Meta climática de 90% da União Europeia: espetáculo de números, fracasso de ambição

A União Europeia, após 18 horas de negociação intensa em Bruxelas, apresentou metas que à primeira vista soam emblemáticas: uma redução de emissões de gases de efeito estufa em 90% até 2040, em relação aos níveis de 1990. Contudo, para garantir o apoio de países reticentes (como Itália, Polônia, Eslováquia), foram incluídas cláusulas de flexibilidade — incluindo o direito de adquirir créditos de carbono internacionais, e o adiamento da ampliação do mercado de carbono para transporte e aquecimento de edifícios.

A nova meta climática da União Europeia, anunciada nesta quarta-feira (5/11/2025), chega às vésperas da COP 30 em Belém com o brilho enganoso das cifras redondas e o cansaço moral das velhas promessas. Depois de 18 horas de negociações, o bloco que se proclama vanguarda ambiental saiu de Bruxelas com um número vistoso — redução de 90% das emissões até 2040 — mas um conteúdo decepcionantemente frouxo.

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Emissões de gases de efeito estufa. — Foto: Frank Wagner/GettyImages

Por trás do verniz estatístico, o acordo esconde concessões políticas, exceções industriais e um alvará de indulgência climática: os países europeus poderão comprar até 10% de créditos de carbono internacionais para compensar o que não cortarem em casa. Ou seja, um terço da suposta ambição é apenas contabilidade moral, o velho truque de transferir responsabilidades para o Sul global, onde floresta, rios e povos pagam o preço real das emissões alheias.

As organizações ambientalistas europeias reagiram como se esperava: chamando o pacto de “decepcionante” e “enganosamente otimista”. E têm razão. A União Europeia — o quarto maior emissor do planeta — continua exportando poluentes e importando virtude, empurrando para fora de seu território as emissões industriais que agora renascerão na Ásia, na África e, ironicamente, na própria Amazônia, via acordos de compensação florestal.

O adiamento da ampliação do mercado de carbono para transporte e aquecimento de edifícios — adiado de 2027 para 2028 — é outro sinal de fraqueza política. O recado é claro: a transição energética europeia é sempre para o próximo governo. O presente continua movido a gás russo, carvão alemão e combustível fóssil subsidiado.

Chegar a Belém com um número de impacto era uma necessidade simbólica. O bloco quer se apresentar na Amazônia como líder moral do clima, exigindo compromissos mais duros de países como Brasil, Índia e China. Mas sua liderança é cada vez mais retórica e cínica, baseada em relatórios bem redigidos e metas que empurram o custo para os outros.

O Acordo de Paris, que prometia manter o aquecimento global em 1,5°C, já é uma ficção estatística. Agora, com metas “flexibilizadas” e mecanismos de compensação que perdoam o pecado antes da confissão, o novo pacto europeu parece mais preocupado em preservar o conforto político do Norte do que o equilíbrio climático do planeta.

Dados que impressionam — e dados que incomodam

Porém: o setor de transporte (que representa cerca de ¼ das emissões da UE) tem sido um dos mais problemáticos: aumento ou redução insuficiente — segundo estudo, “road transport is the only sector with rising emissions”.

A meta para 2035 foi fixada entre 66,25% e 72,5% de redução.

E a meta de 2040 permite que até 10% das reduções sejam compensadas via créditos de carbono estrangeiros (alguns relatórios indicam 5% + possibilidade de subir mais) — o que significa que a redução real pode ficar em torno de 80-85%.

Decepção é pouco. A meta europeia de 90% é um número de marketing — um slogan para disfarçar a desistência. Enquanto isso, os efeitos do colapso climático se aceleram e o planeta cobra coerência.

Em Belém, o palco será outro: o da floresta em pé, onde o discurso precisa dar lugar à prática. Talvez a Europa descubra, olhando para a Amazônia, que o futuro verde não cabe nas planilhas — e que a verdadeira meta climática é a coragem de mudar o próprio modelo de desenvolvimento.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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