III Fórum ESG Amazônia: o Ensaio Geral do PIM para a nova gramática UE-Mercosul

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Há eventos que se encerram quando as luzes do auditório se apagam. E há eventos que começam exatamente ali, quando o aplauso termina e sobra o único território onde a reputação se prova: a execução. O III Fórum ESG Amazônia, conduzido por CIEAM e SUFRAMA, está diante dessa encruzilhada silenciosa. Ele pode ser mais uma vitrine bem-intencionada — ou pode se tornar instrumento de método, uma engrenagem anual que organiza o Polo Industrial de Manaus para disputar o futuro com régua própria.

Providência é estratégia

A diferença não está no tema, porque o tema é indiscutível. A diferença está nas providências. E providência, neste caso, não é burocracia: é estratégia de sobrevivência. O mundo entrou numa era em que sustentabilidade deixou de ser medalha e passou a ser senha de acesso. Não se compra mais discurso; compra-se evidência. Não se premia mais promessa; premia-se prontidão. 

E o nome que o Polo escolheu para essa prontidão — ZFM+ESG — só ganhará densidade se for tratado como infraestrutura de mercado, e não como identidade decorativa.

A Europa cobra antes do rito

Agora, porém, há um fator novo que torna tudo mais urgente do que parecia ontem. O Acordo UE–Mercosul não é mais hipótese distante: a União Europeia já sinaliza movimentos institucionais para assinatura definitiva e para aplicação provisória de partes do acordo enquanto a ratificação completa não se conclui.

Isso significa que o mundo pode começar a cobrar resultados, rotas e conformidades antes mesmo de o tratado virar “definitivo” no rito formal. E quando o mercado antecipa a cobrança, quem se antecipa na preparação ganha vantagem; quem espera pela formalidade perde tempo — e tempo, no comércio contemporâneo, é uma forma de tarifa invisível.

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O mundo avalia sistemas

É aqui que o Fórum se separa de um evento e se aproxima de um marco. Um marco exige uma pergunta incômoda, e o Polo precisa encará-la sem tremor: o que o PIM será capaz de provar, como conjunto, no primeiro ciclo de exigência real que o Acordo UE–Mercosul tende a acelerar?

Não como coleção de cases isolados, mas como ecossistema industrial coerente. Porque o mundo não avalia ilhas; avalia sistemas. E o PIM, se pretende ser o conglomerado ESG mais destacado do continente, precisa se apresentar como sistema — justamente no momento em que a Europa eleva a régua e reforça a gramática da evidência.

Métrica, rotina, verificação

Há um interlúdio que precisa ser dito com franqueza industrial. A era do ESG “de PowerPoint” terminou. O mercado global não tem tempo para folclore corporativo. Ele não pedirá slogans; pedirá métrica. Não aceitará promessa; exigirá rotina. Não se satisfará com autoavaliação; solicitará verificação. 

E isso precisa ser preparado antes do Fórum, ainda que a minuta formal só seja publicada na semana anterior. A minuta, sozinha, não cria método. O método nasce de alinhamento prévio, de governança simples, de decisão coletiva sobre um mínimo comum que sustente a reputação do conjunto.

O centro de gravidade

Entre o “querer ser” e o “ser”, há um abismo que só se atravessa com método. O primeiro gesto de método é escolher um centro de gravidade. O Fórum precisa nascer com uma ideia nuclear capaz de organizar tudo o que vier em volta: ZFM+ESG como regime de competitividade e estabilidade. Isso muda o tom do evento por completo. 

Porque estabilizar não é apenas reduzir emissões; é garantir previsibilidade, reduzir risco, evitar choques, proteger emprego e manter coesão econômica e social do território industrial. Sem essa ancoragem, ESG vira moralismo corporativo: bonito, mas frágil. Com essa ancoragem, ESG vira engenharia: auditável, defensável, exportável.

Abraçar tudo é perder tudo

E, como toda engenharia séria, ela precisa de foco. Há outra armadilha recorrente — e muito brasileira — que precisa ser desarmada a tempo: tentar abraçar vinte temas para não desagradar ninguém. Um Fórum que tenta abarcar tudo se torna incapaz de entregar algo. 

O sucesso do III Fórum dependerá de uma coragem elegante: escolher poucas trilhas e tratá-las como espinha dorsal de um ciclo de 12 meses, com prazos e resultados visíveis. Não por falta de ambição, mas por excesso de inteligência. Porque o Acordo UE–Mercosul, mesmo em regime provisório ou gradual, tende a premiar quem chega com documentação, governança e prontidão, e a punir quem chega com retórica e improviso.

Chegar com coisas andando

Surge então um interlúdio mais concreto, quase decisivo para a percepção externa. O símbolo mais convincente de um Fórum bem-sucedido é ter, na plateia, coisas que já começaram. Não importa se ainda são pilotos, se ainda estão aprendendo, se ainda não alcançaram a perfeição. Importa que existam. Porque quando existem, o Fórum deixa de funcionar como convocação e passa a funcionar como relatório de avanço. E isso muda a credibilidade. Muda a atmosfera. Muda a natureza do próprio ZFM+ESG.

Floresta em pé: prova, não metáfora

A partir daí, o diferencial amazônico pode cumprir seu papel sem cair no exagero que destrói confiança. O PIM tem um argumento singular: a indústria como guarda-chuva verificável da floresta em pé. Mas a Amazônia é o lugar onde o mundo aprendeu a desconfiar de frases bonitas. Por isso, a providência mais sofisticada do III Fórum é também a mais prudente: transformar o diferencial amazônico em evidência auditável, sem propaganda, sem promessa totalizante, sem frases que não sobrevivem à verificação. 

Impacto territorial é mensurável. Emprego e renda são mensuráveis. Qualificação, inovação, P&D, produtividade material e encadeamentos econômicos também. O Polo não precisa afirmar que “salva a floresta”. Precisa provar que reduz pressão econômica sobre ela ao oferecer um caminho produtivo capaz de disputar, com seriedade, a economia predatória.

Uma declaração que não seja poema

E então, por fim, o Fórum poderá produzir a entrega que realmente importa. Não uma declaração cerimonial, mas um compromisso com calendário. Poucos compromissos, indicadores definidos, prazos objetivos e uma governança de acompanhamento que transforme o evento em engrenagem anual. O Brasil já coleciona cartas que não mudam nada. O que o III Fórum precisa é inaugurar um regime de prova — porque é isso que o Acordo UE–Mercosul, em sua iminência e em sua lógica de evidência, tende a antecipar.

Chegar primeiro não é acaso

A melhor preparação para o III Fórum ESG Amazônia, portanto, não é aumentar o espetáculo. É aumentar a densidade. É fazer com que ZFM+ESG deixe de ser um nome promissor e vire um método verificável. E métodos verificáveis não nascem no palco; nascem antes, nas providências invisíveis que organizam o palco para que ele produza continuidade.

O Polo Industrial de Manaus já tem escala, já tem tradição e já tem um território simbólico que nenhuma outra planta industrial do continente possui. Falta consolidar aquilo que o mundo mais respeita quando o comércio vira régua: método.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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