Incertezas

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* Professor emérito da UFMG. Foi Ministro do Planejamento e da Fazenda no Governo Itamar Franco.

——– Paulo R. Haddad* ——–

No início dos anos 1930, sem perceber a profundidade da crise econômica que se iniciara em outubro do ano anterior, o Presidente dos Estados Unidos Herbert Hoover começava a enfrentar os problemas econômicos e sociais da Grande Depressão. Consultou o seu Ministro da Fazenda (Secretary of Treasury nos EE.UU.) sobre quais as medidas que deveria tomar para reduzir o desemprego (que atingiria 25 por cento em 1933), atenuar crises na Bolsa de Valores e mitigar a insatisfação de empresários, industriais e fazendeiros.

Andrew Mellon, que foi o Ministro da Fazenda de três Presidentes norte-americanos entre 1921 e 1932, e um dos homens ricos daquele país, se opunha firmemente a qualquer intervenção maior do governo para corrigir os rumos da economia, até mesmo à expansão monetária (o que foi considerado um grande erro por Milton Friedman). Respondeu prontamente à indagação do Presidente: “Liquidem-se empregos, liquidem-se as ações, liquidem-se fazendeiros, liquidem-se imobiliárias… E o resultado aparecerá, pois a podridão será expurgada do sistema… o povo viverá uma vida mais digna… e as pessoas empreendedoras resgatarão os destroços das pessoas menos competentes”.

Liberalismo radical 

Tratava-se de uma proposta de austeridade dentro da filosofia de um liberalismo radical, que procurava restringir a intervenção do Estado na dinâmica do ciclo econômico depressivo e ampliar o escopo do mercado na “depuração” do sistema. Mellon propunha que as forças dos mercados fariam com que sobrevivessem apenas os mais eficientes, numa espécie de darwinismo econômico.

De 1933 a 1937, o Presidente Roosevelt adotou uma política do estilo Keynesiano de defesa dos níveis do emprego e da renda, com grandes investimentos em obras públicas e com políticas sociais compensatórias. A economia norte-americana cresceu 45 por cento no período.

Dilemas sobre a retomada 

Esse descompasso entre as escolhas de políticas econômicas serve para ilustrar os dilemas atuais sobre o que fazer com a nossa economia no período pós-pandemia, diante de três grandes incertezas. Uma incerteza quanto ao ciclo da cadência e da extensão da pandemia no nosso País para definir uma perspectiva para a retomada do crescimento econômico. Há grande probabilidade de que as adequadas políticas compensatórias de renda para as famílias e de apoio de capital de giro para as empresas venham a ter uma nova rodada do Tesouro Nacional no próximo trimestre.  Outra incerteza sobre qual deveria ser a nova política econômica pós pandemia, com propostas que vão desde uma grande emissão controlada de moeda através da compra de títulos até o uso das reservas internacionais para combater a crise atual, passando pela proposta de pequenos ajustes na política econômica pré-pandemia. E uma terceira incerteza quanto à possibilidade da recessão se transformar numa depressão econômica ainda no segundo trimestre.

Risco, ambiguidade, incertezas e ignorância 

Estamos, pois, num processo de decisão com conhecimento imperfeito, que tem informações incompletas, o qual pode ter quatro formas básicas: risco, ambiguidade, incerteza e ignorância. A melhor alternativa para o País é, tal como no caso do controle da atual pandemia, deixar que as propostas de solução para a crise do organismo econômico venham do conhecimento científico e não de quem nem mesmo não sabe o que não sabe.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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