveis por parte significativa da cultura dos principais fungos da região.  Na dieta amazônica, 37 espécies de fungos nutricionais são conhecidas, como a Lentinula raphanica, com alto teor nutricional e potencial gastronômico. Os estudos do INPA focam na valorização dos sabores e na segurança alimentar. E é impossível excluir, nesse contexto, o papel exercido pela pimenta.

Na Amazônia funciona como uma “biblioteca” de pimentas, nas pesquisas e nos estudos da gastronomia:

  • pimentas muito pungentes e aromáticas (ex.: murupi e charapita, em diferentes áreas amazônicas);  
  • pimentas de baixo ardor e alto perfume (ex.: ají dulce, murupi);  
  • pimentas transformadas em produtos culturais e econômicos (ex.: jiquitaia).  

E conservar essa diversidade exige manter roças e quintais vivos, porque há risco de perda/“deriva genética” quando variedades crioulas são substituídas ou abandonadas.  


Ají dulce: base de refogados e caldos — entra cedo na panela para soltar aroma (quase sem ardência).  

Charapita: finalização “pontual” (pouca quantidade) para levantar fruta/ácido e picância em molhos e marinadas.  

Jiquitaia: “sal de pimenta” para finalizar peixe, carne e legumes; dose mínima, impacto alto.  

No fim, a pergunta “pimenta faz bem?” fica mais correta quando vira duas: faz bem para quem — e em que contexto? A ciência sugere efeitos possíveis, em geral modestos, ligados a compostos como a capsaicina; mas a experiência cotidiana lembra que a mesma pimenta que pode ser aliada do paladar e do prazer também pode piorar refluxo e irritação em pessoas sensíveis. E, quando o olhar parte da Amazônia, a resposta ganha outra camada: pimenta é também biodiversidade cultivada, economia local e patrimônio biocultural.

O melhor uso é o mais simples: dose adequada, respeito ao corpo — e respeito ao território que transforma fruto em cultura.Então, se você tem refluxo, gastrite sintomática ou intestino muito sensível, vale testar quantidades menores (ou escolher pimentas menos picantes, mais aromáticas). E, olhando “a partir da Amazônia”, o recado fica ainda mais simples: há muitas pimentas — fortes, suaves, perfumadas, moídas como jiquitaia — e a melhor é a que você tolera bem e consegue usar com regularidade e equilíbrio.

(*) O autor é editor geral do portal BrasilAmazoniaAgora 

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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