As miragens de Trump e a conta para o Brasil

“Os Estados Unidos acumulam uma década de superávits comerciais com o Brasil e, ainda assim, recorrem a tarifas e pressões políticas. A promessa de tratamento privilegiado pela proximidade com Washington precisa enfrentar esse histórico“

Os Estados Unidos venderam ao Brasil mais mercadorias do que compraram em todos os dez últimos anos completos. Entre 2016 e 2025, acumularam US$ 101,2 bilhões de superávit, segundo o próprio Census Bureau norte-americano. Esse resultado atravessou governos de diferentes orientações nos dois países. O Brasil foi, durante toda a década, um mercado que proporcionou saldo comercial positivo aos americanos. (census.gov)

Em 2025, incluindo serviços, a vantagem norte-americana chegou a aproximadamente US$ 41,8 bilhões, pela soma dos saldos divulgados pelo escritório de representação comercial dos Estados Unidos, o USTR. Os números dão dimensão à distância entre a relação econômica existente e o discurso de Washington sobre os prejuízos que precisaria corrigir. (ustr.gov)

Mesmo assim, Donald Trump empregou tarifas contra produtos brasileiros e vinculou publicamente sua pressão ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro. A justificativa política constou da comunicação oficial da Casa Branca em julho de 2025. Uma relação comercial favorável aos Estados Unidos não protegeu empresas e trabalhadores brasileiros de serem usados como instrumento de pressão sobre o Judiciário do país.(whitehouse.gov)

Esse antecedente precisa ocupar o centro da discussão sobre as vantagens de entrar na órbita de Trump. Miragem orbital ou cilada fatal? 

miragens de Trump

A expectativa de que um presidente brasileiro próximo de Trump receberá tratamento privilegiado depende de uma suposição arriscada: a de que a afinidade entre dirigentes prevalecerá quando os interesses econômicos dos dois países divergirem.

O governo norte-americano já declarou suas prioridades. Mas muita gente não prestou atenção. Sua Estratégia de Segurança Nacional de 2025 propõe restaurar a predominância dos Estados Unidos no hemisfério, impedir que concorrentes externos controlem ativos estratégicos e favorecer governos, partidos e movimentos alinhados à sua orientação. Washington apresenta um projeto de poder para a região e procura parceiros que ajudem a executá-lo. (whitehouse.gov)

Para o Brasil, aceitar essa orientação como caminho automático de prosperidade significa deixar sem resposta questões decisivas. Que concessões seriam exigidas? Quais relações comerciais precisariam ser revistas? Quem definiria as condições de acesso aos minerais, às tecnologias e à infraestrutura? Por favor

A proximidade pode facilitar uma negociação. Também pode produzir disposição para conceder antes de negociar, sobretudo quando o apoio estrangeiro passa a integrar a sustentação política de um governo.

Nas terras raras, a aproximação já envolve dinheiro público norte-americano. Em fevereiro de 2026, a Serra Verde anunciou financiamento de US$ 565 milhões da agência DFC, incluindo opção de participação minoritária do governo dos Estados Unidos. A operação fica em Goiás e integra a busca por fornecedores de materiais estratégicos para indústrias de tecnologia e defesa. (serraverde.com)

DOLAR TERRAS RARS

O anúncio de investimento precisa ser acompanhado das condições que o tornam vantajoso para o Brasil. Quanto conhecimento ficará no país? Onde ocorrerão as etapas industriais de maior valor? Que liberdade haverá para escolher compradores e desenvolver fornecedores nacionais?

A grande cilada será comprometer recursos por décadas em troca de benefícios que não construam capacidade brasileira equivalente. O volume anunciado pode impressionar enquanto as condições comerciais determinam uma dependência duradoura.

Na Amazônia, esse exame alcança minerais, biodiversidade, infraestrutura e conhecimento científico. A região conhece suficientemente a distância entre a riqueza retirada de seu território e as condições de vida de sua população para dispensar entusiasmo automático diante de novas promessas.

O mesmo problema aparece na economia digital. Em fevereiro de 2025, Trump formalizou a possibilidade de retaliações, inclusive tarifárias, contra tributos, multas e regulações estrangeiras considerados discriminatórios contra empresas norte-americanas.

Isso coloca a capacidade brasileira de regular plataformas sob pressão externa. Uma decisão sobre proteção de dados, responsabilidade empresarial ou circulação de informação pode passar a ser tratada como conflito comercial com a maior potência do planeta.

Na segurança, o governo Trump também associa o combate aos cartéis à mobilização militar de países parceiros e ao afastamento de influências externas ao hemisfério. A agenda criminal se conecta expressamente à disputa geopolítica.

O Brasil precisa enfrentar suas facções com eficácia. Justamente por isso, deve preservar autoridade sobre as operações, os objetivos e as responsabilidades de qualquer cooperação. A dependência se aprofunda quando outro governo passa a definir quais ameaças enfrentamos e quais meios devemos aceitar para combatê-las.

A imagem da caverna de Platão ajuda a observar essa política. Na parede aparecem encontros cordiais, declarações de amizade, promessas de proteção e cifras de investimento. A compreensão exige olhar também para quem produz essas imagens e para os interesses que permanecem fora do enquadramento.

Um governo pode chamar de parceria uma relação que reduz suas alternativas. Pode apresentar como prestígio a disposição de atender a prioridades estrangeiras. Pode celebrar investimentos sem explicar por quanto tempo comprometeu a produção ou quais etapas industriais deixou de desenvolver.

A crítica a essas escolhas precisa valer para qualquer vencedor da eleição brasileira. A soberania perde consistência quando muda de significado conforme o aliado estrangeiro ou o ocupante do Planalto.

O Brasil tem interesse em manter relações amplas com os Estados Unidos. Tem igualmente interesse em preservar seus vínculos com outros mercados, desenvolver tecnologia e negociar suas riquezas com capacidade própria. Quanto menores forem suas alternativas, maior será o preço cobrado por quem se apresentar como parceiro indispensável.

Os superávits norte-americanos não impediram o tarifaço; a amizade política tampouco assegura proteção contra o próximo conflito de interesses. A experiência já oferece motivos para desconfiar da promessa de que o país prosperará ao acompanhar as prioridades de Trump.

Se essa promessa justificar concessões sobre recursos, instituições e relações internacionais, a conta poderá sobreviver por muitos anos aos dirigentes que posaram para a fotografia.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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