“Abençoa, Senhor, os desvalidos — e acorda os satisfeitos. Porque se a nossa fé não vira mão estendida, ela vira ornamento. E o ano novo, sem misericórdia, é só calendário”
No último dia de 2025, dá vontade de segurar o tempo com as duas mãos e ouvir, com mais atenção, o que ele tentou nos ensinar: a vida tem altos e baixos — e as lições não caem do calendário; elas nos visitam para que a gente melhore. E melhorar não é um efeito automático do ano novo. Mudar depende mais de nós — daquilo que escolhemos como importante — do que do relógio.
E há uma imagem que volta como canção antiga: a chuva que embala um sono aqui, mas, noutro canto, vira desespero. A mesma água que acalma, também pesa. Há inocentes e desvalidos para quem o mundo pode parecer castigo — um menino autista, por exemplo, e um pai que vende tucumã na rua somando esperança em moedas para pagar escola. Não precisamos de nomes quando a realidade já grita.
A escolha, então, é simples e imensa: melhorar o mundo para que ele não seja castigo de ninguém. E essa melhora não pode ser só “minha” ou “sua”. É para todos nós — e esse “nós” tem corpo largo: inclui circunstâncias, contingências, o outro e também a atmosfera, o ambiente, o universo nano, micro e macro. Porque o outro não é um detalhe: é parte do ar que a gente respira.
Por isso, hoje eu queria fazer uma “massagem” na alma coletiva: que a gente escolha, com urgência e beleza, o verbo compartilhar no seu melhor sentido.
Compartilhar tempo. Compartilhar escuta. Compartilhar um contato que abre uma porta. Compartilhar um pouco do que sobra — e, quando não sobra, compartilhar presença, palavra, gesto, caminho.
Heráclito, 540 anos antes de Cristo, lembrava, à sua maneira, que a vida não cabe num carimbo: há um preço “burocrático” quando a gente tenta separar consciência de existência, como se pensar fosse uma coisa e viver outra. Não dá. O que eu entendo do mundo vira responsabilidade. O que eu vejo do mundo vira compromisso.
E é aqui que a esperança deixa de ser enfeite e vira método: todos fazemos parte de uma teia preciosa, e essa teia nos une a tudo que existe — gente, rios, árvores, trabalho, infância, silêncio, céu. Quando a mão se estende, a teia vibra. Quando a mão se fecha, a teia rasga.
Que 2026 seja espetacular, especial e mágico — não por superstição, mas por decisão. Basta fazermos as melhores escolhas: menos indiferença, mais partilha; menos julgamento, mais serviço; menos distância, mais mão estendida.
BrasilAmazoniaAgora – Alfredo Lopes
*Baseada em fatos e dados reais