Estudo aponta que monoculturas fazem solo perder até 3x mais carbono do que queimadas

Áreas de monoculturas por mais de 10 anos perdem em média 38% de seu estoque de carbono, o que reforça a importância da conservação do solo e estratégias sustentáveis de agricultura

Uma pesquisa internacional conduzida por instituições do Brasil, Reino Unido e Estados Unidos revelou que monoculturas causam uma perda de carbono no solo até três vezes maior do que a observada queimadas. Os resultados, repercutidos nesta terça (15), Dia da Conservação do Solo, mostram que solos cultivados com uma única cultura por mais de 10 anos perdem em média 38% de seu estoque de carbono. Em comparação, áreas de floresta expostas a queimadas apresentam perdas menores: 16% em solos queimados anualmente e 19% em áreas atingidas por incêndios a cada três anos.

O estudo foi publicado na revista científica Catena e envolveu pesquisadores da USP, da Universidade Estadual do Mato Grosso, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), da Universidade de Exeter e da Universidade de Yale.

Estrada divide monocultura de soja e Cerrado.
Estrada divide monocultura de soja e Cerrado | Foto – ADRIANO GAMBARINI (WWF BRASIL)

Mesmo em florestas queimadas anualmente, a saúde do solo é superior àquela encontrada em áreas de monocultura, segundo os pesquisadores.

Reduzir perda de carbono é benéfico para fertilidade

O estudo também revelou uma ligação direta entre o aumento do estoque de carbono e a maior fertilidade do solo.

Nas lavouras, os solos de monocultura estavam mais compactados, com menor teor de nitrogênio e matéria orgânica, fatores que comprometem a capacidade de retenção de nutrientes e dificultam o desenvolvimento das plantas — o que, por sua vez, aumenta a dependência de fertilizantes químicos.

Para chegar a essas conclusões, os cientistas analisaram quatro diferentes áreas na Estação de Pesquisa Tanguro, localizada em Querência, no Mato Grosso, em uma zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Eles compararam solos de monoculturas com solos de florestas submetidas a queimadas com diferentes frequências e avaliaram, em laboratório, a presença de carbono, nitrogênio, matéria orgânica, densidade e outros nutrientes.

Dia Nacional da Conservação do Solo: com monoculturas, solo perde até 3x mais carbono do que em queimadas.
Dia Nacional da Conservação do Solo: com monoculturas, solo perde até 3x mais carbono do que em queimadas | Foto: Freepik

“A Amazônia tem enfrentado queimadas florestais frequentes e conversão de floresta para agricultura. Grande parte das pesquisas focaram em quantificar os impactos desses usos sobre a biomassa acima do solo. Nosso estudo mostra o legado e a magnitude de queimas frequentes e conversão de floresta para agricultura sobre a matéria orgânica do solo e outros atributos de saúde do solo no Arco do Desmatamento Amazônico”, salientou Mário Medeiros-Naval, pesquisador da USP e primeiro autor do trabalho, em matéria do Um Só Planeta.

O estudo reforça que, além dos danos ambientais, a monocultura compromete a resiliência e a qualidade do solo a longo prazo, evidenciando a necessidade de conservação do solo com práticas agrícolas mais sustentáveis e biodiversas, uma vez que essas ações podem mitigar a emergência climática.

Práticas de conservação do solo

Um bom exemplo de prática sustentável para preservar a qualidade do solo a longo prazo é a rotação de culturas, estratégia fundamental para sua conservação e recuperação. Essa prática agrícola consiste em alternar diferentes tipos de culturas ao longo das safras, o que traz diversos benefícios: melhora a fertilidade do solo, ajuda no controle natural de pragas e doenças e reduz a erosão causada por ventos e chuvas.

Algumas culturas se destacam nesse processo, como as leguminosas (que fixam nitrogênio no solo), cereais, culturas de cobertura, tubérculos e plantas de raízes profundas, que ajudam a aerar o solo e recuperar nutrientes em camadas mais profundas.

Plantas de raízes profundas ajudam na conservação do solo, deixando-o mais aerado e recuperando nutrientes em camadas mais profundas.
Plantas de raízes profundas ajudam na conservação do solo, deixando-o mais aerado e recuperando nutrientes em camadas mais profundas.

Outra estratégia é a do plantio direto, técnica agrícola que tem se mostrado altamente eficaz na conservação do solo. Nela, os restos da colheita anterior são deixados sobre o solo, formando uma cobertura orgânica que protege a terra contra a erosão, mantém a umidade e favorece a decomposição dos resíduos, o que enriquece o solo com matéria orgânica e nutrientes.

Essa cobertura vegetal também ajuda a regular a temperatura do solo, dificulta o crescimento de plantas daninhas e contribui para uma estrutura mais saudável e estável do solo, reduzindo a compactação e melhorando a infiltração de água.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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