Os desafios da legislação ESG Europeia para o Polo Industrial de Manaus

A conformidade com a legislação ESG Europeia não deve ser vista apenas como uma obrigação regulatória, mas como uma oportunidade estratégica para as indústrias da Zona Franca de Manaus. A adoção de práticas sustentáveis torna as empresas mais resilientes, atrativas para investidores e parceiros comerciais, além de melhorar sua reputação no mercado internacional.

Por Régia Moreira Leite
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A crescente regulamentação europeia em torno das práticas ESG (Ambiental, Social e Governança) tem se tornado um importante norte para empresas de todo o mundo, inclusive para aquelas situadas na Zona Franca de Manaus (ZFM), cuja relevância para o desenvolvimento sustentável do Brasil é amplamente reconhecida. A recente aprovação da Diretiva de Due Diligence de Sustentabilidade Corporativa (CS3D) no Parlamento Europeu traz desafios e oportunidades para as indústrias que dependem das cadeias de fornecimento globais, impactando diretamente empresas que têm negócios com a União Europeia (UE).

A Lei ESG da União Europeia e suas implicações

Em linha com o Green Deal, o Pacto Verde da UE, a CS3D visa regulamentar e monitorar as cadeias de fornecimento de empresas europeias e de seus parceiros comerciais em questões ambientais e de direitos humanos. Essa medida se aplica a empresas com mais de mil colaboradores ou faturamento superior a 450 milhões de euros, além de negócios estrangeiros que operam na Europa e excedem esse volume de receita. A partir de 2027, essas empresas estarão sujeitas a rigorosos processos de auditoria e, em caso de descumprimento, poderão enfrentar multas de até 5% de seu faturamento global.

O impacto dessa legislação transcende o bloco europeu, já que o Brasil, sendo um dos maiores exportadores para a Europa, será diretamente afetado. O Polo Industrial de Manaus, responsável por integrar inovação e preservação ambiental no coração da Amazônia, deve se preparar para um cenário de conformidade e adequação às novas exigências da CS3D, especialmente no que tange ao monitoramento das cadeias produtivas e à transparência dos relatórios ESG.

Cadeia de fornecimento: um escopo de emissões escondido

De acordo com dados da Carbon Disclosure Project (CDP), mais de 90% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) das maiores empresas globais não estão concentradas em suas operações diretas, mas na cadeia de fornecimento, o chamado Escopo 3. Isso significa que as indústrias da Zona Franca de Manaus, muitas das quais interagem direta ou indiretamente com a Europa, precisarão adotar práticas de diligência contínua e mensuração da sustentabilidade de suas cadeias produtivas, alinhando-se às exigências da legislação europeia.

ESG EUROPEIA
Foto divulgação

Na ZFM, onde a premissa de equilíbrio entre desenvolvimento industrial e proteção ambiental é vital, a adequação à normativa da UE será decisiva para garantir que as indústrias locais continuem competitivas e atraentes no cenário global. No entanto, essa adaptação exige esforços de monitoramento de fornecedores, para prevenir impactos negativos como desmatamento, condições de trabalho precárias e exploração de recursos naturais sem planejamento adequado.

Ajustes necessários para o Polo Industrial de Manaus

O Polo Industrial de Manaus, que já lida com os desafios de aliar inovação tecnológica e sustentabilidade, enfrenta um momento decisivo de transição. Embora algumas empresas já tenham adotado boas práticas ESG, muitas ainda estão em processo de adaptação, especialmente no que diz respeito à conformidade com a CS3D. A implementação de processos robustos de auditoria e a divulgação regular de relatórios de sustentabilidade são etapas fundamentais para essa adequação.

A tecnologia será uma aliada importante nesse processo. Hoje, diversas plataformas automatizadas permitem que empresas monitorem suas cadeias de fornecimento, identificando riscos socioambientais em tempo real e assegurando a conformidade com a legislação internacional. Para o Polo Industrial de Manaus, a adoção dessas soluções tecnológicas pode não apenas mitigar riscos, mas também fortalecer sua posição como um modelo de desenvolvimento sustentável.

Competitividade e sustentabilidade: oportunidades para a ZFM

A conformidade com a legislação ESG da UE não deve ser vista apenas como uma obrigação regulatória, mas como uma oportunidade estratégica para as indústrias da Zona Franca de Manaus. A adoção de práticas sustentáveis torna as empresas mais resilientes, atrativas para investidores e parceiros comerciais, além de melhorar sua reputação no mercado internacional. A ZFM, que já possui um papel central na preservação da Amazônia, pode utilizar essa nova realidade para fortalecer seu diferencial competitivo, consolidando-se como um polo industrial sustentável e inovador.

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Imagem criada por inteligência artificial

A partir dessa perspectiva, os ajustes necessários para a conformidade com a CS3D, longe de serem um fardo, podem ser um catalisador para uma nova fase de crescimento e inovação na Zona Franca de Manaus, reforçando a importância de uma economia baseada na preservação da floresta em pé e no desenvolvimento sustentável.

Observações finais

A legislação ESG europeia representa um desafio, mas também uma oportunidade para as indústrias da Zona Franca de Manaus. Adequar-se às novas exigências será fundamental para garantir a continuidade e o sucesso dos negócios que operam com o mercado europeu, ao mesmo tempo em que reafirma o compromisso da ZFM com a sustentabilidade. Ao utilizar a tecnologia como aliada e adotar práticas de due diligence robustas, as empresas podem transformar essa obrigação regulatória em uma vantagem competitiva, consolidando seu papel no cenário global e na proteção da Amazônia.

Regia Moreira Leite 3
Régia Moreira Leite
Régia Moreira Leite
Régia Moreira Leite é economista, administradora, empresária, coordenadora da Comissão ESG e conselheira do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas

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