Lista dos 25 macacos mais ameaçados do mundo tem três espécies brasileiras

Em um ano marcado pelas fortes queimadas nos biomas nacionais, a lista dos 25 primatas mais ameaçados de extinção do mundo inclui três macacos brasileiros: o sagui-da-serra-escuro, sauim-de-coleira e bugio marrom. Desenvolvido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) junto com a Sociedade Internacional de Primatologia e a Conservação Internacional, o estudo “Primatas em Perigo” (Primates in Peril, no original) chamou atenção para as causas que contribuem para a redução das espécies de macaco em todo mundo.

Das 25 espécies destacadas pelo estudo, além das três que ocorrem no Brasil, há outras três espécies latino-americanas; 12 do continente africano, sendo cinco delas endêmicas da ilha de Madagascar; e sete que ocorrem em diferentes países da Ásia.

((o))eco destacou os três primatas brasileiros que integram a lista e quais as principais ameaças e pressões sofridas por eles:

Sagui-da-serra-escuro

A fragmentação do habitat, um recente surto de febre amarela e a competição e hibridação com espécies invasoras são os motivos que dizimaram e deixaram em risco de extinção a população do sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita). De acordo com o estudo feito para a produção da lista, atualmente existem apenas cerca de mil animais da espécie.

Após estudarem o primata durante cinco anos na Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, especialistas identificaram a substituição da espécie nativa da região por híbridos, fruto da invasão de outros saguis.

MiniOeco C. aurita 2 PREA
O ameaçado sagui-da-serra-escuro. Foto: Rodrigo Bramili/PREA

Endêmico da Mata Atlântica e exclusivo do Brasil, o sagui-da-serra-escuro também sofre com as invasões nos outros estados em que ocorre, como Minas Gerais e São Paulo. “Na Serra da Cantareira (SP), invasores e híbridos estão presentes tanto no interior quanto nas áreas particulares de entorno do PE [Parque Estadual da] Cantareira, situação que não ocorria há 10 anos no interior da referida unidade de conservação”, aponta um levantamento feito pelo ICMBio.

Como a região sudeste foi a mais afetada pelo surto de febre amarela em 2017 (o maior das últimas cinco décadas), o vírus foi outro agente causador da diminuição da população do sagui.

Na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, um projeto para conservação do primata e do seu ecossistema resultou na criação do Centro de Conservação dos Saguis-da-Serra. Além de trabalhar com o sagui-da-serra-escuro, o centro será o único do mundo a desenvolver pesquisas para proteger o sagui-da-serra (Callithrix flaviceps), popularmente conhecido como sagui-taquara, que também corre risco de extinção. Com as obras interrompidas por conta da pandemia do novo coronavírus, a iniciativa tem expectativas de terminar a estrutura ainda neste ano para cuidar de dois casais do sagui-da-serra-escuro, que entrou para a lista dos macacos mais ameaçados do mundo.

“Não estamos cuidando de nenhum animal ainda, em função disso, mas devemos receber os dois primeiros casais de aurita [sagui-da-serra-escuro] mês que vem”, conta Fabiano Melo, coordenador do CCSS e professor do departamento de Engenharia Florestal da UFV.

Para dar visibilidade à espécie, estudiosos e pesquisadores que atuam na cidade de Viçosa conseguiram fazer com que o animal se tornasse mascote oficial da cidade e ganhasse uma data, 17 de junho, Dia Municipal do Sagui-da-Serra-Escuro.

Sauim-de-coleira

Conhecido por ter uma faixa branca de pêlos que vai da metade superior do peito até o pescoço, o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) é endêmico da Amazônia brasileira, vivendo principalmente em Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara, no estado do Amazonas. Por não se adequar ao meio urbano da capital amazonense, essa espécie sofre graves riscos de extinção. As ameaças vão de atropelamento a ataques de animais domésticos e até acidentes com cabos de energia. Outro ponto de atenção é a captura do primata para o comércio ilegal.

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Sauim-de-coleira no zoológico de São Francisco.
Foto: Seglea/Wikimedia Commons

Já nas outras cidades, em áreas mais afastadas do convívio humano, o primata sofre com o desmatamento e a competição com o sagui-de-mão amarela (Saguinus midas). Esse conjunto de fatores já causou uma perda estimada de 80% na população do sauim-de-coleira. A Lista Vermelha da IUCN classifica a situação do animal como “Criticamente Em Perigo”. Da mesma forma, o ICMBio incluiu o primata na Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

Há ainda uma terceira razão que pode colaborar para a diminuição da espécie: a proliferação de doenças entre a população. De acordo com o estudo, há projetos que investigam a relação da ameaça de extinção do primata com a zika, a dengue e a chikungunya.

Como tentativa de reverter essa situação, o ICMBio criou o Plano de Ação Nacional (PAN) para Conservação do Sauim-de-Coleira. A iniciativa investe na promoção de cuidados com o habitat do animal e na educação ambiental na região metropolitana de Manaus.

Bugio Marrom

Com a importante função de dispersar sementes em seu habitat por ser alimentar de frutas e folhas, o bugio marrom (Alouatta guariba) é o terceiro primata que vive no Brasil na lista dos 25 mais ameaçados de extinção. Endêmica da Mata Atlântica brasileira e argentina, esta espécie vem perdendo o espaço na natureza desde a chegada dos europeus na América do Sul.

A exploração de recursos naturais, como a madeira, a pecuária e o cultivo extensivo de café e açúcar contribuem para a redução de habitat do animal e, consequentemente, para a sua locomoção para espaços urbanos, onde sofrem outros riscos.

Bugio Wikimedia
O bugio marrom é vulnerável à febre amarela, um dos fatores que contribui para seu risco de extinção. Foto: Wikimedia

Embora existam alguns dados locais sobre a população do animal no Brasil, estudiosos e pesquisadores não chegaram a um consenso sobre o número total em todo o território nacional. O estudo estima que a situação seja ainda pior na Argentina, onde alguns grupos da espécie têm apenas de 20 a 50 indivíduos.

Além disso, assim como o sagui-da-serra-escuro, são altamente vulneráveis a febre amarela. Os dois últimos surtos, em 2009 e 2017, afetaram fortemente as populações de bugio marrom. Somado a isso, a desinformação levou pessoas a matarem ou ferirem o primata com a falsa crença de que poderiam ser contaminados em contato com o animal.  Não é a primeira aparição do bugio-marrom na lista dos primatas mais ameaçados. A espécie também integrou a lista válida entre 2012 e 2014.

Confira aqui o relatório na íntegra, em inglês.

Fonte: O Eco

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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