Mestrinho, o padre Vieira e a chuva dos US$ 100 bilhões

“Gilberto Mestrinho nos lembraria que a Amazônia não pode ser tratada apenas como um depósito de carbono para compensar emissões dos países ricos, enquanto o povo da floresta continua sem acesso a investimentos, tecnologia e desenvolvimento sustentável. Se prometeram essa chuva de dólares para preservar nossa floresta, por que ela só cai em outros lugares?”

Podemos imaginar Gilberto Mestrinho, neste 23 de fevereiro de 2025, aos 97 anos – sempre afiado em sua visão crítica sobre o papel das potências estrangeiras na Amazônia – evocando mais uma vez a célebre frase do padre Antônio Vieira: “Não querem nosso bem, mas os nossos bens.”

Se estivesse vivo para comentar o não cumprimento do compromisso dos países desenvolvidos em repassar os 100 bilhões de dólares anuais prometidos no Acordo de Paris (2015), Mestrinho provavelmente denunciaria a hipocrisia da comunidade internacional. Ele destacaria que, enquanto esses países exigem proteção ambiental dos países periféricos, não cumprem sua parte no financiamento necessário para que essas nações possam preservar seus recursos naturais sem sacrificar o desenvolvimento econômico e social.

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Mestrinho, que em 1992 levou o então chanceler alemão Helmut Kohl e a imprensa internacional para sobrevoar a Amazônia e desmontar a farsa de que as queimadas eram o principal problema do aquecimento global, possivelmente faria hoje um gesto semelhante. Talvez convidasse líderes mundiais a visitar a floresta para ver não apenas o que precisa ser preservado, mas também a ausência do tão falado financiamento climático.

Entre as lideranças mundiais trazidas a Manaus bom, Gilberto recebeu o príncipe Charles, da Inglaterra, com quem comentou a existência de uma réplica da floresta amazônica no Museu Botânico Imperial de Kew Gardens, onde os ingleses plantaram milhares de espécies para replicar e climatizar tesouros botânicas da Amazônia.

Gilberto faleceu em 2009 e o Acordo de Paris foi firmado em 2015. Vivo estivesse seria um momento oportuno para questionar: “Se prometeram essa chuva de dólares para preservar nossa floresta, por que ela só cai em outros lugares?”, parafraseando Vieira em seu sermão de 1640 sobre a Bahia.

Em tempos de COP30 e de discussões cada vez mais acaloradas sobre transição ecológica, Gilberto Mestrinho nos lembraria que a Amazônia não pode ser tratada apenas como um depósito de carbono para compensar emissões dos países ricos, enquanto o povo da floresta continua sem acesso a investimentos, tecnologia e desenvolvimento sustentável.

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Seja no século XVII com Vieira, no século XX com Mestrinho ou no século XXI com os atuais debates climáticos, a lógica do extrativismo global continua a mesma. O desafio é fazer com que os que sugam as riquezas da Amazônia finalmente reconheçam que ela precisa de muito mais do que promessas vazias.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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