Na copa das árvores, as onças da Amazônia não apenas se abrigam, mas também caçam, procriam e cuidam de seus filhotes
Um estudo brasileiro inédito revelou um comportamento surpreendente das onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, localizada entre os rios Solimões e Japurá, no Amazonas. Durante os períodos de cheia — que podem elevar o nível dos rios em até 10 metros e manter as florestas de várzea inundadas por cerca de quatro meses ao ano — as onças se adaptam ao ambiente alagado vivendo até quatro meses no topo de árvores.
Entre 2011 e 2020, pesquisadores do Instituto Mamirauá, liderados pelo biólogo Marcos Brito, monitoraram 14 onças utilizando colares com GPS para observar esse comportamento. A equipe descobriu que, na copa das árvores, as onças da Amazônia não apenas se abrigam, mas também caçam, procriam e cuidam de seus filhotes, demonstrando um grau de plasticidade ecológica e comportamental raríssimo entre grandes felinos.
“Quando o rio começa a encher, animais que são suas presas, como a anta ou o porco-do-mato, simplesmente saem da várzea e vão para terra firme. Era de se supor que as onças iriam atrás deles, não?”, questiona o biólogo e coautor da pesquisa, Guilherme Alvarenga. “Mas, na Reserva Mamirauá, não há essa opção, porque a área inteira é cercada por dois grandes rios. É uma cheia absurda, que chega a 16 metros em alguns pontos.”
Esforço necessário não diminui seu território
Essa adaptação das onças da Amazônia representa um esforço físico intenso. Os animais precisam saltar entre galhos, subir e descer troncos, e até mesmo nadar de árvore em árvore. Uma atividade exaustiva, especialmente em um período em que a disponibilidade de presas é mais baixa.
Inicialmente, os pesquisadores do Instituto Mamirauá acreditavam que as áreas de vida das onças diminuiriam durante as cheias, uma vez que o esforço e as restrições ambientais fariam com que os animais limitassem seus deslocamentos. No entanto, os dados coletados ao longo de monitoramentos de até 538 dias consecutivos revelaram uma variação territorial entre 50 e 373,6 km², dependendo do indivíduo.
Assim, o cenário foi o oposto do esperado: a sazonalidade das cheias não foi um fator determinante para a variação no tamanho desses territórios. Em alguns casos, as áreas de vida até se expandiram durante o período de inundação, indicando que esses felinos são ainda mais resilientes e adaptáveis do que se imaginava, explorando o ecossistema de forma eficiente mesmo sob condições adversas.
“A reserva tem muitos macacos, muitas preguiças. Nossa hipótese é que a onça passa a ficar de tocaia, aguardando alguma presa para capturá-la, em vez de caçá-las ativamente, justamente como modo de conter esforços”
Marcos Brito, líder da pesquisa, em relação à alimentação das onças nesse período.
Importância do conhecimento tradicional
A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, criada em 1990 no coração da Amazônia, é um modelo de conservação que alia proteção ambiental com presença humana. A reserva abriga 6.642 pessoas, sendo 4.831 no entorno e 1.811 no interior, entre ribeirinhos, agricultores e extrativistas.
Desde os primeiros anos, o conhecimento tradicional das comunidades locais foi essencial para orientar as pesquisas científicas. Foram os próprios comunitários que, pela primeira vez, alertaram os pesquisadores de que as onças-pintadas permaneciam nas copas das árvores durante as cheias.