“A visita de Xi Jinping a Donald Trump produziu entendimentos sobre comércio, agricultura, minerais e carvão. Para o Brasil, os efeitos ainda dependem de execução; para a Amazônia, as prioridades escolhidas pelos dois governos já merecem atenção”
O granito de Washington e os interesses da Amazônia
A visita de Xi Jinping a Donald Trump produziu entendimentos sobre comércio, agricultura, minerais e carvão. Para o Brasil, os efeitos ainda dependem de execução; para a Amazônia, as prioridades escolhidas pelos dois governos já merecem atenção.
Donald Trump mostrou a Xi Jinping as obras da Casa Branca e o granito que mandou instalar. A visita de Estado ofereceu imagens de cortesia entre os presidentes das duas maiores economias do mundo. A reportagem do New York Times enviada ao BAA observa que, em público, a cerimônia ocupou mais espaço do que as respostas sobre os assuntos que levaram os dois a Washington. No dia seguinte, a Casa Branca publicou uma ficha com os resultados que atribui ao encontro. É nesse documento, e na distância entre anúncio e execução, que começam as perguntas para o Brasil.
Os Estados Unidos e a China prorrogaram por dois meses a trégua comercial que venceria em novembro. Segundo a Casa Branca, passaram também a operar dois canais bilaterais, um para comércio e outro para investimentos. No primeiro, os países chegaram a recomendações de tratamento tarifário mais favorável para US$ 30 bilhões em mercadorias de cada lado. A palavra recomendações importa: a ficha não traz o cronograma de redução das tarifas nem uma lista completa das linhas de produtos que terão suas condições alteradas.
O documento americano inclui produtos agropecuários entre os bens dos Estados Unidos contemplados nas discussões e anuncia um grupo de trabalho sobre barreiras de acesso a esse mercado. É o ponto de contato mais imediato com o Brasil. Em agosto deste ano, a China recebeu 71,2% do valor da soja em grãos exportada pelo país, segundo o Ministério da Agricultura.
Uma abertura adicional para produtores americanos pode disputar parte das compras chinesas e influenciar preços. O resultado dependerá das regras adotadas, da safra e dos custos de cada origem. Ainda não há números que permitam estimar uma perda brasileira decorrente desta reunião.
O olhar amazônico encontra outra notícia na mesma ficha. A Casa Branca afirma que a China importará ao menos 10 milhões de toneladas de carvão dos Estados Unidos em 2027 e repetirá o volume em 2028. Trata-se, por enquanto, de um compromisso anunciado pelo governo americano, a ser verificado nas compras efetivas.
Mesmo assim, a presença do carvão entre os resultados, sem uma entrega climática correspondente no documento, expõe a orientação desta rodada de negociações. A Amazônia vive as consequências do aquecimento, dos extremos de seca e da fumaça; suas perspectivas econômicas também dependem de um mundo capaz de reduzir emissões. Em 2025, o desmatamento consolidado na Amazônia Legal ainda alcançou 5.731 km², segundo o INPE.
Os minerais críticos completam o quadro. Washington informa que continua a negociar com Pequim o abastecimento de terras raras e outros insumos estratégicos. A Agência Nacional de Mineração registra que a Amazônia Legal concentra 48,2% dos processos brasileiros relacionados a minerais críticos e estratégicos. Processos minerários não equivalem a reservas comprovadas ou produção disponível.
A recém-sancionada política nacional para o setor oferece ao país um caminho mais exigente: desenvolver pesquisa, beneficiamento e indústria, com atenção aos impactos territoriais e aos direitos das populações locais. O Polo Industrial de Manaus e as universidades do estado têm interesse direto em saber quais etapas dessas cadeias poderão ser feitas aqui.
Há ainda um descompasso comercial. Enquanto Washington e Pequim estabelecem instâncias para administrar suas divergências, parte das exportações brasileiras continua sujeita às sobretaxas americanas. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estima que as novas medidas alcançam 23,1% das vendas do Brasil aos Estados Unidos, tomando 2024 como base. A ficha da visita de Xi não anuncia qualquer revisão desse tratamento dado ao Brasil.
A cordialidade entre Trump e Xi pode aliviar incertezas no comércio mundial. O interesse brasileiro exige acompanhar a letra das decisões seguintes: quais tarifas de fato cairão, quanto a China comprará dos agricultores americanos, como evoluirá a disputa pelos minerais e se o compromisso com o carvão será cumprido. Para a Amazônia, há uma tarefa simultânea. Ela precisa chegar a essas conversas com projetos de indústria, ciência e floresta em pé suficientemente concretos para disputar investimento e valor, em vez de esperar que a aproximação entre as potências defina seu papel.
Fontes para consulta
● The New York Times, edição internacional de 26 de setembro de 2026.
● Casa Branca, ficha de resultados da visita, 25/09/2026.
● Ministério da Agricultura, nota de comércio exterior do agronegócio, agosto de 2026.
● Agência Nacional de Mineração, diagnóstico sobre minerais críticos na Amazônia Legal.
● Ministério da Fazenda, política nacional de minerais críticos, 18/09/2026.
● MDIC, alcance das tarifas americanas sobre o Brasil, 24/07/2026.